Ser mulher e negra no Brasil

Hoje é o dia da Consciência Negra. A data, 20 de novembro, lembra a morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares.

Aqui em São Paulo e em outras 224 cidades é feriado. Brasília não é uma delas. Ontem fui à capital federal para gravar um programa de TV sobre o caso Geisy Arruda – na semana que vem informo os horários de exibição, se alguém quiser assistir – e ouvi mais de uma pessoa comentar, em tom pejorativo: “Não, aqui não tem esse mole. Vamos trabalhar amanhã”.

Que o Brasil tem muitos feriados e isso é motivo de piada eu já sei. Mas o dia da Consciência Negra é uma iniciativa fundamental, que vem para estimular a reflexão sobre  a nossa sociedade e os preconceitos ainda existentes, além de celebrar a cultura e ressaltar a importância dos negros no Brasil.

Basta pontuarmos alguns poucos dados sobre as mulheres negras para percebermos que ainda temos um longo caminho pela frente:

1.  Junto com as mulheres pardas, as negras 23% da população;
2. 28,19% delas não sabem ler ou escrever;
3. As mulheres pretas, pardas e indígenas são a maioria entre as trabalhadoras domésticas, 35,53%;
4. O salário da mulher negra é até  61% menor do que o de um homem branco ocupando a mesma função;
5. O índice de mulheres negras que nunca teve acesso a um ginecologista é até 10% maior do que entre as brancas.

E por aí vai. Em cada número, uma amostra do quanto temos a fazer.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h18
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Para marca de camisas, lavar roupa é “trabalho de mulher”


Sem tempo para grandes elaborações teóricas – e também porque acho que algo assim até dispensa comentários –, apresento abaixo uma etiqueta de camisa da marca Sergio K., que veste celebridades como Gilberto Gil, Rodrigo Santoro,Thiago Lacerda e Luciano Huck. Uma amiga encaminhou a foto:


 

Nela, podemos ler: “Give it to your wife. It’s her job”. Traduzindo para o bom português: “Dê para a sua esposa. É trabalho dela”. Sem querer ser simplista, não duvido que homens poderosos, que compram trajes caros em lojas sofisticadas – as três unidades da Sergio K. em São Paulo ficam na rua Oscar Freire e nos shoppings Iguatemi e Market Place – e, claro, entendem inglês, riam dessa piada sem graça. Ou, pior ainda, achem que isso é sério e que realmente as mulheres sejam as responsáveis por lavar sua roupa suja.

No mínimo, os dirigentes da marca demonstraram ser machistas, preconceituosos e retrógrados ao grafar essa sentença. Afinal, alguém lá dentro teve essa idéia e a colocou em prática pensando que a clientela iria gostar.

É um completo absurdo que algo desse tipo esteja em circulação. Minha sugestão? Entrar em contato com a tal loja e exigir que essa etiqueta seja imediatamente banida: http://blog.sergiok.com.br/ e, no Twitter: http://twitter.com/SERGIOKOFICIAL



Escrito por Maíra Kubík Mano às 15h07
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Beijinhos e assobios: ninguém merece

Li dia desses um texto de Ivan Martins, da revista Época, sobre como as mulheres recebem cantadas e comentários indesejados na rua e, muitas vezes, não reagem. Me identifiquei com a situação: como toda brasileira, já ouvi assobios irritantes e palavras grosseiras e, frustrada, me senti incapaz de retrucar. Não que não quisesse, mas em várias ocasiões quem dispara tais bobagens mete tanto medo que simplesmente não vale a pena arriscar uma resposta contundente. Ou seja, para evitar uma agressão maior, física, me contento em esquecer aquela oral.

Entre outras coisas, penso que talvez me falte coragem ou “peito”, para usar uma expressão que serve tanto para homens quanto para mulheres.  Mas será que adiantaria sair por aí educando aqueles que assediam outras pessoas em público, lhes dizendo que não, eles não têm o direito de fazer isso? Sempre acabo me convencendo que isso não faria a menor diferença. Volto a ter certeza de que, se uma mulher escolher uma blusa com decote para caminhar em São Paulo ou no Rio de Janeiro ela vai ouvir cantadas. Se colocar uma calça jeans mais apertada também. O mesmo acontece ao vestir uma saia, soltar os cabelos ou usar um sapato de salto.

Anos atrás, quando era menos pessimista do que sou hoje, tive uma experiência positiva em Santiago de Cuba. Nessa cidade na ponta da ilha de Fidel boa parte dos homens aborda as mulheres com beijinhos e fazendo um som parecido com os de um vaqueiro tocando a boiada. É constrangedor. Obviamente não consegui aturar aquilo muito tempo. No auge da irritação, mas ainda com um certo bom humor, comecei a mandar beijos de volta. Bingo! Imediatamente pararam, atônitos. Haviam saído da sua posição de poder. Não surtiam mais o efeito desejado. Não eram mais os donos da situação.

Claro, no exterior esse tipo de reação sempre parece mais “fácil” já que não se trata do nosso terreno cotidiano. E quando olho para trás fico feliz de, como se diz, não ter levado desaforo para casa. Mas, ao mesmo tempo, percebo que a única maneira de desnudar aquela agressão foi me tornando também uma agressora e isso me incomoda. Muito.

Afinal, o poderíamos fazer de fato? Sem dúvida, o fim de situações como essa passa por uma mudança ampla da sociedade, em que a mulher ocupe outro papel e o homem não se sinta dono, proprietário, no direito ou à vontade para simplesmente fazer um comentário rude e muitas vezes maldoso sobre alguém que ele nem conhece.

Mas como lidar com isso desde já, no dia-a-dia? Devemos parar e conversar? Rir da cara do outro? Chorar? Reclamar? Constrangê-lo? Gritar? Tudo ao mesmo tempo e de forma organizada? Não sei ao certo, mas depois de escrever esse post e me sentir uma feminista de quinta categoria, de alguma forma vou começar a me mexer. Ninguém merece viver assim.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 08h44
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Quem pode se comunicar no Brasil

No Brasil, os donos dos meios de comunicação não são conhecidos apenas como proprietários. São também designados “coronéis”. O termo, utilizado com freqüência para traçar um diagnóstico da mídia nacional, não é mera associação conceitual ao coronelismo definido na Ciência Política: diz respeito à forma como se configurou o sistema de comunicação no país.

Basta ver que entre as famílias que figuram no topo da lista dos detentores da mídia no Brasil estão nomes bastante conhecidos do cenário econômico e político nacional, tais como os Collor de Melo em Alagoas, os Barbalho e os Sarney no Maranhão e os Magalhães na Bahia. Ou alguém vai me dizer que ACM não mandava e desmandava?

A questão de como chegamos até essa situação é complexa. Envolve jogos de poder, moedas de troca e repressão desde a República Velha, que persistiram durante a ditadura e se mantêm até os dias de hoje. Com a preocupação de explicitar o tema e explicá-lo de maneira didática, o Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social produziu um documentário preciso, que aponta a concentração midiática no país e, ao mesmo tempo, ressalta a comunicação como um direito humano.

O assunto certamente será um dos nós centrais da Conferência Nacional de Comunicação, que acontece em dezembro em Brasília e deve reunir governo, sociedade civil e empresários. Um nó que, contudo, não será nada fácil de desatar.

O filme, recém saído do forno, se chama “Levante sua voz” e foi dirigido por Pedro Ekman. Vale a pena.


Intervozes - Levante sua voz from Pedro Ekman on Vimeo.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h01
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A homofobia é crime, pelo menos nos EUA

Enquanto o Senado brasileiro se limita a discutir publicamente a aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006), que pune a discriminação contra homossexuais, em uma enquete em seu site, os Estados Unidos parecem estar bem mais avançados nesse âmbito. Em 28 de outubro, após muita pressão contrária e a favor, Barack Obama assinou uma lei que torna esse tipo de violência crime hediondo em todo território americano.

Conforme relata a blogueira
Alexandra Peixoto, d
esde que assumiu a presidência Obama é criticado por sua falta de atitude em relação aos direitos GLBTs e a medida foi vista como uma primeira ação positiva. Denominada de The Matthew Shepard and James Byrd, Jr. Hate Crimes Prevention Act, a lei honra a memória de um estudante de Wyoming assassinado brutalmente como vítima de homofobia, e de James Byrd, um afro-descendente americano que foi acorrentado na traseira de uma pick-up e arrastado por aproximadamente sete quilômetros. Ambos os crimes aconteceram em 1998.

É verdade que nossos parlamentares não ignoram totalmente a questão: já aprovaram, em 5 de novembro, o PLC 122 na Comissão de Assuntos Sociais. O substitutivo, apresentado pela senadora Fátima Cleide (PT-RO), foi feito à proposta original de autoria da ex-deputada Iara Bernardi, e inclui na lei já existente – que considera como crime o preconceito racista, religioso ou de origem – a punição de atos discriminatórios por sexo, gênero ou orientação sexual.

Porém, há um longo caminho pela frente: a proposta voltará às comissões de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) e Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e segue depois para o plenário do Senado. Se for aprovado pelos senadores, o projeto terá que retornar à Câmara dos Deputados para nova apreciação uma vez que foi modificado pelo Senado Federal.

E as dificuldades não param por aí. Na tal enquete do começo do post, os votos contrários à aprovação da lei são maioria por enquanto.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h01
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A justificativa do estuprador

Em 09/11, a Uniban revogou a expulsão de Geisy Arruda e afirmou que seu Reitor "dará melhor encaminhamento" para o caso. Sem dúvida, o recuo dessa instituição de ensino está diretamente vinculado à pressão que a sociedade exerceu. O episódio ainda merece análises mais aprofundadas, mas tiro dele duas lições:1) que de fato não é possível dizer que as mulheres já conquistaram todos os seus direitos; 2) que a mobilização organizada continua funcionando.

Não pensei que voltaria a escrever aqui sobre a Uniban e o caso da estudante Geisy Arruda. Depois de toda a confusão, vídeos na internet e depoimentos na televisão, as cenas do próximo capítulo dessa história pareciam restritas ao seu retorno às aulas.

Eis que o site do Estadão publica uma nota anunciando que amanhã, domingo, a Uniban veiculará nos principais jornais uma propaganda avisando à sociedade ter decidido pela expulsão da aluna. No dia 22 de outubro, Geisy sofreu assédio nos corredores da universidade por trajar um vestido curto e a situação só foi controlada com a chegada da polícia.

“A educação se faz com atitude e não com complacência”, afirmou a Uniban, como conclusão de uma sindicância interna que avaliou a questão. De fato, nada poderia estar mais correto. Se fosse levar essa frase ao pé da letra, essa instituição de ensino privado, uma das maiores do país, poderia ter repreendido de forma contundente todos aqueles que, numa atitude para a qual não há adjetivos possíveis, atacaram a colega e chamaram-na de “puta”.

Porém, no lugar de ensinar tolerância, respeito ao próximo e, principalmente, às mulheres, a Uniban passou como exemplo a anuência, a intransigência e o conservadorismo.

Sim, ao que tudo indica, os envolvidos no episódio foram suspensos. Mas a garota foi expulsa, impedida de estudar. Em poucas palavras, foi considerada culpada por sua própria agressão.

“A atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar". Esse tipo de argumento me lembra depoimentos de estupradores que dizem, do fundo do seu coração, “mas ela me chamou, com aquela roupa, aquele sorriso”, tentando justificar uma ação absolutamente irracional e imperdoável.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 20h00
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Da histeria feminina

Voltei hoje para a terapia e desde que saí do consultório não consegui deixar de pensar no peso da palavra “histeria” para as mulheres. Não sigo a linha freudiana ou nada do tipo – aliás, acho que ela anda cada vez mais em desuso –, mas por algum motivo subjetivo comecei a imaginar todas aquelas que, ao longo do tempo, acabaram classificadas como “problemáticas” e até mesmo “loucas”.

Desmaios, crises de choro, perda de sensibilidade e cegueira. Principalmente nos últimos dois séculos, esses sintomas foram atribuídos ao sexo feminino como prova e demonstração de sua fraqueza diante da vida. E por quê? Por não termos os genitais masculinos, como alguns teóricos insistiam em afirmar. Essa percepção pode já estar no passado, mas sem dúvida continua presente no imaginário da sociedade – ao menos o suficiente para ser fundamental compreendê-la.

Tendo isso em vista, compartilho o verbete de “psicanálise e gênero” de um livro argentino que consulto com freqüência – o Dicionário de estudos de gênero e feminismos, em tradução livre. O trecho foi escrito por Irene Meler e traz um resumo interessante da questão, a partir do começo do século XX. Do ponto de vista feminista, claro:

“As representações sobre a inferioridade intelectual das mulheres ou de sua instabilidade emocional buscaram naturalizar algumas características da feminilidade convencional próprias da época. Não obstante, no começo de sua atuação, Freud foi favorável aos interesses das mulheres. Em primeiro lugar, começou a escutar seu discurso e a atribuir-lhe um sentido, com o qual outorgou certa dignidade a seus padecimentos emocionais. Em segundo lugar, discutiu algumas idéias misóginas de sua época. Moebius, um autor muito apreciado no início do século XX, havia escrito uma obra intitulada A imbecilidade fisiológica das mulheres, onde explicava por razões biológicas o escasso aporte feminino na criação cultural. Freud discordou dessa suposição e, ainda que concordasse com o fato de que o comum às mulheres era ter um desenvolvimento cognitivo inferior ao observado nos homens, o explicou sobre a base do duplo código moral vigente, que impunha uma censura sobre seus desejos sexuais muito mais severa que a exercida sobre os homens. Considerava que o desejo do saber era, em seu início, uma curiosidade sobre a diferença sexual e da origem das crianças. E se esse desejo era objeto, no caso das meninas, de uma forte repressão, seu desenvolvimento intelectual futuro estaria prejudicado. Esse é um caminho por onde o pensamento freudiano poderia ter continuado até se encontrar com as teorias feministas, que já existiam nesse período.

Porém, nos escritos posteriores, seu discurso sobre as conseqüências psíquicas da diferença sexual anatômica, o narcisismo, a solução do complexo de Édipo nas mulheres e a formação do superego feminino estiveram cheios de suposições sexistas. Afirmou que as mulheres eram mais narcisistas que os homens, o que sugeria uma menor capacidade de amar, que desenvolviam uma forma específica de masoquismo, ou seja que a feminilidade estava associada ao desejo de sofrer, e que percebiam suas genitais como se fossem órgãos masculinos castrados, e por conta disso se desvalorizavam. Como conseqüência dessa situação de renúncia à satisfação direta de suas pulsões, acabavam presas no desalento de não poder obter genitais semelhantes aos masculinos. Por esse motivo a constituição do superego, a instância psíquica encarregada do controle dos impulsos e que permitia, mediante esse expediente, destinar energia para as realizações intelectuais, era inferior ao habitual entre os homens. Isso explicava a escassa contribuição feminina à cultura. O caminho havia se desviado: de perceber inicialmente as mulheres como oprimidas em excesso e prejudicadas por isso, chegou a supor que as características dos genitais femininos eram responsáveis por sua condição de subordinada”.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 23h59
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A caça às bruxas na Uniban

Até onde vai o discernimento moral que nos impede de cometer atos denominados como “bárbaros”? Comecei a me questionar sobre isso ao assistir alguns vídeos feitos por estudantes da Uniban, uma das maiores instituições privadas de ensino superior do país. Nas imagens, o quase linchamento sofrido por uma aluna que trajava roupas consideradas “indecentes”.  “Puta” é o grito mais ouvido nessas gravações, feitas de forma precária em aparelhos celulares.

O caso ganhou notoriedade na mídia e já foi amplamente comentado, portanto não vou me estender. Para resumir, a jovem, assustada com a fúria dos colegas, se escondeu em uma sala de aula e só conseguiu sair escoltada pela polícia. Aparentemente consternada, a universidade divulgou a seguinte nota: “A posição da UNIBAN é de total repúdio a qualquer manifestação de preconceito de gênero e qualquer forma de difamação ou violência. Cumpre esclarecer que algumas matérias veiculadas estão equivocadas quando se refere ao crime de tentativa de estupro, uma vez que não houve qualquer contato físico nem perseguição à aluna. O que houve foram manifestações verbais de caráter ofensivo”.

Pois bem. Em um episódio que considero muito mais grave e que veio à tona também essa semana, uma garota de 15 anos foi de fato violentada em Richmond, Estados Unidos, por cerca de 20 pessoas durante uma festinha em sua escola. A agressão durou mais de duas horas e durante todo esse tempo nenhum dos envolvidos se comoveu com os gritos de socorro da menina, que além de ser estuprada apanhou bastante.

O policial responsável pelas investigações Mark Gagan classificou o ato como “bárbaro” em entrevista à BBC: "Eu ainda não consigo entender que várias pessoas viram, abandonaram o local ou participaram da agressão. É um dos casos mais perturbadores em meus 15 anos como policial." A reação se assemelha a comentários que circularam pela internet sobre o acontecimento na Uniban, descrito por muitos como algo dos “talibãs”, em referência ao grupo que comanda a resistência contra as tropas estadunidenses e européias no Afeganistão.

Se remontarmos à história, "barbárie" foi o termo utilizado pelos romanos para denominar os povos não “civilizados” que a cada ano forçavam mais as fronteiras do Império, ameaçando a pax, o saber e, claro, a manutenção do poder. Um pouco antes, os gregos já apontavam os troianos como os “estrangeiros”, numa conotação para lá de negativa, e associavam os persas ao “obscurantismo”. Agora, reproduzindo a história, os afegãos – e paquistaneses e iranianos e árabes – são a própria falta da “luz”. Poucos sabem, porém, que seus combates hoje são direcionados por textos do estrategista prussiano Carl von Clausewitz e que sua propaganda traz vídeos de cantores locais de rap – cá entre nós, nada poderia ser mais Ocidental e estadunidense do que rap.

Sem mais delongas, o ponto é que estamos discutindo aqui a natureza humana, e justificar que ela não é “típica” deste lado do mundo não poderia estar mais fora da realidade. Vivemos em tempos cruéis, em que apesar de o Brasil não estar envolvido em nenhuma guerra pro forma, a violência salta aos nossos olhos diariamente, seja pela mídia ou por nosso cotidiano. Ouvimos e vemos acontecimentos terríveis, que dilaceram corpos e conceitos. Como esquecer o “microondas” nas favelas cariocas, em que uma pessoa é assassinada presa a vários pneus queimando?

Não se trata, portanto, de algo inédito. Muito menos quando há uma multidão urrando. Basta lembrar das brigas de torcidas organizadas que ocorrem todos os finais de semana no Campeonato Brasileiro de futebol. E tampouco é assombroso que envolva preconceito de gênero, pois a sociedade continua machista, homofóbica e repleta de preconceitos. Sim, pelo menos ainda ficamos chocados com casos como o da Uniban. Mas há quem diga que a garota mereceu, provocou, “pediu”.

Tudo isso me leva à conclusão de que estejamos nos pautando por valores deturpados desde sempre: que a mulher deve se vestir de forma determinada, se comportar de maneira específica e, em especial, que ainda é possível violentá-la, seja oral, física ou psicologicamente. Somados à permissividade adquirida pela sensação de estar protegido pelo coletivo, que eu nem ouso tentar discutir, aí está uma combinação explosiva.

Repito, nada é novidade: não podemos nos esquecer de uma só mulher queimada pelas fogueiras da Inquisição na Idade Média.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h11
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E os livros de auto-ajuda se proliferam

– Por que os homens se casam com as manipuladoras? Por que os homens amam as mulheres poderosas?

– Ele simplesmente não está a fim de você. O que toda mulher inteligente deve saber é como lidar com os homens e conseguir o que merece.

Não, este não é um diálogo angustiado entre amigas. Cada uma das frases acima é o título de um de livro que encontrei nas prateleiras de uma loja no aeroporto de Congonhas. E, claro, estes não eram os únicos, apenas representantes gritantes de uma constatação inegável: a de que a categoria “auto-ajuda” ganha cada vez mais espaço, com capas apelativas que tocam diretamente na insegurança das mulheres.

“É verdade que a literatura acabou por se tornar, cada vez mais, uma atividade feminina: nas livrarias, nas conferências ou nas readings dos escritores e, naturalmente, nos departamentos e nas faculdades em que se estuda literatura, as saias ganham de goelada das calças. (…) Não resta dúvida: há cada vez menos leitores de literatura – há muitos leitores, mas de lixo impresso – e, entre eles, as mulheres prevalecem”, afirmou o escritor peruano Mario Vargas Llosa à revista Piauí esse mês. Será mesmo?

As mulheres estariam lendo mais, mas apenas em busca de respostas para serem sexy, cultas, boas de cama e determinadas, sem qualquer resquício de carência – ah, e com um corpão a base de dietas-relâmpago? A pergunta pode parecer quase engraçada, mas é trágica: se fôssemos atrás de encarnar todas as promessas que esses manuais de sobrevivência fazem, certamente esse seria o conjunto de “qualidades” que exibiríamos.

Em seu texto, Vargas Llosa faz uma ode ao romance como dimensão fundamental para a humanidade, onde é possível sonhar, imaginar, tornar-nos perversos, estrangeiros, operários, rainhas ou simplesmente outros. Uma válvula de escape que, ao mesmo tempo, pode projetar um mundo melhor: o que seria dos voluntaristas sem o adjetivo “quixotesco”?, questiona.

O romance é também espaço para mulheres livres, que não se pautam pela ditadura da estética e da imposição casamenteira e parideira da sociedade. Que o diga a Menina Má de Vargas Llosa, uma leitura deliciosa e sem preconceitos. Claro, na literatura tudo cabe, inclusive textos ruins que caminham na contramão disso. Mas vamos nos ater às Madames Bovary, Ms. Dalloway e às protagonistas de Simone de Beauvoir. Por que então não lê-las? Talvez, em tempos de globalização das comunicações, falte o apelo publicitário que aponta, como nos livros de auto-ajuda, onde exatamente você vai se sentir “recompensado” por gastar seu tempo naquilo. Bem, sem grandes frases de efeito, limito-me a dizer que um romance vai tornar sua vida mais feliz. Eu prometo.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 10h15
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Uma lata de Coca-Cola vale uma pedra de crack

Trabalho no centro de São Paulo, perto da Praça da República. Outro dia eu estava em um boteco na esquina da Rua do Arouche tomando um refrigerante e comendo uma coxinha – daquelas que você pensa duas vezes antes de morder depois que vê a cor do óleo –, em pé, no balcão.

Um menino com não mais do que sete anos veio me pedir para lhe pagar uma Coca-Cola. Perguntei se ele não queria alguma coisa mais saudável – um suco de frutas – ou com mais sustância, como um café com leite. “Não, só a Coca mesmo, tia”.

Solicitei ao atendente que lhe servisse. Este, para a minha surpresa, respondeu de supetão: “Só que tem que abrir a latinha aqui, moleque. Não vai trocar por pedra na quadra de baixo”. O menino, assustado, imediatamente começou a beber o refrigerante. Logo depois foi embora, calado.

“Você estava falando sério? Dá para comprar crack com uma lata de Coca-Cola?”, questionei, embasbacada. “Ih, dona, os caras fazem isso todo o dia aqui. Triste, né?”, foi a resposta que recebi. Triste é pouco. Não sou ingênua, sei que esse é o cotidiano daqui e de centenas ou milhares de outras cidades no mundo.  Mas continuo chocada, atônita, com raiva e vontade de chorar quando me lembro dessa cena.

No mês passado publicamos na edição impressa de Le Monde Diplomatique Brasil diversos textos que viam na legalização das drogas uma alternativa para acabar com a violência e o consumo excessivo. Há uma discussão interessante colocada por autores, como o pesquisador Thiago Rodrigues, que apontam para a necessidade do fim do proibicionismo, ou seja, daquela política que enxerga na proibição e na perseguição a solução para a questão. Para ele, isso não significa obrigatoriamente defender o uso de entorpecentes. “Tanto os argumentos liberais quanto tais discursos a favor da descriminalização não são apologistas das drogas. Pelo contrário, consideram os psicoativos nocivos e indesejáveis. Dessa forma, poderíamos dizer que, em geral, esses pontos de vista são desfavoráveis ao consumo, mas consideram o proibicionismo um modo pouco eficaz para controlá-lo. Seus defensores argumentam que seria preciso considerar as drogas como um problema de saúde pública e não de segurança pública”, afirma Rodrigues.

Portugal têm medidas interessantes nesse sentido. Após descriminalizar as drogas - não só a maconha -, o país voltou os investimentos que antes eram destinados ao combate à violência para campanhas de prevenção e de alerta aos usuários. Além disso, ampliou a rede de clínicas de tratamento e melhorou suas instalações. O resultado? O consumo diminuiu.

Lá existe uma preocupação especial com crianças e adolescentes, principalmente entre 11 e 15 anos. Para Glen Greenwald, jornalista americano e estudioso da área, “se você parar de usar todo o seu dinheiro em prender, processar e enormes forças policiais, todo esse dinheiro vai ficar livre. E aí você pode gastá-lo com campanhas reais. Isso aconteceu em Portugal. Eles têm campanhas de saúde reais, dezenas de milhares de crianças andando de bicicleta por toda Lisboa, por exemplo, e as campanhas entraram na rede educacional. Dinheiro que costumava ir para o departamento de justiça criminal para prender pessoas e liberá-las sem nenhuma mudança no comportamento agora pode ser investido crianças, influenciando-as de formas efetivas sobre os riscos do uso de drogas, ou em opções de tratamento”. Os dados são incontestáveis. Segundo ele, “as taxas de uso de drogas por adolescentes em Portugal, sem comparar com outros países, mas em números absolutos, caiu nos 6 anos desde 2001, quando a lei entrou em vigor. Se você consultar qualquer literatura sobre isso, ela irá enfatizar que o grupo etário crucial são os adolescentes, o prognóstico-chave do futuro uso de drogas”.

Enquanto isso, no Brasil, continuamos a tratar a discussão com preconceitos, sem uma resposta efetiva para situações como a que vivenciei na Praça da República.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h04
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Maridos, sem mulheres

Nenhuma morte merece ser louvada. Claro. Dito isso, não quero deixar de registrar a cobertura da imprensa sobre o falecimento do cantor do Boyzone, Stephen Gately. Em todas as matérias que li - por favor me corrijam se estiver errada - o companheiro de Gately, Andrew Cowles, foi chamado de "marido" (eles estavam passando as férias na Espanha quando o artista sucumbiu de causas naturais).

Assim, finalmente substituíram "par", "namorado" e "amigo" pela palavra escolhida por ambos para denominar a relação: casamento. Considero isso um avanço extraordinário que, espero, se mantenha. Possivelmente é fruto das mobilizações freqüentes dos grupos LGBTT, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, que não cansam de bater na tecla do reconhecimento da união civil entre pessoas do mesmo sexo.

Quando estive nos Estados Unidos no início desse mês, uma grande manifestação sobre o tema era planejada para Washington no dia 11/10. Cartazes e panfletos espalhados pelas ruas de Nova York convocavam todos a participar. Como era esperado, milhares de pessoas compareceram e pressionaram Barack Obama e os parlamentares a reconhecer a legitimidade de suas reivindicações.

Em entrevista à Associated Press na ocasião,  o ativista Jason Yanowitz resumiu bem a questão: "se alguém não tem os mesmos direitos, então nenhum de nós é livre". E não é?



Escrito por Maíra Kubík Mano às 23h24
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Com vocês, a novíssima camisinha anti-estupro

Já havia discutido aqui o alto índice de estupros na África do Sul e a preocupação com a segurança das mulheres durante a Copa do Mundo de 2010. Pois bem, ontem uma amiga me mandou uma notícia chocante: para combater a violência sexual, as sul-africanas acabam de desenvolver uma camisinha feminina que “morde” o órgão masculino após a penetração forçada.

É isso mesmo: qualquer uma pode ter uma vagina dentada, graças à novíssima “Rape-aXe”. Segundo a
Deutsche Welle, que divulgou a notícia, a idéia surgiu a partir de relatos de mulheres que não sabiam mais como se defender dos ataques constantes.

O mecanismo é relativamente simples: "Rape-aXe é uma camisinha para mulheres que, depois de um estupro, se transforma numa camisinha para o homem. A camisinha é feita de látex e plástico, e as farpas são colocadas na parte interna de forma que o homem não consiga retirá-la sozinho", explica sua inventora, Sonette Ehlers. Ou seja, para não ficar sem pele, o agressor tem que procurar um hospital e se submeter a um procedimento cirúrgico, explicitando seu crime.

 

 

A que ponto chegamos? Será que não existe nenhuma outra maneira de conscientizar os homens que estupro é uma violência estrondosa e absurda? É preciso que ele force sua entrada no corpo de uma mulher e seja dilacerado para finalmente sentir dor – não semelhante à das vítimas, mas pelo menos uma dor?

E como se já não bastasse o cenário terrível, há quem diga que a tal camisinha é uma agressão contra os homens! Pasmem!

Não duvido que o governo sul-africano faça campanhas em massa contra o estupro. Só que, pelo jeito, não são suficientes para colocar a mulher em outro patamar naquela sociedade. Meu avô tcheco costumava dizer que sem educação um país não vai para frente. Mas não é apenas isso que falta. Falta também o mínimo de humanidade e respeito ao outro. A bem dizer, um sentimento de reconhecimento da igualdade e da importância do outro. Uma reivindicação que, imagino, os sul-africanos conheçam do período do apartheid. Quase irônico, não?



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h11
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Pelo fim da violência


A cantora Leci Brandão e a atriz Hermila Guedes são as estrelas da campanha “Democracia no mundo e em nossas vidas”, lançada pela organização não-governamental SOS Corpo. As duas gravaram vídeos que denunciam a violência contra as mulheres e doaram seus cachês.


 

A partir da semana que vem, as imagens serão veiculadas por emissoras de televisão, salas de cinema, casas de espetáculo, centros comerciais e casas lotéricas.

 

 

“Produzir este material em vídeo, com a participação de duas importantes mulheres permite que a campanha possa sensibilizar mais pessoas. Para que elas possam compreender que onde existe violência, seja qual for a sua forma, não pode existir democracia”, afirma Joana Santos, educadora do SOS Corpo. A ONG, fundada em 1981 no Recife (PE), é uma grande referência na área.

O estado é o recordista em assassinatos de mulheres, com mais que o dobro da média nacional. Os dados são de um estudo realizado pelo médico Glaucius Cassiano Nascimento e divulgado pela Secretaria de Saúde da cidade. Entre as principais causas de morte estão arma de fogo, facadas e espancamento.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h41
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Campanha contra assédio sexual no metrô

Nova York - Que atire a primeira pedra a mulher que nunca se sentiu assediada em um ônibus lotado ou em um vagão de metrô cheio de gente e não quis comentar com ninguém o que passou. Às vezes a situação é quase imperceptível aos olhos daqueles que não estão envolvidos. Ela pode ocorrer quando, por exemplo, um sujeito, com a desculpa de ultrapassar a multidão, raspa seu corpo contra o de uma passageira de forma acintosa - infelizmente, eu já sofri isso em São Paulo. Isso, claro, em casos mais simples. Há ocorrências gravíssimas, envolvendo todo o tipo de toque físico.

Em Nova York, Estados Unidos, a prefeitura decidiu recentemente lançar uma campanha para combater essa prática e informar a população, em especial as mulheres, sobre a necessidade de denunciar essa abordagem abusiva e degradante.

Fiquei sabendo disso simplesmente sentada no metrô. Quando olhei para os anúncios laterais, lá estava um cartaz, escrito em espanhol e em inglês, que dizia: "Assédio sexual também é crime no metrô - um trem lotado não é desculpa para toques impróprios. Não ature, sinta vergonha ou tenha medo de denunciar. Relate o caso para um funcionário do metrô ou um policial".

A idéia surgiu depois que um estudo revelou que 10% das nova-iorquinas tinham sofrido abusos sexuais e 63% já haviam sido assediadas no metrô da cidade.

Escancarar a situação e mostrar que não há motivo para se envergonhar ou evitar falar sobre essa violência - pelo contrário, o vergonhoso é que ela exista - pode ser uma forma de mudar uma prática que, acreditem, nós mulheres vivemos diariamente no transporte público.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 00h00
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Vida de princesa

A vida como conto-de-fadas sempre me incomodou. Principalmente porque induz as mulheres, desde pequenas, a sonhar com serem princesas. E pior: a vislumbrar um futuro perfeito que começa com a chegada do príncipe em um cavalo branco.

Coube à fotógrafa canadense
Dina Goldstein colocar um ponto final nessa ilusão. O projeto “Fallen Princesses” – algo como “princesas caídas” – começou a partir da simples observação de sua filha de três anos lendo os livros da Disney. A menina ficou absolutamente fascinada com as histórias e exigia vestir-se como as personagens.

Dina percebeu que “as versões da Disney sempre tinham um começo triste, com  uma insuportável vilã feminina, e o final era previsível e feliz. O príncipe geralmente salva o dia e transforma a jovem e bela vítima em uma princesa”. Ou seja: nada poderia estar mais distante da vida real. Não só porque o “e foram felizes para sempre” é algo praticamente impossível, por mais otimista que se seja, mas porque as mulheres não dependem de ninguém para resgatá-las.

O trabalho de Dina já está circulando há algum tempo, mas eu o descobri só agora e fiquei encantada, se permitem o trocadilho. Vejam alguns exemplos:




(Chapeuzinho vermelho viciada em junk food)


(Cinderela alcóolatra)


(Branca de Neve em família)


(Bela se submete à cirurgias plásticas)



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h23
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Maíra Kubík Mano é jornalista. Mestranda em Ciência Política na PUC-SP, estuda a relação entre a mídia e as mulheres. Foi editora-assistente da revista História Viva e já colaborou com diversas publicações. É editora de Le Monde Diplomatique Brasil

 

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