Para a PM paulista, vale a máxima “bandido bom é bandido morto”
“Bandido bom é bandido morto”. Esse jargão parece ser o lema da Polícia Militar paulista, que no ano passado assassinou 524 pessoas nos chamados casos de “resistência seguida de morte”. Um aumento de 41% em relação a 2008.
A expressão, geralmente utilizada nos formulários preenchidos pelos policiais, pressupõe que houve um conflito e que aquele classificado como fora-da-lei teria “vindo a óbito” – como os sargentos costumam dizer nas coletivas de imprensa – tentando escapar da prisão.
No Rio de Janeiro, onde a polícia ainda é a que mais mata no Brasil – 1.048 pessoas em 2009 –, isso é chamado de “auto de resistência”.
O propósito é o mesmo: explicar como tantas pessoas morreram sob as pistolas de quem supostamente deveria garantir a tranqüilidade da população.
E a explicação é convincente: oras, se os bandidos estavam atirando, o que os policiais poderiam fazer além de revidar? A princípio, ninguém discordaria disso, certo?
A questão é que essa cena muitas vezes não é verdadeira. Estudos de ONGs de direitos humanos no RJ já demonstraram que em parte casos classificados como “resistência” o que ocorreu foi, de fato, um extermínio. Uma das provas cabais disso é que muitos tiros são dados na nuca, ou seja, por trás, e a trajetória da bala é de cima para baixo, o que significa que a pessoa estava em uma posição inferior, como de joelhos.
A grande “sacada” é que, se o caso é registrado como resultante de um conflito, significa que possivelmente será deixado de lado. “Quando você registra como resistência seguida de morte, não apura o homicídio, apura a resistência de quem já morreu. Como quem morreu não pode ser responsabilizado por nada, é uma investigação que já nasce com a certeza do arquivamento”, analisou, em entrevista ontem, o defensor público Pedro Gibert.
O comando da PM, por sua vez, não quis discutir o crescimento. Para mim, ele tem apenas uma justificativa: trata-se de um reforço da política de criminalização da pobreza.
A idéia pode ser resumida em uma frase, muito ouvida nas favelas paulistanas e cariocas: “eles entraram atirando”. Ou seja, na forma atual de operar da polícia, não se cogita garantir a segurança da população de baixa renda. Parte-se do pressuposto que nas comunidades pobres é onde estão os bandidos e pronto. E isso, claro, resulta em assassinatos.
De acordo com o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), que presidiu a CPI das milícias, o mandado de busca genérico é outra forma de fazer isso. “[É] uma prática atual muito forte no Rio de Janeiro. O Judiciário permite um mandado de busca para toda uma comunidade. Todas as casas, naquela região podem ser revistadas. São mecanismos exclusivamente para tratar da favela. Copiamos um trecho de um desses mandados de busca genéricos de 2002 em que se refere à favela como lixo genético. É uma concepção em que a pobreza está criminalizada. A desigualdade tem uma relação direta com o aumento da criminalidade, mas a pobreza, não. Quem que conhece minimamente favela sabe que o percentual da juventude envolvida com o crime não chega a 1%. As pessoas não imaginam isso”, afirmou para a Rede de Jornalistas Populares.
É, mas já dizia uma música do BOPE divulgada nos jornais cariocas em 2003: "O interrogatório é muito fácil de fazer; pega o favelado e dá porrada até doer. / O interrogatório é muito fácil de acabar; pega o favelado e dá porrada até matar”.
“A virgindade está se tornando uma commodity porque o feminismo separou as mulheres de seus papéis de esposas e mães. Meninas têm sido ensinadas a colocar pouca expectativa na virgindade porque elas têm sido iludidas a ter baixas expectativas com o casamento.” O argumento é da Network of enlightened Women, uma associação de jovens moças dos Estados Unidos que se define como “conservadora”.
Cheguei até o blog delas por meio de Jessica Valenti, fundadora do ótimo site Feministing.com, que ao escrever uma resposta inflamada às acusações acima, despertou minha curiosidade.
As tais integrantes da rede contestavam a decisão de uma estudante da Nova Zelândia que leiloou sua virgindade pela internet para pagar a taxa de matrícula do curso. Ok, o exemplo de fato é bizarro. Afinal, a garota está comercializando o próprio corpo para bancar suas despesas, o que num entendimento genérico responde pelo nome de prostituição.
Mas, de qualquer forma, as moças estadunidenses decidiram culpar as feministas pela conduta da tal estudante neozelandesa, porque as primeiras teriam ensinado à última que sexo é mercadoria. E seguem seu argumento: “as feministas não podem ser aquelas a definir virgindade porque elas compreenderam mal o que é ser mulher. A definição precisa ser colocada além de sua manipulação. A virgindade encontra sua maior expressão não quando a conservamos, mas quando a damos para o homem que amamos e com a qual estamos comprometidas. A virgindade fala para o primeiro e último de nossas vidas. Aquelas que ousam colocar um preço na virgindade nem ao menos começaram a ver o quanto ela realmente vale.”
Creio eu que esse ponto de vista não é exclusividade desse grupo de jovens – basta digitar “virgindade” e “feministas” no Google para ver. Pelo contrário, é bastante conhecido e reconhecido por parte significativa de mulheres na atualidade. Vejo nele muitos problemas:
O primeiro, como já disse, é que confunde vender o corpo com o exercício livre da sexualidade, uma conquista árdua e ainda contestada. O pressuposto é que qualquer transa é uma mercadoria porque ela não é abençoada pelo sagrado matrimônio, sendo, portanto, fruto de uma negociação.
Diretamente ligado a isso está a certeza de que sexo ocorre apenas por amor e, obviamente, para a reprodução. É uma perspectiva um "pouco" fora da realidade atual, eu diria, e, mais ainda, dos instintos humanos: as pessoas sentem desejos e prazer. Isso é fato. Se elas vão realizá-los é outra história. Se disso vai nascer uma criança, é uma história mais longa ainda.
Não nos esqueçamos também da questão de “presentear” o homem: ele merece esse “sacrifício”, mesmo que já tenha tido dezenas de mulheres, sem nunca lhe ocorrer uma reciprocidade nesse sentido. Ele pode, ela não. E ponto.
Dizem ainda que o feminismo separou os papéis de “mãe” e “esposa”. Para mim, ao colocar que as feministas não podem ter filhos ou se comprometer em um casamento, essas jovens ocultam que o debate não está em torno de se as relações humanas existem ou não – isso é óbvio – , mas em que parâmetros elas são estabelecidas. Ao mesmo tempo, reduzem as mulheres a apenas um ou outro papel quando, na verdade, somos múltiplas e multifacetadas.
Isso sem mencionar a virgindade relacionada ao hímen, que segundo a pesquisadora Hanne Blank, tem até cinco tipos e reage de formas diversas à penetração, não necessariamente sendo rompido na primeira vez em que ela ocorre.
Por fim, passam ao largo da discussão de que a sexualidade humana é simplesmente uma formatação cultural de regras em um determinado período e lugar. Como aponta Brigitte Lhomond, no Dicionário Crítico Feminista, “nas sociedades ocidentais modernas, a sexualidade foi objeto de controle por parte da Igreja, hegemonia até o século XVIII, no qual a sucederam, sem jamais destroná-la totalmente, a Medicina e os Direitos civil e penal. A lei determina a idade a partir da qual é licito ter relações sexuais, bem como a idade na qual se pode casar. O Direito regula também as interdições de casamento, segundo o grau de parentesco e o sexo. O casamento é a instituição que legitima e prescreve as relações sexuais.”
Ou seja, trata-se sim de um acordo do sistema e exaltar a virgindade é torná-la uma mercadoria na medida em que se negocia um alto preço para a entrada no mundo dos fiéis, adequados aos olhos do coletivo e plausível ao capitalismo e a sua necessidade de mão de obra e controle sobre a sociedade.
Para resumir: iludem-se aquelas que acham que conservar-se "puras" para o marido é apenas um ato de amor. Tem muito mais água – e sangue – rolando embaixo dessa ponte, e a valorização quantificada da virgindade de forma alguma é responsabilidade de quem questiona sua manutenção.
(O presente máximo de casamento: a sua virgindade)
Angeli - publicado na Folha de S.Paulo em 26/01/2010
“Mário, há anos que você não me toca!” Porrada. “Pronto! Não tem do que reclamar!”
Abrir o jornal de manhã e encontrar uma tirinha dessas simplesmente acaba com o meu dia. Destrói o meu humor e despedaça um pouco mais minhas expectativas em um outro mundo possível.
A opressão contra a mulher é piada fácil, já sabemos. De gracinhas como “mulher no volante, perigo constante” até narrativas bem mais elaboradas, elas estão aí, todos os dias, todas as horas. E mais fácil ainda é falar que uma de nós merece apanhar. É o senso comum em que vale a lei da brutalidade. É o “tomar uns bofetões para ver se aprende”, como se diz por aí.
Aprender o quê? Bem, pela tirinha do Angeli, que mulher não tem direito ao prazer e que só fica quieta se for espancada. E, claro, que tudo bem publicar algo assim no jornal, porque é apenas um “retrato da realidade”.
Que é necessário explicitar e denunciar a repressão e a violência contra a mulher, eu não tenho dúvidas. Tampouco que o humor seja uma forma de fazer isso (ver post anterior). Mas o desenho acima não contribui nesse sentido. Pelo contrário: utiliza-se de uma situação deplorável para, em três quadrinhos, fazer uma pequena anedota.
Angeli não acabou com o meu dia porque naquele dia eu não abri o jornal. Quem me mostrou o cartoon foi a amiga Daniele Ricieri, do grupo Atuadoras. Aproveito e reproduzo abaixo o comentário dela sobre o desenho, assim como sobre uma frase postada no Twitter pelo humorista Danilo Gentili, do CQC:
“Por uma sexualidade livre
@DaniloGentili “Sou contra políticos irem no SuperPop. Aquele programa é conhecido por putas darem seus depoimentos. Não seus filhos”. (Post do apresentador do CQC no Twitter).
Sou uma defensora do humor. Acredito que nas piadas, nos chistes, nas brincadeiras, temos a possibilidade de expressar conteúdos, desejos e preconceitos inconscientes. Se a piada tem graça é um sinal de que o piadista e o risonho tem aquele mesmo desejo/preconceito velado, partilham do mesmo código cultural. Neste sentido, acho um des-serviço a patrulha, a vigília, a busca do politicamente correto pois, para mim, estas são oportunidades importantes de se perceber o que esta por trás do nosso discurso como sociedade. Ou seja, o que desejamos? O que consideramos diferente ou inferior a nós?
Pois bem, percebo nestas duas supostas piadas o mesmo preconceito, ou melhor, o mesmo ódio contra a sexualidade feminina. O que me leva a crer que precisamos jogar mais luz na forma como a mulher é hoje retratada/percebida/anunciada no Brasil (e no mundo, evidentemente). Na charge, o não cabimento do desejo feminino é explícito. Não cabe a uma mulher expressar desejo sexual. Se ela ousa, ela merece apanhar. Ou pior, nem se entende o que ela pede, “mulher não pode gostar de sexo”, portanto ser tocada deve querer dizer ser tocada com violência, e quanto mais melhor. “Toda mulher gosta de apanhar”. Não era isso?
Já Danilo nem se referia a mulher, o alvo de seu ataque eram os políticos. Ou seja, é tão banalizado o tratamento de mulheres como putas (as que ousam transar e ganhar algo, dinheiro no caso) que serve de trampolim para uma outra “piada”.
Pausa para refletir sobre o nosso fascínio como sociedade pelas tais “putas”. Nem me refiro aqui às profissionais de fato, que trariam um capítulo a parte, mas às tais “putas” midiatizadas. Mulheres que exploram o próprio corpo, a própria beleza para aparecerem, ou para serem, já que em nossa cultura ser é ser visto na televisão. Elas fascinam, elas são invejadas (não são poucas as mulheres que buscam o mesmo corpo que a “gostosa da tv”) mas são tachadas de burras, de vulgares, de interesseiras, de venderem seu corpo por fama, por dinheiro, ou seja, são “putas”. Nossa cultura diz o tempo todo para as meninas e mulheres qual é o único bem que elas podem ter: seus corpos. Corpos cada vez mais esqueléticos ou corpos volumosos de horas de academia. No entanto, cobramos o preço: use isso, mas não muito. Se é “gostosa”, não é inteligente. Faça gozar, mas não goze você. Desperte desejo, mas apanhe.
Acredito que esta será a próxima e necessária revolução sexual feminina: o direito ao sexo, a uma sexualidade livre, não patrulhada. Neste dia não haverá graça ou horror nenhum em uma mulher propor uma relação sexual, ou em se sentir bem com seu corpo gordo, magro, pequeno, loiro ou vesgo. Certamente teremos mais peles e peitos e pênis na televisão e bem menos armas, guerras, medos."
Candidato quer que criança acredite nele e em Papai Noel
A utilidade dos Correios na vida de uma criança de cinco anos é bem limitada. Eu diria que se resume a uma carta por ano, geralmente endereçada ao Papai Noel. Se tiver uma segunda, é 95% de chance que seja para o Coelhinho da Páscoa.
Já a utilização de pequenos em campanhas políticas não é exatamente uma raridade. Cansamos de ver candidatos pegando bebês no colo durante carreatas em bairros populares e posando com eles para fotos nos jornais.
A lógica é simples e quase científica: seres humanos ficam enternecidos por crianças, principalmente se forem fofinhas e sorrirem com facilidade; logo, associar sua imagem a uma delas ameniza o peso e a seriedade da disputa por votos, deixando os eleitores mais “moles”.
A idéia é tão boa que o pré-candidato ao governo de Mato Grosso, Silval Barbosa (PMDB), vice de Blairo Maggi (PR), resolveu levá-la às últimas conseqüências e, numa atitude que só pode ser classificada como desesperada, mandou cartinhas a crianças pedindo o apoio de seus pais:
“Querida NADINE, Sei que você é uma menininha que só tem cinco anos e não sabe ler ainda. Quem lhe escreve é o Silval Barbosa. Você nem me conhece, sei disso, mas sua família deve saber um pouco mais de mim.(...)
Diga para mamãe que o Silval é legal. Não vou nunca lhe decepcionar. Um beijo, minha linda, fique em paz e com saúde. E que Deus lhe abençoe.”
Em outra correspondência, diz a um garoto de 13 anos que pretende “fazer o papel de paizão” e mantê-lo na linha, sem usar drogas. “Se quiser, diga aos outros: o Sival é meu amigo”.
Baixo é pouco para descrever o nível de apelação do vice-governador. Um texto como esse tem o mesmo grau de perversidade que qualquer outra compra escancarada de votos em troca de comida ou casa para morar. Aliás, pode ser até pior, já que tenta, em uma estratégia ardilosa, fazer uma “menininha que só tem cinco anos” pedir à sua mãe que vote em um “tio” que vai ser “ponta firme” e ficar ao seu lado. São palavras poderosas, principalmente para quem não tem defesas armadas e senso crítico aguçado. Ou seja, para uma criança.
A ação só foi descoberta porque uma das cartinhas chegou na casa de um político da oposição. O Ministério Público Federal já recebeu a denúncia e entrou com uma representação contra Silval no Tribunal Regional Eleitoral por propaganda extemporânea. Sim, ele pode ser indiciado porque enviou correspondência eleitoral fora de época. Mas é óbvio que esse não foi o maior crime dele. Como pode alguém pedir a crianças que confiem em um político porque ele nunca vai decepcioná-las? É pior do que querer que elas acreditem em Papai Noel e Coelhinho da Páscoa depois que crescerem.
Há alguns meses a estudante Geisy Arruda foi tema de três posts neste blog. O motivo? Seu quase linchamento na Uniban (Universidade Bandeirante) após aparecer com um vestido curto “demais”, na opinião de muitos de seus colegas.
Agora, com o Carnaval se aproximando, leio em um jornal de São Paulo que Geisy será rainha na Sapucaí. Não da bateria, porque seus 15 minutos de fama não foram suficientes para alçá-la a esse posto, ainda que ela tenha se preparado para tanto: depois do incidente, fez uma lipoescultura completa, colocou prótese de silicone e alongou os cabelos.
Desfilará pela escola Porto da Pedra como destaque no terceiro carro alegórico. Previsível? Podemos dizer que sim. Afinal, por mais que eu discorde em gênero, número e grau daqueles que dizem que Geisy queria chamar a atenção e “provocou” sua agressão (leia o post “A justificativa do estuprador”), era óbvio que depois de tantas câmeras em cima dela iria sobrar um gostinho de “quero mais”. Essa é a sociedade em que vivemos, onde se você ainda não é reconhecido por desconhecidos na rua, não fez o suficiente para entrar para entrar para a posteridade.
Sobre esse tema, participei, no ano passado, do programa “Ver TV”, produzido pela TV Câmara e apresentado por Laurindo Leal Filho. Um dos debatedores, o pesquisador Fernando Mota, reclamou que, à época, Geisy havia dado entrevistas a pessoas como Luciana Gimenez, no SuperPop, e aproveitado o “espaço” que ganhou na mídia. Argumentei que, sinceramente, era esperar demais que ela agisse de outra forma. Depois de passar por toda aquela humilhação e violência ainda tinha que ter discernimento de dizer “não participo de tais e tais programas porque eles são sensacionalistas”? Faça-me o favor.
Mas, eis que sou surpreendida por Geisy: sim, ela desfilará na Sapucaí, mas numa fantasia que homenageia a rainha Elizabeth I, supostamente vítima de preconceito em seu tempo e até hoje uma inspiração para o mundo da moda. “Para representar a rainha, escolhemos a Geisy, que também foi hostilizada, mas em pleno século XXI. Além disso, o motivo de sua humilhação foi uma roupa, o que relaciona ainda mais seu caso com o enredo”, disse o carnavalesco da Porto da Pedra, Paulo Menezes.
O enredo: “Com que roupa eu vou? Pro samba que você me convidou?” Perfeito, não? O vestido será tão curto quanto o da Uniban, numa referência clara ao episódio. Será que vão linchá-la na Sapucaí? Não, acho que não. Lá tudo bem, né?
Todo janeiro, o Brasil começa uma expectativa em torno de seu feriado mais querido, o Carnaval. Expectativa essa embalada, sem dúvida, pelos comercias da Rede Globo, que a cada ano divulga os sambas-enredo das escolas do Rio de Janeiro e de São Paulo com belas mulheres pintadas em pouca tinta e alguma purpurina.
É o estereótipo da tal “Globeleza”, lembra?
Bem, já dizia o antropólogo Roberto DaMatta que o Carnaval é um momento único, em que se apaziguam as tensões sociais e subvertem-se as hierarquias. É uma festa em que o povo ganha as ruas e coloca nelas sua cara, assim como nos meios de comunicação. São dias em que “todo mundo é igual” – o que em certa medida colabora para deixar o país tranqüilo, tranqüilo até demais –, onde o gari que limpa a Sapucaí vira estrela.
Até aí, ok. Ótimo. Todo apoio ao Carnaval.
Mas ninguém pode negar que, invariavelmente, a televisão se aproveita desse período para conseguir audiência – como, aliás, no resto do ano. E qual é um dos métodos de fazer isso? Expondo excessivamente o corpo da mulher, enfocando cada detalhe de bundas e peitos e, muitas vezes, dando mais atenção a isso que ao resto do desfile.
Eu estou reclamando disso porque sou puritana? Acho que não. Adoro o Carnaval, é uma de minhas datas favoritas. O que me incomoda justamente é o reforço de uma falsa sexualidade exacerbada, vendida em horário nobre como refrigerante ou novela.
Claro, não há apenas um vilão na história, trata-se de um pacto: as pessoas que sobem em cima de carros alegóricos seminuas querem aparecer. Senão, ficariam em casa, sem gastar milhares de reais para ocupar uma posição de destaque. Também se pode dizer que a pouca roupa está ligada à “tradição” carnavalesca, algo que vem desde os tempos... do Império (?!).
Mas para mim, o que reza a regra é que este é um momento de se reinventar, de se tornar outra pessoa, de “cair na folia”. E se, para alguns, isso significa tirar ternos, tailleurs e outros adereços opressores, sem problemas.
Apenas não queria que o corpo da mulher virasse um objeto hiper-midiatizado, como ocorre todo ano, com o foco da câmera nas nádegas de uma passista "boazuda" que ficou o dia inteiro lambuzando laquê nas coxas para que ninguém descobrisse que ela é normal, ou seja, que tem celulite.
Enquanto o Brasil estendeu por mais dois meses a licença-maternidade – a depender muito da boa vontade das empresas –, a Inglaterra deu um passo além e anunciou que os homens poderão dispor de mais tempo com os recém-nascidos.
Se antes a mãe ficava nove meses inteiros longe do trabalho, recebendo auxílio do governo, agora ela poderá tirar até seis meses com a criança e deixar os outros três para o pai.
Em um país onde a licença-paternidade se resumia a duas semanas, é uma grande mudança.
A medida prevê ainda que, caso queira, a família pode prolongar por outros três meses a estadia do pai em casa, mas sem remuneração. No total, são 12 meses de licença garantidos por lei, valendo a partir de abril desse ano.
Muitas empresas já reclamaram, dizendo que trata-se de uma decisão irresponsável em épocas de recessão. Em resposta, o Departamento de Negócios do Estado afirmou que o impacto na economia será mínimo e foi previsto nos cofres públicos.
O governo acredita que isso ajudará principalmente as mulheres que ganham mais que seus parceiros a retornarem ao trabalho mais cedo. Porém, calcula que apenas entre 4% a 8% dos homens utilizarão o benefício.
É uma pena, pois seria uma oportunidade única para começar a mudar a divisão de tarefas dentro da família, assim como os vínculos afetivos estabelecidos: você consegue imaginar um pai cuidando o dia inteiro de um bebê, em casa, durante seis meses?
O Haiti tem hoje muitas faces. Corpos sob a poeira e o concreto são, sem dúvida, a mais cruel de todas. Somam-se a isso casas demolidas, racionamento de água e famílias angustiadas em busca de seus mortos. A fome, que já fazia parte da paisagem, se agravou.
Claro, há resquícios de esperança, solidariedade e apoio. É essa mensagem que passam organizações como os Médicos Sem Fronteira que, com profissionais voluntários, montam hospitais de campanha para tentar minimizar o impacto da tragédia – se é que isso é possível.
Isso sem mencionar aquelas notícias parcas de pessoas encontradas com vida mais de 10 dias depois do tremor. Surpresos, ficamos nos perguntando como isso é possível. Quase um milagre em uma terra onde não deve mais ser plausível acreditar em religião.
Por outro lado, lastimamos saber que existem outras vítimas nessa situação que, provavelmente, não serão resgatadas a tempo.
Na escala de terror e lamúria, aponto também o desembarque das tropas dos Estados Unidos, que diferentemente do que seu departamento de propaganda tenta divulgar, estão sim conduzindo uma ocupação velada do país vizinho. E lamento desde sempre a entrada do Brasil lá, como aquele que traria a ordem ao caos, numa postura absolutamente dogmática e autoritária.
Eis que recebo, de uma amiga, a foto abaixo. Além de toda a tristeza por não conseguir vislumbrar o futuro dessa criança, acrescento um pingo de desgosto ao ver sua boneca. Uma mulher branca, magérrima, com cabelos loiros escorridos e olhos azuis.
É quase irrelevante diante de tamanha calamidade, eu sei. Mas com a tragédia toda, fico mais cabisbaixa ainda de notar que uma das referências para a formação dessa garota é uma realidade que absolutamente não tem nada a ver com a sua. É meio que um... "só faltava essa".
Primeiro, ele apoiou a candidatura de uma ex-miss ao governo de uma região absolutamente conservadora. Pouco depois, decidiu nomear 50% de mulheres para dirigir o país, afirmando que assim realizava um “grande sonho”. E, claro, dedicou tudo isso à mãe, à irmã e à filha.
Se você anda por fora da política internacional, não estou falando de um estadista europeu em uma sociedade com feministas de longa tradição, mas sim de nosso vizinho indígena Evo Morales, tão criticado do lado de cá da fronteira.
Morales tomou posse em 22 de janeiro para o seu segundo mandato como presidente da Bolívia e, no dia seguinte, surpreendeu muitas pessoas ao declarar que a próxima gestão federal teria eqüidade de gênero, sendo formada por dez homens e dez mulheres.
Na América do Sul, medida semelhante havia sido instituída anteriormente pela ex-presidente chilena Michelle Bachelet.
Segundo o boliviano, seu novo gabinete combina "capacidade intelectual e profissional" com a "consciência social". Com essas palavras, Morales resumiu com precisão uma questão premente na atualidade: as mulheres têm, cada vez mais, que ocupar os espaços institucionais e se tornar gestoras de processos políticos. Mas, para isso, é preciso que se abram oportunidades.
A discussão, em um resumo grosseiro, é bastante similar à questão do acesso às universidades públicas por meio do sistema de cotas: são as chamadas ações afirmativas, que forçam a alteração de um quadro desigual que, de outra forma, poderia demorar um tempo incalculável para mudar.
Como explicitou a feminista carioca Ângela Borba, “as mulheres hoje ocupam importantes espaços no mundo do trabalho, apesar das desigualdades salariais e outros tipos de discriminação, mas, na sua maioria, continuam responsáveis pelas tarefas domésticas e pelos cuidados dos filhos. Romperam barreiras importantes, mas ainda são poucas as que conseguem enfrentar o espaço da política, e o fazem, em geral, com grandes sacrifícios: não têm intimidade com este espaço tradicionalmente masculino, não conseguem convencer seus maridos e companheiros a dividirem encargos domésticos e têm menos recursos financeiros do que os homens”.
Isso não quer dizer que não existam mulheres capazes, por exemplo, de assumir o governo na Bolívia. Na verdade, certamente foi em decorrência de pressões destas que Evo Morales tomou a já mencionada decisão. Contudo, por mais competência que elas tivessem, dificilmente conseguiram galgar esse tipo de posição na administração estatal por um problema muito concreto, que pode ser colocado em apenas uma palavra: preconceito.
É claro que não basta apontar um gabinete paritário para que as mulheres ampliem sua participação política e o machismo nessa esfera seja reduzido e, quiçá, aniquilado. Trata-se de um longo processo que envolve inúmeras medidas. Lembremos aqui da campanha “Mulheres sem medo do poder”, lançada no Brasil pela bancada feminina do Congresso Nacional, em parceria com o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), ONGs feministas, universidades e o UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher), e que estimulou a filiação partidária e candidaturas femininas.
Mas é de medidas menores, como a impressão e distribuição de cartilhas com essa temática, somadas a propostas de grande impacto, como a de Morales, que se muda uma realidade no mínimo injusta.
Josefa tem seis filhos. Suas idades variam entre 4 e 22 anos. Um já não mora mais com ela: casou e saiu de casa. Os outros continuam debaixo de sua asa. Josefa cria a prole sozinha em um barraco de dois quartos. No dia-a-dia, conta com a solidariedade da mãe e da cunhada, que olham os menores enquanto ela trabalha como faxineira.
Josefa vive no Jardim Pantanal, uma das áreas que mais sofre com as enchentes em São Paulo. No final do ano passado, teve sua casa alagada e perdeu boa parte dos móveis, além da geladeira, onde conservava as injeções de insulina do filho de 18 anos. É um garoto bem esperto, aliás, que terminou o Ensino Médio em escola pública e agora quer prestar vestibular, apesar de todas as dificuldades de idas e vindas nos hospitais.
Com a ajuda de pessoas próximas, foi recuperando suas coisas aos poucos. Comprou outra geladeira por R$ 300,00 – certamente de segunda mão – e foi retomando a vida. Junto com os vizinhos, criticou o prefeito Gilberto Kassab (DEM) e a omissão do poder público. “Se eles construíram um CEU e um posto de saúde no bairro, como vêm dizer que a área é de ocupação ilegal?”, questionava. Fizeram protestos, se recusaram a sair. E a situação ficou sem solução.
Na chuva de ontem, a casa de Josefa mais uma vez encheu d’água. De nada adiantou o muro construído em frente à sua casa pelo pastor da Igreja neopentecostal que ela freqüenta – é, parece que em alguns lugares o dízimo até que funciona! Ela só ficou sabendo, não viu ainda o prejuízo, porque tinha deixado os filhos com a mãe para cuidar do garoto esperto. Ele está internado desde segunda-feira, em algum lugar da Zona Leste, com as mãos e pés inchados e ainda sem um diagnóstico médico preciso.
Mesmo assim, ela não largou o batente. “Se virou”, mais uma vez. E apareceu de manhã na minha casa. Encontrou uma Maíra chocada, que mal sabia o que dizer ou como ajudar, de tão distante que é essa realidade da sua. “Vai ficar tudo bem”, falei, meio de improviso. E em seguida soltei ainda um “se precisar de alguma coisa...”. Precisar do quê, Maíra? De tudo, né? Casa, emprego, estudo, saúde, uma cidade melhor...
Vidas secas, ou encharcadas, Josefa segue em frente. Ou melhor, sacolejando, gastando mais de três horas em deslocamentos de ônibus e Metrô.
(Uma blogueira feminista defendendo mais bunda e mais peito? Que ironia!)
Em tempos de discussões inflamadas sobre direitos humanos, não é só o autoritarismo da ditadura militar brasileira que deveria entrar em pauta. Exemplos de violação não faltam nos dias atuais: tráfico de seres humanos, trabalho escravo no campo, extermínios comandados pela PM do Rio de Janeiro e... – por que não? – a São Paulo Fashion Week.
Afinal, as modelos da edição 2010 estão absolutamente esqueléticas. Magras de doer. Só o osso, como se diz por aí.
Mas esse tempo já não tinha passado?
Bem, é verdade que há três ou quatro anos um movimento contra a anorexia e a bulimia ganhou as passarelas de todo o mundo e, de fato, conseguiu reverter essa tendência nada fashion de mulheres cadavéricas. Porém, segundo as agências, isso já é muito “last season”, démodé. De volta, então, ao cemitério!
Se havia alguma preocupação, tanto com a saúde física e psíquica das modelos, quanto com o ideal de beleza que os desfiles passavam para a sociedade, isso durou pouco. Antes, ouvia-se dizer que algumas grifes mantinham balanças nos bastidores e pesavam todos e todas um pouco antes dos holofotes, para evitar que pessoas magras demais entrassem na passarela. Hoje, porém, não há nem sinal disso. “Culpa da semana de moda de Paris”, dizem.
O resultado, já conhecemos: quem entra num manequim 36 é considerada muito “acima” da média. E, assim, ficamos sabendo que existem profissionais com um Índice de Massa Corpórea (IMC) semelhante ao de crianças de nove ou dez anos.
Sim, eu sei, a maioria delas mal saiu da infância. Pior ainda, pois além de não ter muita experiência para discernir o que é a importância do sucesso profissional versus a manutenção da saúde, estão em fase de crescimento, o que significa deveriam estar comendo ao invés de vomitando.
O editor de moda do jornal Folha de S. Paulo, Alcino Leite Neto publicou hoje, junto com a jornalista Vivian Whiteman, um artigo corajoso, denunciando a falsidade de opiniões em torno da questão: “uma rede de hipocrisia se espalhou há anos na moda, girando viciosamente, sem parar: os agentes de modelos dizem que os estilistas preferem as moças mais magras, ao passo que os estilistas justificam que as agências só dispõem de meninas esqueléticas. Em uníssono, afirmam que eles estão apenas seguindo os parâmetros de beleza determinados pelo “mercado” internacional – indo todos se deitar, aliviados e sem culpa, com os dividendos debaixo do travesseiro”. Faço minhas as palavras dele, que conclui o texto dizendo: “o filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu que as modelos são ‘as vítimas de um deus sem rosto’. É hora de interromper esse ritual sinistro. É hora de parar com essas mistificações da moda, que prega futuros ecológicos, convivências fraternais e fantasias de glamour, enquanto exibe nas passarelas verdadeiros flagelos humanos”.
A mulher que diminui a amamentação para voltar ao emprego está errada. A criança precisa da mãe. E como ela vai dar conta da casa fazendo tudo isso ao mesmo tempo? Devia trabalhar menos!
Os argumentos acima são freqüentes E muito. Trata-se de um ponto de vista bastante comum sobre o papel que a mulher exerce na sociedade contemporânea, e em especial na família.
Na Espanha, essa percepção de mundo foi denominada “neomachismo”. A argumentação teórica da questão foi recentemente explicitada em um artigo assinado pela professora e advogada Amparo Rubiales, publicado no periódico El País em 15/01.
Não consegui achar nenhuma tradução, ainda que alguns jornais brasileiros reproduzam o conteúdo desse veículo – talvez esse tema especificamente não seja tão “apetitoso” – então me arrisquei a fazê-la. Vale a pena a leitura:
“O neomachismo
Nunca pensamos que quando a democracia se fundamentou, entre outros princípios, sobre a liberdade e a igualdade, seria mais difícil tornar esta última efetiva. E, não obstante, o medo da liberdade, sobre o qual escreveu [o psicanalista alemão] Erich Fromm, não era nada comparado com o medo da igualdade, mais generalizado e resistente.
Os que defendiam ‘os valores’ da sociedade patriarcal, ainda que os justificassem de maneiras muito diversas, eram qualificados de machistas. Começaram a ser mal vistos e foram ‘baixando sua bola’; mas quando a igualdade se tornou mais plena, eles começaram a formular novos argumentos que, supostamente, não a questionavam, mas sim sua forma de exercício, com idéias que, por vezes, chegavam a parecer até ‘razoáveis’. Parecem diferentes das de sempre ainda que, no fundo, desejem o mesmo: a subordinação das mulheres.
Miguel Lorente, em seu livro denominado Los nuevos hombres nuevos. Los miedos de siempre en tiempo de igualdad (Os novos homens novos. Os medos de sempre em época de igualdade), sustenta que o gênero masculino tem maquinado novas tramas para defender sua posição de poder, e estas se baseiam em supostos problemas que a incorporação da mulher na vida ativa tem tido, sobretudo, no âmbito das relações familiares. A esta nova estratégia se denomina pós-machismo, por ter nascido, diz, no contexto da pós-modernidade, e por manter desde o seu surgimento uma certa distância em relação às posições clássicas do machismo ou do patriarcado.
No entanto, e ainda que me pareça absolutamente correto o que argumenta, acredito que é melhor denominar a essa nova forma de pensamento como neomachista porque, cada dia mais, está se transformando em uma nova ideologia que se estende e se caracteriza, precisamente, por ter medo da igualdade. É uma nova maneira de sustentar as posições machistas de sempre, mas com novos discursos e novos conteúdos. Ninguém hoje se declara abertamente como fascista, por exemplo, mas é evidente que há uma nova maneira de o ser, e a ela se denomina neofascita.
Os neomachistas municiaram o feminismo com o machismo, tratando de criar confusão onde não pode haver porque eles buscam coisas opostas: o último é a primazia do homem e o primeiro, a igualdade entre mulheres e homens. A diferença é tão grande que não vale a pena explicitá-la, a não ser porque o neomachismo busca confundir para poder manter melhor suas novas posições, direcionadas, como sempre, a questionar os direitos das mulheres, sua autonomia e a independência conquistada. Não questionam, dizem, a igualdade, mas as conseqüências de seu exercício; são contrários à violência de gênero, mas manifestam com reiteração que há muitas denúncias falsas sobre ela, sem acrescentar que, se assim fosse, um crime estaria sendo cometido que também deveria ser denunciado, como qualquer outro caso.
Existe um juiz que dá medo pelas coisas que diz – não quero nem dizer que é, mas gostaria –, e existem, desgraçadamente, muitos teóricos do neomachismo – entre eles mulheres – que surgem diariamente e que temos que desmascarar como fizemos com os machistas.
Consideram a igualdade como uma ameaça, mas não para eles, e sim para as relações sociais, e exacerbam isso ao extremo: pela violência de gênero. O feminismo sempre foi ridicularizado e hoje, de novas formas, volta com força a sê-lo. Assim, falam de revanche de gênero, de feminismo ressentido, dogmático ou radical, sem outras intenções que novamnete a ‘demonizá-lo’.
São manifestações desse medo da igualdade que os neomachistas tratam de ampliar de diversas maneiras: sacralizam, por exemplo, a lactação materna, tornando as mães culpadas por não poder praticá-la; tornam as mulheres responsáveis pelos problemas das crianças, com a teoria do ‘ninho vazio’; e do aborto, nem falemos, parece que ele é apenas resultado do capricho de algumas. Nenhum deles diz que está contra a igualdade: pelo contrario, afirmam que somos nós, as mulheres, que estamos desenvolvendo uma sociedade com graves problemas de convivência como conseqüência direta da nossa necessidade de sermos livres e iguais. Nunca entenderam que sem igualdade a liberdade não existe, e que a primeira ou é real ou não é igualdade, e a democracia exige ambas.
Nós mulheres sempre tivemos que alcançar coisas com as quais os homens já nasciam; nos relegaram ao mundo privado e fomos conquistando – com muitos anos e esforço – parcelas do público, mas sempre às custas da vida privada. Os homens, que tinham designado para eles próprios o mundo público, se mantiveram dessa forma, e sua incorporação ao outro mundo foi sendo feita em medida muito menor, daí as resistências persistentes à igualdade – ainda que tenhamos avançado bastante –, especialmente nos países desenvolvidos – porque em muitos outros ainda existe a burca, símbolo da maior das discriminações das quais padecem as mulheres.
Temos que acabar com todas as burcas do mundo, sabendo fazer frente, com a mesma contundência, aos velhos argumentos e a esses mais sutis do neomachismo."
Ministério Público denuncia mais de mil agressores de mulheres
Para quem ainda se questiona sobre a eficácia ou a necessidade da Lei Maria da Penha – aquela que impôs uma “linha dura” na punição contra os agressores de mulheres –, a atuação do Ministério Público da Paraíba (MPPB) não deixa dúvidas: em 2009, foram denunciados na Justiça mais de mil casos de violência doméstica, quase três por dia!
De acordo com a promotora de Justiça Maria Ferreira Lopes, que atua na Terceira Vara Criminal de João Pessoa, o elevado número de denúncias está diretamente relacionado à vigência dessa legislação.
Isso significa que, além do Judiciário conseguir aplicar a Lei Maria da Penha, as mulheres também estão cada vez mais recorrendo a esse recurso. Sem dúvida, uma ótima notícia, talvez possível graças ao passar do tempo: em 2010 completaremos quatro anos dessa lei.
Claro, ainda há muitos problemas, não sou tão otimista assim. Segundo Maria Ferreira, apesar dos avanços, em boa parte dos casos as mulheres não dão prosseguimento ao processo. “Perdemos um tempo grande para fazer a ação e muitas desistem da demanda e pedem retratação. Às vezes até aconselho as vítimas, alertando que o amor é lindo, mas a lei é superior e que elas pensem bem antes de tomar essa atitude”, afirmou, em nota do MPPB.
Já tinha ouvido relatos sobre isso de uma amiga que é juíza no interior paulista. Até então, ela não havia conseguido aplicar a Lei Maria da Penha. Não por falta de casos em sua comarca. Mas porque as mulheres que denunciavam seus companheiros voltavam atrás na decisão dias ou apenas horas depois. "Ele é uma boa pessoa, doutora", disse uma.
Me lembrei daquela letra do Vinicius de Moraes, Samba da Bênção, em que em determinada estrofe ele afirma: “Uma mulher tem que ter / Qualquer coisa além de beleza/ Qualquer coisa de triste / Qualquer coisa que chora / Qualquer coisa que sente saudade/ Um molejo de amor machucado/ Uma beleza que vem da tristeza / De se saber mulher / Feita apenas para amar / Para sofrer pelo seu amor/ E pra ser só perdão”.
Ainda bem que Maria da Penha não perdoou seu ex-marido, que em 1983 tentou assassiná-la por duas vezes. Na primeira com arma de fogo, deixando-a paraplégica, e na segunda por choques elétricos e afogamento. Se fosse complacente, talvez não tivesse vivido para ver a punição dele, que ocorreu apenas 19 anos depois. E nem para se tornar símbolo da luta contra a violência doméstica.
Jessica Jordan é uma das mulheres mais bonitas da Bolívia. Tanto que, em 2006, ela foi agraciada com o título de miss. Mas ultimamente a modelo profissional anda chamando a atenção por outros motivos que não seus atributos físicos: ela lançou-se candidata ao governo do departamento de Beni, um dos mais conservadores do país. E com o apoio do presidente Evo Morales.
“As hermosas também têm direito a serem candidatas”, afirmou o vice-presidente Álvaro García Linera após o início da campanha.
A oposição local, contudo, parece não concordar muito com isso: já acusou Morales de eleitoreiro e aproveitador por abusar da imagem de uma modelo consagrada em uma região onde tem menos apoio.
O pilar de sustentação desse argumento é que Jordan não é filiada ao MAS (Movimento ao Socialismo), partido do presidente, o que sugeriria um arranjo que não passa por crivos ideológicos. Por trás, porém, está um misto de medo do sucesso que Jordan pode ter nas urnas com o preconceito de ter uma mulher, com apenas 25 anos e ainda por cima modelo, governadora.
Jordan costumava aparecer na TV de biquíni em uma propaganda de rum. Agora, de calça jeans e camisa, faz discursos curtos, mas inflamados. “Entrei nessa disputa para ganhar, ganhar ao lado de companheiros. Vamos enfrentar marés e tempestades, mas não vamos nos dar por vencidos. Há muita gente esperando por esse momento, vamos seguir adiante”.
Nos últimos dias, ela tem percorrido as áreas mais pobres dizendo à população que quer “ser a sua voz” e que deveriam pensar no desenvolvimento de Beni. Segundo a imprensa, há certa surpresa entre os eleitores, que não parecem habituados a ver “rostos bonitos” preocupados com suas demandas.
É bem possível que na Bolívia, assim como no Brasil, o estereótipo de que mulher bonita tem menos cérebro seja bastante difundido. Se ela fosse loira, então, coitada! Seria taxada de burra na certa.
Mas, se todas as pessoas têm o direito de concorrer a um cargo eletivo, uma ex-modelo é uma candidata absolutamente legítima. Além disso, beleza pode até ser um ótimo cartão de visita, mas certamente não garante sucesso nas urnas. Ainda mais para um cargo como esse – sim, talvez para deputada estadual ou vereadora ela ganhasse sem muito esforço; no Brasil temos inúmeros exemplos de celebridades quase apolíticas que se elegeram com facilidade – e dentro de um contexto como o boliviano, em que oposição e situação estão permanentemente se enfrentando em uma disputa feroz.
A polêmica em torno de Jordan, que começou no dia 09 de janeiro, quando as primeiras notícias sobre a candidatura foram divulgadas, deve continuar até 04 de abril, data do pleito. Uma colega de profissão já disse que sua amiga cometeu um “suicídio social”. Morales, por sua vez, está confiante: “Ela vai ser a primeira governadora mulher”, declarou. Sem dúvida, será uma campanha curiosa de acompanhar. Quem sabe, aos poucos, a política importe mais do que a carteira de trabalho da moça.
Ah, eu já mencionei que ela estudou engenharia industrial?
Ao que tudo indica, a descriminalização do aborto tal como está deve ser retirada do III Programa Nacional de Direitos Humanos (ver post abaixo). A pressão da Igreja Católica sobre o governo parece estar funcionando e a redação final do documento pode conter, no limite, frases genéricas sobre a questão.
O argumento? Bem, são vários. O primeiro e principal é que aborto não é um direito da mulher – sim, ela carrega a criança nove meses, mas para muitos é simplesmente uma “mensageira” que entrega um “pacote”, e não alguém que pode decidir sobre seu próprio corpo – ou seja, não deve constar no PNDH. O segundo, é quem engravidou por engano é culpada e precisa ser punida: deveria ter "se cuidado" e ponto, pois todos os métodos de prevenção são absolutamente infalíveis e se "deu mole" é relapsa ou promíscua. Aliás, que idéia! Ela nem poderia ter tido relações sexuais, porque isso se faz apenas após o casamento e para procriação, não por prazer. E, por último, não se trata de uma questão de saúde pública. Afinal, lei é lei: se a interrupção voluntária de gravidez é proibida – pelo Estado e por Deus – ninguém deve fazê-la. E qualquer discussão fora disso é crime.
Juro que não entendo porque eles acham aque essa estratégia vai funcionar. Afinal, o aborto já é uma realidade no Brasil: segundo a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, cerca de 1,2 milhão de interrupções voluntárias de gravidez são feitas por ano no país, causando 9% das mortes maternas e 25% das esterilidades. É ainda a quinta causa de internações hospitalares, com 250 mil casos de complicações. Em Salvador (BA), é a primeira causa de mortes maternas.
Vejam abaixo o excelente vídeo da campanha “Vai pensando aí”, que coloca o tema em debate:
Para mim, a criminalização do aborto no Brasil é o chamado “tapar o sol com a peneira”. Enquanto muitos outros países já entenderam essa como uma questão de direitos humanos, nós deixamos milhares de mulheres, principalmente as pobres, sem acesso a cuidados básicos, à mercê da morte em clínicas clandestinas ou com remédios devastadores. Isso quando não tomam medidas mais drásticas, como cutucar o útero com agulhas de tricô. Sim, gente, isso acontece. Puro desespero de quem não encontra outra saída.
E você, já fez aborto? Conhece alguém que fez? Em quais circunstâncias? Essa pessoa deveria ir presa?
Maíra Kubík Mano é jornalista. Mestranda em Ciência Política na PUC-SP, estuda a relação entre a mídia e as mulheres. Foi editora-assistente da revista História Viva e já colaborou com diversas publicações. É editora de Le Monde Diplomatique Brasil