Casa nova

A transição foi lenta, gradual e segura. Durante um ano, postei nesse blog os textos publicados no site novo, mairakubik.com

Agora, me despeço do Viva Mulher. Foi muito bom enquanto durou. Debates intensos, milhares de visitantes e comentários. Agora seguimos em uma nova casa, mais moderna.

Obrigada a todxs que participaram deste espaço!



Escrito por Maíra Kubík Mano às 09h24
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Obrigada, Madonna, por deixar esse mundo menos careta

Pois é. O tal show da Madonna. Em pleno Stade de France, aquele mesmo onde o Brasil perdeu a final da Copa do Mundo em 1998, a cantora projetou a imagem da ultra-direitista Marine Le Pen com uma suástica na testa. Um chute no estômago com um quê de Tarantino.

“Nós entendemos como cantoras velhas precisam ir a tais extremos para fazer com que as pessoas falem sobre elas”, havia dito Le Pen quando Madonna fez a mesma coisa, um pouco antes, em Israel.

Não, ma chère, não é isso. Você é apenas a bola da vez. O assunto do momento.

Agradeço a Madonna por mostrar em um telão o que todos já sabiam: que a terceira pessoa mais votada para a Presidência da França é uma nazi-fascista. Na contemporaneidade, espero que marcas virtuais possam ser tão indeléveis quanto aquelas feitas pelos bastardos inglórios.

Mas também lhe sou grata por muitos, muitos outros momentos.

Obrigada, Madonna, por se vestir de noiva e cantar “Like a Virgin” em cima de um bolo de casamento, causando a ira dos cristãos. Pobrezinhos, achavam que você estava acabando com os “valores da família”.

Obrigada, Madonna, por ter desejos sexuais por um santo negro em “Like a Prayer” e colocar de cabeça para baixo o que há de sacro na Igreja.

Obrigada, Madonna, por simular masturbação no palco durante uma de suas turnês.

“Eu sei que eu não sou a melhor cantora e sei que não sou a melhor dançarina. Mas, porra, eu posso criar bordões e ser tão provocante quanto eu quiser. O objetivo da turnê é de quebrar tabus inúteis”, disse ela certa vez.

Obrigada, Madonna, por falar palavrões na TV e beijar outras mulheres na boca.

Obrigada, Madonna, por deixar esse mundo um pouco menos careta.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 14h58
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Para Polícia Civil, mulher é estuprada porque está distraída

Segundo uma matéria veiculada pela RBS, a principal rede de tv no Sul do país, os casos de estupro aumentaram 7% na região em relação ao ano passado. Se fosse apenas pelo índice, a notícia já seria bastante chocante. Porém, o que mais chama atenção na reportagem não é a triste estatística, e sim a declaração de uma representante da Polícia Civil.

Entrevistada, a delegada Marina Goltz recomendou que as mulheres devem “evitar andar na rua falando no celular ou ouvindo música no MP3 Player, porque os estrupradores normalmente abordam mulheres desatentas”.

Ou seja, se você estiver, por exemplo, sozinha em uma avenida, à noite, esperando o ônibus depois de um dia cheio de trabalho, resolver amarrar o cadarço do tênis e acabar estuprada, a culpa é sua. Quem mandou abaixar para dar um nó?

E se a sua mãe ligar para saber se você já está chegando para o jantar e – bingo! – você é estuprada? Culpa sua, prestou atenção no celular tocando sem parar!

E que ideia de jerico foi essa de comprar um rádio para esfriar a cabeça naqueles 40 minutos que você vai sacolejar no coletivo? Não pode! Senão você vai ser estuprada e tudo porque você resolveu ouvir música!

Que lógica é essa, minha gente?

Para mim, parece algo muito semelhente ao comentário de um policial canadense que deu origem à Marcha das Vadias: “não use saias curtas para não provocar os estupradores”. Ou seja, a responsabilidade maior do estupro não é do homem que decide violentar uma mulher, mas sim dela, a vítima, que “deu brechas” para sofrer tal abuso.

É inadmissível que a Polícia se pronuncie dessa maneira. Está mais do que na hora de as autoridades superarem seu pensamento machista e compreenderem que quem deve ser punido e sofrer restrições de circulação em sociedade é o estuprador. As mulheres precisam ter assegurado seu direito de ir e vir, em qualquer horário, em qualquer lugar, distraídas ou atentas.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 16h01
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Sensacionalismo de gênero, o novo jornalismo da Paraíba

Corpos mutilados, sem roupas, com tarjas nos olhos. É assim que as mulheres vítimas de violência têm aparecido na imprensa paraibana. Aos olhos desapercebidos pode parecer um sensacionalismo qualquer de jornal querendo alavancar vendagem, mas não é: essas publicações têm um evidente recorte de gênero.

Não se trata apenas de usar deliberadamente uma imagem chocante – prática antiga e infeliz no jornalismo –, mas também de reforçar que a vítima é uma mulher, ou seja, uma pessoa que está propensa a sofrer violência pelo simples fato de pertencer ao sexo feminino.

Crimes como estupro, assassinatos por maridos e ex-companheiros, abusos de toda ordem por chefes, pais, tios e irmãos, entre outros, são crimes de gênero. Acontecem porque vivemos em uma sociedade onde os homens entendem que podem cometê-los. E alardeá-los na mídia com todos os detalhes e sem qualquer tipo de crítica só reforça a naturalização de ocorrências desse tipo.

Algo que nenhum veículo de comunicação minimamente responsável deveria fazer.

Cansadas de abrir o jornal e darem de cara com fotos grotescas, diversas integrantes de organizações de mulheres e feministas enviaram uma carta à imprensa paraibana.

“Entendemos que tais imagens (…) reforçam a humilhação das vítimas, no que diz respeito aos crimes de caráter machista ou de violência de gênero, e estimulam ou ao menos recompensam aqueles que os cometeram. A humilhação da vítima, seja para lavar a honra, seja para obter prazer (no caso dos estupros) é sim, e não podemos calar quanto a isso, um dos motivos que levam seus algozes a cometê-los”, dizem elas no documento.

No estado, segundo dados oficiais divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado, 73 mulheres foram mortas. O número de homicídios apenas até a metade deste ano supera o registrado em todo o ano passado, que foi de 41 mortes.

De acordo com a coordenadora geral do Centro da Mulher 8 de Março, Irene Marinheiro, em cerca de 70% dos casos de mulheres assassinadas, o autor do homicídio é um parceiro ou ex-parceiro da vítima.

Responsabilidade e ética. É isso que, com razão, as mulheres cobrando. Um jornalismo que não explore as vítimas de violência para vender mais exemplares.

Publico abaixo a íntegra de sua carta.

 

Carta à imprensa: repúdio à violência contra a mulher

João Pessoa, 25 de junho de 2012

Viemos através desta carta manifestar nosso repúdio a maneira que a imprensa tem noticiado os casos de violência contra a mulher no estado da Paraíba, em particular, sobre as imagens utilizadas para ilustrar as matérias.

Não podemos aceitar a maneira que as mulheres estão sendo expostas pela mídia, o que acreditamos reforçar ainda mais esta violência a que somos submetidas no dia a dia.  Entendemos que tais imagens, com corpos mutilados, sem roupas, com tarja nos olhos, entre outras, reforçam a humilhação das vítimas, no que diz respeito aos crimes de caráter machista ou de violência de gênero, e estimulam ou ao menos recompensam aqueles que os cometeram. A humilhação da vítima, seja para lavar a honra, seja para obter prazer (no caso dos estupros) é sim, e não podemos calar quanto a isso, um dos motivos que levam seus algozes a cometê-los.

A imprensa também colabora com a ideia de que a mulher precisa ser “protegida”, fazendo com que a sociedade insista na falsa ideia da fragilidade inerente ao nosso gênero.

Precisamos sim, ser protegidas, mas não por homens e pelo comportamento “correto”, que em muitos textos é reforçado como uma espécie de redutor da violência contra as mulheres, e sim por leis, igualdade e justiça. Também pelos veículos de imprensa, que tem que divulgar sim a violência contra a mulher, que vem alcançando índices alarmantes nos últimos anos.

Frisando, só em 2012, 73 mulheres foram mortas na Paraíba, segundo dados oficiais divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado.

Mas, lembrando, que a mídia é formadora de opinião, identidades e valores, e, portanto, deve prezar pela ética, o respeito a dignidade humana, e as leis que regem este país, fazendo valer a sua responsabilidade social.

Insistimos que não é preciso recorrer a comunicação do grotesco para informar qualquer fato. Além das imagens, a imprensa da Paraíba tem produzido textos que reforçam a discriminação contra a população pobre, principalmente quando noticiam mortes que supostamente podem estar relacionadas ao tráfico de drogas, ligando a morte das mulheres ao tráfico, e subjetivamente afirmando que “ela deveria morrer, pois significava um problema para a sociedade”. A apuração dos fatos, ouvir TODOS os lados envolvidos nos acontecimentos é lição básica que aprendemos na universidade e que não podemos esquecer.

No dia em que a professora universitária, Briggída Lourenço, foi assassinada, alguns veículos de comunicação da Paraíba veicularam imagens dela morta, deitada de costas no chão de seu apartamento e de outra mulher, que foi assassinada em Cabedelo. Tais imagens violam a privacidade e a integridade das vítimas e em nada contribuem para a denúncia da violência contra a mulher! Reforçamos: ÉTICA DEVE FAZER PARTE DO FAZER JORNALÍSTICO! A profissão tem um código de ética que deve ser observado e colocado em prática!

O uso destas imagens viola o artigo 5º, parágrafo X, da Constituição Federal que diz: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”, e ainda  no mesmo artigo, parágrafo V, “é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além de indenização por dano material, moral ou à imagem”. Só para citar uma das diversas legislações brasileiras que preveem responsabilidades aos órgãos que violarem a imagem da pessoa.

Entendemos que qualquer continuidade nessa linha de jornalismo, que consideramos sensacionalista e ineficaz, além de ferir os nossos esforços na mudança e conscientização da população acerca dos crimes de gênero, como uma atitude a ser denunciada e combatida.

 

Assinam:

 

Marcha das Vadias

Cunhã – Coletivo Feminista

Coletivo Feminista Teimosia

Coletivo Feminino Plural

Geledés – Instituto da Mulher Negra

Articulação de ONGs de Mulheres Negras Brasileiras

Observatório da Mulher

Centro de Ação Cultural – CENTRAC



Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h15
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Para mostrar o corpo tem que ter peito

Seios à mostra, tambores nas mãos, gritos feministas na boca. A manifestação ocorreu no dia 18/06 e foi umas das que mais chamou atenção na Rio+20. Fotos de mulheres seminuas, batizadas de “musas” da conferência global, abundaram a internet e os jornais. Há quem diga que houve até proposta para posar na Playboy.

O fenômeno não é apenas carioca. Na Marcha das Vadias, realizada recentemente em várias cidades brasileiras, lá estavam eles também, os peitos. E na Eurocopa, com as ucranianas da Femen. E contra a ditadura da magreza, em Milão. E criticando o ex-diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn na França. Mamilos saltitantes, de todas as cores e formatos, tamanhos variados.

A pergunta que não quer calar é “o que raios elas pretendem com isso?”

Bom, para começo de conversa, elas querem delimitar o corpo como seu território. O corpo da mulher não pertence a nenhum homem – seja ele marido, namorado, pai, irmão, cafetão – ou nenhuma outra mulher. Tampouco é espaço de exploração coletiva, seja sexual ou imagética-mercantilista. O corpo da mulher não foi feito para vender cerveja, refrigerante ou pneu. E nem para ser traficado internacionalmente. Muito menos para apanhar, sofrer estupro ou qualquer outra forma de maltrato.

Pertence a ela mesma e a mais ninguém. Pode ser tanto levado desnudo para uma manifestação quanto ter sua reprodução controlada, a despeito (desculpem o trocadilho) do que querem o Vaticano e o documento final da Rio+20. Não precisa ser excessivamente magro, como nas revista de moda, nem sem rugas, como determina a lei do Photoshop. Muito menos branco, com cabelos escorridos, loiros e de olhos claros. Pode usar saia curta e decote e não ser responsabilizado por “provocar” qualquer reação. Não têm que comer alimentos transgênicos, consumir tudo o que a televisão manda ou comprar um determinado estilo de vida para ser feliz.

Quando a mulher tira a roupa é para dizer que ela pode. Ela está se empoderando, tomando para si o seu destino. Sentindo na pele a sua autonomia. Gritando para os quatro ventos que não se enquadra nos padrões atuais.

Isso é bonito demais. É corajoso. E revolucionário.

(Post do território de maíra)



Escrito por Maíra Kubík Mano às 21h03
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Gabriela, retrato da opressão feminina

(post curto, mas grosso)

Gabriela, novela das 23h da Rede Globo, tem apenas dois capítulos, mas já dá mostras claras do que era a opressão às mulheres no início do século XX, época em que o folhetim se passa. O mérito, claro, é de Jorge Amado, cuja obra baseia esta ficção televisiva. E o demérito, da realidade que inspirou seu livro.

Mulher forçada a ter relação sexual com o marido sem qualquer direito ao próprio prazer. Mulher que é negociada em casamento. Mulher que foi abusada quando criança. Mulher que não pode dar sua opinião porque simplesmente não é considerada um ser pensante. Mulher objeto. Mulher que tem que ser virgem para ter valor.

Todas elas estão em Gabriela. E todas elas eram reais.

Será que, em certa medida, não continuam sendo? Ou vai me dizer que todas as mulheres estão livres de seus pudores e são bem tratadas na cama? Que conhecem e reconhecem um orgasmo quando o tem? Que as loiras deixaram de ser motivo de piada sem graça e foram reconhecidas por seu intelecto? Que não existem adolescentes sendo vergonhosamente usadas e abusadas pela sociedade, onde a autoridade e a força são identificadas com o masculino? Que nós não somos objetos em propaganda de cerveja e de carro? Que a virgindade feminina não continua sendo hiper valorizada pelos homens?

Quase 100 anos do cenário retratado no livro. Mais de 50 de seu lançamento. Gabriela, hê, meus camaradas.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 00h31
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Por um mundo plural

Vídeo: Por um mundo plural



Escrito por Maíra Kubík Mano às 15h11
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Após Marcha das Vadias, Facebook censura perfil de usuárias brasileiras


A Marcha das Vadias, realizada em diversas cidades brasileiras no último final de semana, teve como mote a liberdade. A liberdade para vestir, agir, ser, amar. Surgiu como uma resposta à tentativa de culpabilizar as mulheres por sofrerem estupros – como se usar saia curta ou decote fosse o problema, e não a violência sexual cometida pelo homem.

Dentro desse contexto de afirmação da liberdade e do corpo como um campo de batalha política, algumas manifestantes optaram por sair às ruas com os seios descobertos. Uma provocação, claro, para mostrar que a mulher não deve ser objeto de desejo 24 horas por dia, como querem as propagandas de cerveja.

A repercussão do ato foi grande, com fotos espalhadas por toda a internet, em especial em redes de relacionamento. O Facebook, mais do que presente na vida contemporânea, foi uma delas. Mas não a empresa não gostou do que viu.

Na mão contrária da manifestação, o Facebook compreendeu o que os corpos semi-nus eram pornografia (!) e  suspendeu os perfis de algumas usuárias brasileiras.

Publico abaixo uma nota divulgada pela jornalista Luka Franca, uma das censuradas:

No último dia 26 de maio foi realizada por diversas capitais brasileiras a Marcha das Vadias, manifestação que reuniu só em São Paulo milhares de mulheres contra a violência sexual e machista que existe em nosso país.

A manifestação teve cobertura da imprensa e de usuários de redes sociais em todas as cidades em que ocorreu a marcha, sendo que o principal palco para troca destas coberturas colaborativas foi o Facebook. Porém desde domingo algumas ativistas começaram a ser suspensas da rede social por postarem fotos de mulheres que estiveram nas marchas. Primeiro foi a fotógrafa carioca Ananda Luz, bloqueada ainda no sábado e na segunda pelo menos duas ativistas paulistas, a jornalista Luka Franca e uma estudante, também foram bloqueadas por postarem fotos suas de seios descobertos em seus perfis.

As imagens foram repostadas por outras pessoas, sendo que uma delas chegou a ter mais de 500 compartilhamentos de solidariedade, e também foram retiradas pelo Facebook.
Não é a primeira vez que a rede social retira fotos consideradas polêmicas. Em 2011 o Facebook tirou do ar diversas imagens de mães amamentando seus filhos, o que resultou em um mamaço virtual organizado por milhares de usuárias. Na semana passada nos Estados Unidos uma foto da usuária Joanne Jackson também foi censurada, desta vez por que mostrava a mastectomia de Joanne.As usuárias que foram bloqueadas contestam a ação imposta pelo Facebook e alegam que essa postura é contradiz a própria política de boa vizinhança da empresa, que estabelece o seguinte:

“O Facebook tem uma política rígida contra o compartilhamento de conteúdo pornográfico e impõe limitações à exibição de nudez. Da mesma forma, desejamos respeitar o direito das pessoas de compartilhar conteúdo de importância pessoal, sejam fotos de uma escultura, como Davi de Michelangelo, ou fotos de família da amamentação de uma criança.”

Entendo que a empresa tenha uma política que proteja sua rede, por exemplo, de pedófilos. Mas faltou um bom discernimento para compreender a diferença entre protesto e pornografia.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 08h55
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Um ano sem Maria e Zé Claudio: “por baixo do desmatamento, há muita gente sendo morta”

Maria eu não conheci. Nem Zé Claudio. Não deu tempo. José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foram cruelmente assassinados há exato um ano, em 24 de maio de 2011.

O crime ocorreu no assentamento extrativista Praia Alta Piranheira, em Nova Ipixuna (PA), onde eles viviam e lutavam para deixar a floresta em pé. Denunciavam sem pestanejar a extração ilegal de madeira dos lotes vizinhos e a derrubada de castanheiras, que Zé Claudio tanto amava – árvore protegida por lei, mas vulnerável pela economia da destruição.

Os tiros foram dados à queima-roupa, em uma emboscada. A sangue frio, com certeza, porque ninguém com sangue quente, correndo nas veias, seria capaz de tamanha crueldade.

Tudo no mesmo dia em que a Câmara dos Deputados votava e aprovava o novo Código Florestal.

Laisa sim, esta eu vi e ouvi de perto. Laisa é irmã de Maria, cunhada de Zé Claudio. Mais uma brasileira que acredita na preservação do meio ambiente. Mais alguém que se indigna diante das mortes de pessoas da sua família e de toda a estrutura que está por trás delas.

Laisa ousou questionar, levantar sua voz, e, assim como Zé Claudio e Maria, hoje está ameaçada de morte. “Vivo um dia de cada vez”, diz a professora, que mora no mesmo assentamento do casal morto e, com frequência, é obrigada a passar pelo local do crime, uma estradinha deserta e esburacada.

Ela relata alguns casos de intimidação: “Um menino estranho perguntou para o meu filho se a porteira da nossa casa ficava aberta ou fechada à noite. Outro dia, antes de ir para Nova York, uma criança de uns 14 anos entrou na escola, parou e ficou me olhando em pé, na porta, perto do quadro. Quando eu disse ‘oi’ para ele, ele saiu correndo e subiu numa moto onde estava um senhor”.

Às vésperas de mais um embate sobre o Código Florestal – o veto ou a sanção da presidenta Dilma Rousseff – Laisa vive, como disse Zé Claudio certa vez, “com a bala na cabeça”. Bastam dois neurônios para fazer a ligação desta triste ironia: enquanto os defensores da floresta morrem, o Brasil se prepara para matá-la.

“Amazônia é manchada de sangue”, disse Laisa na Organização das Nações Unidas (ONU), ao receber o prêmio “Heróis da floresta”. “E essa mancha continua se espalhando. Mas nossa situação torna-se cada vez mais grave porque o Novo Código Florestal Brasileiro votado pela Câmara dos Deputados, não favorece o povo que vive e defende a floresta. Essa mesma Câmara que vaiou no momento em que foi anunciado o assassinato de Maria e José Cláudio A presidenta Dilma não deve aprovar essa lei. Por baixo do desmatamento há muita gente sendo morta.”

Oxalá que ela não esteja entre essa gente. Mas ela já não está?



Escrito por Maíra Kubík Mano às 00h47
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Vadias somos todas nós

Recebeu cantada na rua? Só pode ser porque está vestida como uma vadia. Passaram a mão em você no ônibus? Vadia, se deu ao desfrute! Resolveu ir com uma saia curta na faculdade? Chame-se Geisy ou não, você será declarada como vadia. Transou com o cara no primeiro encontro? Vadia, disponível. Já teve mais de cinco namorados? Nossa, vadia! Foi estuprada? O que você fez para provocar isso? Que mole você deu?

“Vadia” é um termo recorrente em nossa sociedade. Serve para classificar alguém de forma pejorativa a partir do nosso olhar julgador. Pode ser por sua roupa, sapato alto, rebolado, passado amoroso, olhos verdes, tragédia familiar, vida profissional ou qualquer outra característica absolutamente arbitrária considera uma ameaça aos bons costumes.

“Vadia” é apenas uma das muitas palavra que simboliza a opressão sobre a mulher. Demonstra o quanto a sociedade quer que permaneçamos “obedientes”, dentro das regras básicas de convívio. Segundo aqueles que a empregam, não podemos agressivas, indiscretas e muito menos libertárias. Não devemos provocar a “desordem” com nossas atitudes.

E, pior: por sermos mulheres e termos um corpo com seios e vagina, merecemos ser assediadas, desrespeitadas, sofrer abusos psíquicos e violência física.

Foi para protestar contra essa situação que surgiu, no Canadá, a
SlutWalk ou Marcha das Vadias. A manifestação foi uma resposta às orientações de um policial durante uma palestra para universitárias: "Se a mulher não se vestir como uma vadia, reduz-se o risco de ela sofrer um estupro", disse ele. Indignadas com a postura do oficial, as canadenses saíram às ruas para dizer que agiriam como quisessem e vestiriam o que tivessem vontade.

O movimento, que começou em Toronto, já chegou a mais de 50 cidades no mundo, entre elas Buenos Aires, Londres, Nova York e Johanesburgo. E, claro, ao Brasil, onde a primeira manifestação ocorreu em 4 de junho de 2011 em São Paulo.

Por trás dessa mobilização, assim como do FEMEN, aquele grupo de feministas ucranianas que protestam com os seios de fora, está a intenção de mostrar que o corpo é um local de batalha política. É por meio dele que se constroem muitos preconceitos e se justificam as maiores barbáries.

Ninguém pode ser bem ou mal tratadx, ter maior ou menor liberdade, ser ou não estupradx em função de características físicas. Deveria ser óbvio dizer isso após processos tão dolorosos e grotescos como o apartheid. No entanto, a violência persiste, em seus mais variados formatos e faces e atinge grupos determinados: mulheres, negrxs, gays, lésbicas, transexuais, travestis e transgênerxs. É contra ela que várias cidades brasileiras realizarão a Marcha das Vadias no próximo sábado, dia 26/05. Porque vadias somos todas nós!


Confira o calendário:

 

Araraquara, SP
19 de maio de 2012
Local e hora: Teatro Municipal de Araraquara, 22h
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Brasília, DF
26 de maio de 2012
Local e hora: concentração no CONIC, 13h (próximo à Rodoviária do Plano Piloto)
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Belém, PA
27 de maio de 2012
Local e hora: Estação das Docas, 9h
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Belo Horizonte, MG
26 de maio de 2012
Local e hora: Concentração na Praça Rio Branco (praça da Rodoviária), a partir das 13h.
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Evento
Twitter:
@slutwalkbh
Blog

Campo Grande, MS
26 de maio de 2012
Local e hora: a confirmar
Veja fotos da primeira Marcha de 2012
Mais fotos
aqui

Criciúma, PR
26 de maio de 2012
Local e hora: Praça Nereu Ramos (em frente a Casa de Cultura), 10h
Evento no Facebook

Curitiba, PR
- Ato Vadio
26 de maio de 2012
Local e hora: Reitoria da UFPR, das 18h às 22h

Florianópolis, SC
Dia 26 de maio
Local e hora: Concentração na Catedral (centro da cidade), a partir das 10h.
Evento no Facebook

João Pessoa, PB
9 de junho de 2012
Local e hora: Lagoa, 9h
Evento no Faebook

Natal, RN
26 de maio de 2012
Local e hora: Feira do Alecrim, 10h
Twitter da Slutwalk Natal

Página no Facebook


Macapá, AP
2 de junho de 2012
Local e hora: Praça Floriano Peixoto, 15h
Evento no Facebook 

Salvador, BA
26 de maio de 2012
Local e hora: Praça da Piedade, às 13h30
Evento no Facebook


São Carlos, SP
26 de maio de 2012
Local e hora: Praça Santa Cruz, 9h
Comunidade no Facebook

São José dos Campos, SP
26 de maio de 2012
Local e hora: Praça Afonso Pena, 10h
Fan-page no Facebook
Blog

São Paulo, SP
26 de maio de 2012
Local e hora: Praça do Ciclista, 13h
Evento no Facebook

Grupo no Facebook 

Porto Alegre, RS
27 de maio de 2012
Local e hora: Arcos da Redenção, 14h
Evento no Facebook
Grupo no Facebook

Recife, PE
26 de maio de 2012
Local e hora: Praça do Derby, 14h
Evento no Facebook

Rio de Janeiro, RJ
26 de maio de 2012
Concentração no Posto 4 da Av. Atlântica, a partir de 13h
Evento no Facebook

Veja fotos da Marcha das Vadias em 2011

Vitória, ES
26 de maio de 2012
Local e hora: UFES, 14h



Escrito por Maíra Kubík Mano às 13h03
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Matou a mulher. Facada mesmo.

 

“Meu irmão, não tem como ele sair não. Pô, todo mundo ficou sabendo. E logo antes ela disse que era verdade que ele era corno. Ele confessou, né. Não, não, não tem como ele sair. Ele trabalhava para uma juíza e ela até ligou pro delegado. Mas não teve como”.

O atendente da copiadora desliga o celular. Não resisto à curiosidade e pergunto se o tal da conversa tinha agredido a mulher.

– Matou mesmo, respondeu.

– Matou? Matou como?, indago

  Faca. Facada.

Engulo seco. “Ele não aguentou, né. Não conseguiu segurar a onda. E agora vai ser difícil sair”, comenta o atendente. Rebato dizendo que ele não deveria mesmo ser liberado, cometeu um crime.

“Pôxa, ele era lá da rua. Vizinho mesmo. Pessoa tranquila. De pessoa tranquila a gente não espera essas coisas, né. Agora nem com amiga juiz ele sai. Pronto, tão aqui suas cópias. Seis reais e cinquenta.”

Saio da copiadora pensando na vítima, na brutalidade de facadas em seu peito – em qualquer peito. Na violência contra a mulher, presente em todas as ruas, bairros, cidades, no campo. Pode estar em qualquer lugar, como um espectro apenas à espreita para agir. 

Respiro com um pingo de esperança ao lembrar da Lei Maria da Penha.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 08h57
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Mulheres, sejam feministas!

 

A revolução das mulheres não tem mais volta. Ela penetrou tão profundamente na sociedade que não é mais possível nos dizer para, por exemplo, ficarmos trancadas casa. Ou não nos sentarmos sozinhas em uma mesa de bar. Ou nos casarmos virgens. Ou nos calarmos diante do estupro e de espancamentos. Ou abdicarmos de nossa independência financeira.

Não, não é possível retroceder.

Essa foi a revolução do século XX, já anunciou o historiador Eric Hobsbawm. E totalmente rizomática, para usar o termo cunhado por Gilles Deleuze e Félix Guattari. Como a grama ou a erva daninha, ela se espalhou e foi crescendo, horizontalmente, sem direção definida. Houve sim lideranças, precursoras, mas essa revolução foi muito além.

É uma espécie de vírus que contagia e se multiplica. Não se sabe ao certo quem deu o primeiro espirro, mas a gripe passou. E contaminou o mundo inteiro.

Uma cortou a saia, outra queimou o sutiã, 343 assinaram um manifesto pró-aborto. Trabalharam nas fábricas insalubres e superlotadas. Fizeram greves tão intensas que explodiram a Rússia em 8 de março de 1917, abrindo espaço para os bolcheviques. Morreram queimadas. Tornaram-se médicas, advogadas, jornalistas, presidentes, dirigentes de empresas, professoras universitárias. Pilotaram avião, caminhão e fogão. Atravessaram o Canal da Mancha a nado, foram à Lua, dirigiram um carro na Arábia Saudita. Se libertaram sexualmente, casaram-se com outras mulheres de papel passado. Escreveram, publicaram, filmaram. Viraram líderes espirituais de aldeia na Amazônia. Fizeram tribos africanas abandonarem a horrenda prática da mutilação genital. Reescreveram a história dizendo que sim, éramos protagonistas, mesmo que não tenhamos assinado tratados de guerra e paz.

Não, não é possível retroceder.

Mas onde é preciso avançar?

A cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas no Brasil. Os estupros e os abusos são crimes que, em geral, ocorrem dentro das próprias casas. Ganhamos salários menores que os dos homens para ocuparmos os mesmos cargos – agora isso pode ser motivo de multa dentro da mesma empresa, menos mal. Ouvimos piadas machistas o tempo todo. Somos obrigadas a aturar cantadas nas ruas com medo de uma violência ainda maior. Não exercemos plenamente nossos direitos reprodutivos. Sofremos cotidianamente com a noção de que somos propriedade do homem e, portanto, podemos ser usadas a seu bel-prazer. Muitas de nós nunca tiveram um orgasmo. Ainda somos vendidas junto com cerveja e tudo mais que o mercado quiser. Temos receio de apanhar na avenida Paulista porque andamos de mãos dadas com outra mulher. Somos consideradas galinhas ou putas quando exploramos nossa sexualidade.

Por que continuamos em uma realidade tão inóspita? A resposta é óbvia e simples: porque a sociedade segue sendo machista, apesar de todos os nossos avanços. Uma cultura tão antiga, que perdura há milhares de anos, não muda de uma hora para a outra ou de um século para o outro.

É  justamente por isso que, assim como o machismo, o feminismo continua vivo e atuante! O termo pode parecer surrado e ultrapassado, mas só para quem comprou o discurso de que já chegamos em nosso limite. E não, não chegamos ao topo. É preciso sermos feministas, todos os dias e todas as horas.

A humanidade (e por que não outro nome? E se chamássemos humanidade, feminidade, transgeneridade, pluralidade?) ainda não experimentou viver em liberdade e igualdade, sem discriminações. E tampouco chegará lá se não nos mobilizarmos, não atuarmos, não transgredirmos. Mulheres, sejam feministas!

 



Escrito por Maíra Kubík Mano às 01h04
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Menos cirurgia, mais fantasia!

 

No Brasil, são realizadas 700 mil cirurgias plásticas por ano, com uma porcentagem crescente entre jovens de 18 a 24 anos. Segundo os médicos, o ápice acontece próximo ao Carnaval.

Por quê? Bem, poderíamos começar visualizando a imagem que o Brasil tem no exterior: esta seria a terra da mulata com o corpo perfeito, que desfila em biquíni mínimo para os olhos de quem quiser ver, certo? A sensualidade tropical aflora a cada coco gelado nas areias de Copacabana, a praia mais famosa do mundo. Bundas e peitos para ninguém botar defeito!

De onde saiu essa noção aparentemente deturpada? Não é apenas do olhar de fora. Assim como no Caribe, nós aqui também compramos e vendemos a ideia de um povo de sexualidade exacerbada e forma física generosa.

Porém, não é nada fácil se encaixar em uma sociedade que valoriza em demasia os atributos naturais dos indivíduos. E como boa parte das pessoas não nasce com os padrões considerados ideais de beleza, a solução vista por muitos é voluntariamente se submeter a cirurgias plásticas. Cortar o corpo e modificá-lo!

O resultado de todo esse contexto é que o Brasil é um dos campões mundiais desses procedimentos!

Não, eu não sou radicalmente contra plásticas. Eu mesma já fiz (orelhas de abano, vejam só). Mas a necessidade que as brasileiras sentem de ter seios grandes e empinados não é algo que saiu apenas da cabeça delas. É decorrência de toda uma pressão social que, se não existisse, talvez não as levasse a se submeter a uma cirurgia.

Aqui, no lugar de colocarmos uma fantasia para pular o Carnaval, nós fantasiamos o nosso corpo, nossa pele, e colocamos uma roupa de praia para exibi-lo! Bom seria se fosse ao contrário, não? E se ficássemos com essas formas mesmo que temos e nos transformássemos em outras pessoas apenas durante os blocos de rua? Será que conseguimos?



Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h06
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Eloá Pimentel, um crime de gênero

 

Sabe qual é uma das maneiras de evitar os crimes de gênero? Nomear aqueles que já ocorreram como um exemplo do que não deve se repetir.

Eloá Cristina Pimentel foi assassinada pelo ex-namorado em 2008. Ele não admitia o fim do relacionamento e ela morreu simplesmente porque era mulher.

Uma pesquisa realizada pelo Ibope há alguns anos dava conta que a principal preocupação das brasileiras era a violência, dentro e fora de casa. Ou seja, habitação, mercado de trabalho e custo de vida passaram longe do topo das estatísticas.

Pudera: a cada 2 minutos, 5 mulheres são agredidas no Brasil. Segundo o  DataSenado, a maioria dos agressores, 87%, é o atual ou um antigo marido/namorado.

Com Eloá não foi diferente. (Talvez apenas pela cobertura midiática 24 horas por dia, exaustiva e muitas vezes sensacionalista).

O motivo? Talvez ciúme. Segundo uma das definições do Aurélio, trata-se de um “sentimento doloroso que as exigências de um amor inquieto, o desejo de posse da pessoa amada, a suspeita ou a certeza de sua infidelidade fazem nascer em alguém”. Parece até poético, não?

Porém, na maioria das vezes, o lirismo passa longe daqueles apaixonados que estão atormentados pelo sentimento de posse. Em situações extremas, leva até mesmo à morte. Talvez por isso, as outras duas explicações do dicionário para “ciúme” sejam “emulação, competição, rivalidade”  e “despeito invejoso; inveja”.

E não tem nada de romântico nisso. É funesto.

Eloá, Eliza Samudio e Mércia Nakashima foram crimes de gênero. Eles decorrem da noção de que a mulher é propriedade do homem e que, portanto, pode ser tratada como seu dono bem entender. Esfaqueada, afogada, estrangulada, metralhada.

No entanto, o que a mídia demonstra em sua cobertura – à época e atualmente, durante o julgamento – é uma total e absoluta descontextualização da situação vivida pelas mulheres. Tratam o caso como algo único, isolado do resto da sociedade, o que não é verdade.

É preciso dar nome aos bois, como diz o ditado.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 00h20
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Mal-amadas somos todas as mulheres, inclusive a ministra

Quando alguém quer criticar uma mulher, dizer que ela é “mal-amada” é a saída mais fácil. Foi isso que fez o bispo de Assis (SP), dom José Benedito Simão, ao tentar desqualificar a nomeação de Eleonora Menicucci como ministra das Mulheres.

Ontem, em entrevista a um jornal de São Paulo, o membro da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) ainda afirmou que a nova ministra é “infeliz e irresponsável”. Ao invés de debater o posicionamento da Igreja católica sobre o aborto, absolutamente oposto ao de Eleonora, parte-se para ataques pessoais que beiram o ridículo de uma criança de 7 anos dizendo “você é feia e boba” para outra coleguinha.

Mas com um baita preconceito de gênero por trás.

(Isso, claro, sem comentar o fato lamentável de a imprensa considerar legítimo e digno de fonte um argumento desses)

Utilizar a expressão “mal-amada” (ou “mal-comida”, na versão chula) significa partir do pressuposto que as mulheres navegam apenas pelo campo do irracional, dos sentimentos, do coração. Razão é exclusividade de quem pênis e é macho. Logo, é preciso um homem ao seu lado para ampará-la e mantê-la equilibrada. (Sim, homem, porque a nossa sociedade é heternormativa, infelizmente).

Ser “mal-amada” significa que qualquer opção diferente de uma família papai-mamãe-filhinhos não é legítima. Bem-amado são os casados que procriam. E ponto. Se você está em uma situação diferente dessa e é mulher, cuidado! Corra para as normas, meu bem!

Chamar uma mulher de mal-amada é um mito semelhante ao exagero da TPM (Tensão Pré-Menstrual), onde qualquer comportamento genioso, forte ou contundente é atribuído a hormônios que descontrolariam qualquer corpo. Como se ninguém pudesse ter personalidade e momentos de altos e baixos.

Nada de se admirar, vindo de uma instituição que durante a Idade Média queimou mulheres que eram lideranças nas comunidades ou prestavam serviços de curandeiras acusando-as de bruxaria.

Se a ministra Eleonora é mal-amada por defender, racionalmente, seus posicionamentos políticos, então eu também sou.

 



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h30
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Maíra Kubík Mano é jornalista e professora do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp. Foi editora do jornal Le Monde Diplomatique Brasil e editora-assistente da revista História Viva, além de trabalhar como freelancer para vários veículos de comunicação. Tem pós graduação em Gênero e Comunicação no Instituto Internacional de Periodismo José Martí, em Havana, Cuba. Visite meu site: www.mairakubik.com

 

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