Cotas para mulheres: funciona?

Mais uma polêmica sobre a igualdade entre homens e mulheres ganha as ruas da França: o Ministério do Trabalho pode obrigar as empresas, em especial as públicas, a adotarem cotas de 40% para os cargos de direção. A proposta vem de um relatório apresentado hoje pela inspetora geral dos assuntos sociais Brigitte Grésy, que identificou diferenças substanciais de cargos e salários no mercado de trabalho.

Segundo Grésy, a “lógica de recrutamento [para esses postos] é quase exclusivamente masculina e não varia com o passar do tempo”. Os números reforçam o argumento: as mulheres são apenas 8% da direção nas 500 maiores empresas do país. “Há uma invisibilidade das mulheres nas instâncias de decisão”, afirma ela. E a medida para combater isso seria abrir espaço à força.

Detalhes à parte – número mínimo de funcionários, se a companhia tem ações na Bolsa etc –, Grésy explica que baseou sua idéia nas cotas já existentes para os partidos políticos – na França, eles são obrigados a apresentar certa alternância entre homens e mulheres nas suas listas de candidatos. Este seria um “passo seguinte”, em que o Estado garantiria “acesso igual às responsabilidades sociais e profissionais”, diz a inspetora.

Por si só, a palavra “cota” já gera questionamentos de todos os lados. No Brasil, a discussão foi acalorada quando essa medida entrou em vigor no ensino superior, seja para negros, seja para alunos oriundos das escolas públicas. Para alguns, é uma alternativa absurda, uma espécie de “favorecimento” de determinados grupos. Para outros, se apresenta como uma solução extremada, exagerada. Sem dúvida trata-se de uma saída desesperada: busca diminuir uma desigualdade que, durante séculos de existência, a sociedade não conseguiu superar. E que, infelizmente, ainda não tem qualquer perspectiva de resolver sem mecanismos como este.

Em relação às mulheres, o Brasil começou sua caminhada em 1996, quando o Congresso Nacional instituiu 20% de cotas – e um ano depois alterou para 30% – nas chapas proporcionais. Muitos partidos reclamaram e até hoje não se conformam: no ano passado, por exemplo, o PSC entrou com uma ação contra a lei federal. Além disso, há quem cumpra a cota pro forma, ou seja, não investe na formação de mulheres para que estas se tornem quadros políticos e possam, de fato, disputar eleições. Nomeia sem qualquer critério as suas candidatas, apenas para não ter problemas com a Justiça.

Se vingar, a proposta do Ministério do Trabalho francês pode ser um bom exemplo para aplicarmos aqui, a começar pelas companhias estatais, que devem ser um modelo. Sim, é uma medida que força, que impõe uma eqüidade não existente na prática. Sim, no Brasil nem mesmo as cotas eleitorais são levadas a sério. Mas se esperarmos que, por livre e espontânea vontade, o mundo solucione todas as diferenças, pode demorar tempo demais para que todos nós tenhamos uma vida justa. E isso simplesmente é injusto.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h58
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Uganda proibirá mutilação da genitália feminina

 

De acordo com o dicionário Aurélio, o verbo “mutilar” quer dizer “privar [alguém ou a si mesmo] de algum membro ou de alguma parte do corpo”.  Mas a depender do lugar e da cultura, essa palavra pode adquirir muitos outros significados. No caso das mulheres que têm a genitália arrancada, por exemplo, é sinônimo de um sofrimento inominável. Trata-se de uma sentença a uma vida inteira sem qualquer sensibilidade, com o corpo deformado e sem prazer.

 

Muito criticada pelo Ocidente, a prática permanece viva em alguns rincões do planeta, principalmente na África. “Não mais em Uganda”, anunciou o presidente Yoweri Museveni. Ele informou hoje à imprensa que o Parlamento do país aprovará, em breve, uma lei que proíbe a mutilação da genitália feminina.

 

“Vocês interferem na obra de Deus. Alguns dizem que é cultura. Sim, apóio a cultura, mas vocês devem apoiar uma cultura que seja útil e baseada em informação científica”, declarou Museveni, referindo-se às tribos que vêem nesse ato um ritual imprescindível. Conforme noticiaram agências internacionais, o presidente também lembrou que a Organização das Nações Unidas aprovou no ano passado uma resolução determinando que essa prática viola os direitos das mulheres e aumenta o risco de contrair HIV, assim como as taxas de mortalidade materna e infantil.

 

Recentemente li a biografia da ex-deputada naturalizada holandesa Ayaan Hirsi Ali, Infiel. Nascida e criada na Somália, a autora teve seu clitóris mutilado ainda jovem, por ordem da avó materna. A narrativa que ela faz da cena é uma das descrições mais impressionantes e chocantes que já vi. Do corte inicial sem qualquer anestesia até a primeira vez que ela urina após o procedimento, fiquei atenta, apreensiva, com os olhos cheios de lágrimas.

 

Não há qualquer poesia ou romantismo nisso. É a realidade mais dura, colocada diante do leitor a sangue frio. Uma violência que, segundo dados da ONU, já afetou em 100 milhões e 140 milhões de mulheres em todo o mundo. Espero que Uganda consiga de fato discutir a diferença entre cultura e mutilação e que ecoe isso para os quatro cantos do planeta.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 21h44
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Pinotti se foi. E agora, José?

Faleceu na madrugada de ontem o médico e deputado federal licenciado José Aristodemo Pinotti (DEM). Com longa trajetória política, no final do ano passado ele fora nomeado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), para comandar a recém criada Secretaria Especial da Mulher, cargo que ocupava até agora.

Desde o início, a escolha do deputado foi contestada pelos movimentos de mulheres. Não porque não o reconheciam como alguém preocupado com as questões relacionadas à pasta ou por desconsiderarem a importância desta iniciativa – na verdade, tratava-se de uma reivindicação antiga. Mas pelo simples espanto de que num país com a maioria da população feminina, o prefeito de São Paulo só conseguira pensar num homem para dirigir a Secretaria.

O debate feito então era quase óbvio: uma mulher seria mais sensível aos assuntos e demandas deste cargo por uma condição inerente à sua existência – a de ser mulher. À época, concordei com a argumentação. Não parto do princípio de que um homem não saberia como administrar um desafio desse porte, mas para mim é evidente que uma mulher teria outra abordagem de assuntos como aborto, violência e opressão pelo simples fato de já ter experimentado esse tipo de situação.

Agora, para a minha surpresa, percebo que o tão criticado Pinotti era o único motivo de a Secretaria existir. Para usar uma figura de linguagem cruel, Kassab nem deixou o cadáver esfriar para anunciar que a pasta seria incorporada à Secretaria da Saúde.

Que pena que a iniciativa tenha durado tão pouco tempo.  Com ou sem Pinotti, num governo do DEM ou de qualquer outro, a existência de uma Secretaria da Mulher por si só é um instrumento importantíssimo para combater a desigualdade e aplicar políticas públicas que busquem alterar a condição da mulher. No mínimo é um reconhecimento da necessidade de se olhar especificamente para essa questão.

Claro, eu posso discordar do direcionamento dado à pasta – e à administração municipal como um todo –, mas debater os rumos de uma Secretaria já é um passo muito além do que lutar por sua criação. Agora lá vamos nós, partir do zero.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h10
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Um strip na noite paulistana

 

São quase três horas da manhã. O galpão cheio de gente é um dos lugares mais movimentados da Barra Funda. As músicas variam entre rock e techno, muitas vezes misturando os dois (ando meio por fora, não sei bem qual é a classificação desse estilo). Todos parecem divertir-se em meio à fumaça e ao cheiro quase sufocante de cigarro. A luz, claro, é pouca. A DJ residente se empolga, faz coreografias com as mãos que acompanham o ritmo das batidas. Homens e mulheres dançam em pequenos círculos. Alguns cruzam a pista em direção ao bar.

 

De repente, tudo pára. O palco fica iluminado e o som mais lento, com alguns toques de jazz. Uma mulher trajando uma lingerie preta transparente aparece, rebolando e sorrindo. A maioria das pessoas fica com um olhar de espanto. Não esperavam pela performance. Peça por peça, ela tira as suas poucas vestimentas. Luvas, meia-calça, sutiã. Todos vão ao chão. Uma garota assobia, dá um gritinho. Demonstra gostar – ou pelo menos, quer se mostrar desprendida de qualquer pudor.

 

Ao final deste primeiro e único ato, ninguém se importa muito com a moça. A verdade é que a cena não se encaixa com o lugar. Ela não pede dinheiro nem fala nada. Agradece com a cabeça alguns poucos aplausos e se retira. Minutos depois, passa pela multidão, com um ar de mistério. Havia mostrado seus seios, pernas e barriga por menos de cinco minutos. Alguém diz que ela costuma fazer isso nos bares da região. Um modo de ganhar a vida. Quem sabe uma forma de se promover.

 

O amigo que me convidou para ir àquela festa veio logo me pedir desculpas. Sabe como eu me sinto em relação à exposição do corpo feminino em casos como esse, ou seja, em que o striptease é um tipo de emprego. Disse que só descobriu que haveria esse tipo de show quando chegou lá e viu um cartaz com a foto da mulher. Lamentei um pouco, depois me calei. Fiquei sem entender ao certo o que acabara de presenciar.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 00h55
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Au revoir, burcas?

 

Cinco anos após a proibição da burca – e de qualquer outro símbolo religioso – nas escolas do Estado, a França discute agora a legitimidade de seu uso em lugares públicos. O tema, claro, é espinhoso e tem provocado debates acalorados entre organizações feministas e líderes muçulmanos.

 

As francesas afirmam que o traje, que deixa apenas os olhos à mostra e ainda assim cobertos por uma espécie de redinha, é um instrumento de opressão das mulheres, que não podem vivenciar seu corpo da forma como bem entendem. Para mim, ocidental, de fato é muito difícil discordar desse ponto de vista. Quando estive na Jordânia, fui obrigada a colocar uma roupa preta dos pés à cabeça para visitar a maior mesquita de Amã e não gostei da sensação de subjugação que experimentei.

 

Mas nem por isso concordo com a forma como a questão está sendo conduzida. O argumento francês para tal medida é a laicidade do Estado, “um princípio jurídico aplicado com empirismo”, como eles gostam de dizer. E é aí que reside a chave desse problema.

 

Nas últimas décadas a França tem recebido ondas freqüentes de imigração e cada vez mais os subúrbios de Paris estão lotados de senegaleses, marroquinos, bolivianos, mexicanos, tailandeses etc. Ao longo dos anos, isso alterou a identidade do país, misturando a cultura francesa com outras referências. Contudo, para quem ainda acredita ser detentora de valores universais inquestionáveis, este não é um processo fácil de aceitar: até hoje, a França busca uma unidade nacional que pressupõe a aceitação generalizada da sua visão de mundo e confunde as crenças do indivíduo com o coletivo e o Estado.

 

E é esse comportamento que se reflete no caso analisado. Ao impor a proibição da veste muçulmana, o país joga para o âmbito do privado a suposta opressão das mulheres islâmicas. Afinal, se elas não são mais vistas com as burcas nas ruas, isso não quer dizer que a questão está resolvida. Não duvido que essas mulheres acabem ficando em casa porque não podem mais caminhar livremente com sua vestimenta, seja ela uma opção ou não. Pior: e se a comunidade muçulmana decide rechaçar aquelas que seguirem a nova lei, o Estado francês irá intervir aí também? Provavelmente não.

 

Aproveitando que a proposta ainda está sob análise do Parlamento, este seria um bom momento para discutir a inclusão, pela positiva, e não com um discurso que aponta os desvios da cultura ocidental, das mulheres muçulmanas na França. Afinal, como debater igualdade se não as tratarem como iguais, aceitando o que as diferencia dos franceses? Ao menos para mim, só conseguiremos questionar, junto com elas, se o véu é uma forma de opressão quando admitirmos que ele é também uma marca de diferenciação e uma identidade – assim como os punks, os Hare Krishna etc. Caso contrário, o Ocidente causará o mesmo efeito que, acreditamos, a burca cause: simplesmente forçará um hábito.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 09h55
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




África do Sul: 25% de estupradores

 

Um em cada quatro homens já cometeu estupro na África do Sul. A maioria deles – 73% – antes de completar 20 anos. A pesquisa é da Medical Resarch Foundation e foi divulgada essa semana. Mais da metade dos entrevistados admitiu também ter praticado a violência sexual mais de uma vez.

 

Rachel Jewkes, responsável pela enquete, disse à rede britânica BBC que o resultado já era esperado. “Nós sabemos que temos uma taxa maior de estupros na África do Sul do que em outros países”. Segundo ela, parte disso é responsabilidade da cultura local: durante séculos, os homens sul-africanos têm convivido socialmente com formas de masculinidade que privilegiam a idéia da força bruta, que seria usada tanto para controlar as mulheres como para dominar outros homens. (Nada muito diferente do resto do mundo, se pensarmos bem)

 

De acordo com o jornal The Guardian, o estudo revelou ainda que os homens que estupram mulheres geralmente não usam preservativos e têm o dobro de chance de serem HIV positivos. Essa última parte com o apoio do papa Bento XVI, claro.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 23h24
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




E lá se foi o diploma de jornalista

Quando entrei na faculdade li um livro chamado A regra do jogo, do jornalista Claudio Abramo. Trata-se de uma coletânea de artigos e colunas publicados por ele ao longo da carreira. Em um dos textos, Abramo dizia que a ética do jornalista era a ética do carpinteiro. Concordei logo de cara: de fato, ética é algo que nenhum curso superior pode imputar em alguém.  

Mas, então, o que a faculdade de Jornalismo poderia ensinar? Bem, a vivência universitária, seja lá qual for, é uma experiência extraordinária. Disso eu não tenho dúvida. Aprendi muito e todo esse conhecimento quiçá me faz uma jornalista melhor, ou no mínimo mais bem preparada. Contudo, muitas das técnicas ensinadas lá também podem ser conhecidas na prática.

E, quando me dei conta disso, passei a questionar a validade do diploma para o exercício da profissão. Não que eu ache a faculdade um desperdício, pelo contrário. Mas essa etapa pode não ser necessária para todos. Tanto que na minha não muito longa carreira, parte dos chefes que já tive aprendeu o jornalismo no calor das redações, ainda antes do golpe militar, sem um curso superior para legitimar sua autoridade no cargo exercido. Isso sem falar nos comunicadores populares que encontrei Brasil afora.

Contudo, ainda assim me sinto na obrigação de comentar o quanto achei lamentável a votação do Supremo Tribunal Federal ontem. Os argumentos do ministro Gilmar Mendes conseguiram arrepiar todos os pêlos dos meus dois braços. A frase que mais me chocou foi a seguinte: “A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade tais como medicina, engenharia, advocacia – nesse sentido por não implicar tais riscos não poderia exigir um diploma para exercer a profissão”.  O jornalismo não provoca danos à coletividade? Em que mundo não globalizado e não informatizado o ministro vive? Ele se esqueceu que mais de 90% dos lares brasileiros têm pelo menos uma televisão?

Ser contrário a obrigatoriedade do diploma por entender que a profissão de jornalista passa por outros parâmetros e regulamentações é uma coisa. Mas desqualificar o trabalho dizendo que ele não influencia a sociedade é uma argumentação simplória, quase ridícula de tão longínqua da realidade. É uma pena. O STF perdeu a oportunidade de debater com seriedade uma questão central na sociedade contemporânea.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h40
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Mulher gosta de apanhar?

Na Argélia, 2 entre 3 mulheres aceitam que os maridos as violentem. A conclusão é de uma enquete nacional realizada pelo governo do país entre o período 2006-2009 e divulgada na semana passada.

Entre as razões consideradas normais para apanhar estão sair de casa sem avisar ao cônjuge, ser negligente com os filhos, contestar o marido, não cumprir as obrigações sexuais e – essa é a minha favorita – queimar a comida!

A violência doméstica é menos questionada no campo, onde 74,6% consideram-na justa, contra 62,7% das mulheres na zona urbana. Entre os pobres o índice também cresce, chegando a 79,6% de aceitação.

O nível de instrução formal é outro fator que muda a percepção sobre o tema: quanto maior a escolarização, menor é a tolerância com os abusos. Segundo o governo, isso explicaria porque 85,7% das mulheres que nunca freqüentaram a escola aceitam a violência doméstica por pelo menos um dos motivos citados no início do texto. Entre as que têm formação universitária, a proporção cai para ainda altos 40,5%.

Contudo, a pesquisa ressalva que a maioria das mulheres que responderam ao questionário estava casada e que os resultados se alteraram quando se tratava de solteiras, divorciadas ou viúvas.

Quiçá, imagino eu, as comprometidas não estavam sozinhas quando participaram da enquete. Afinal, se elas não podem ir até o mercado sem avisar, imagine falar com o governo. Me pergunto qual seria o resultado real se elas dissessem o que pensam de verdade, sem pressões sociais e, principalmente, familiares. Eu duvido, do fundo da minha alma, que qualquer um minimamente equilibrado goste de apanhar.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 10h23
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Campanha adote uma criança do Malaui

 

A adoção de crianças vindas de países subdesenvolvidos por celebridades hollywoodianas não é exatamente uma novidade. O casal “Brangelina” (Brad Pitt e Angelina Jolie) talvez seja o exemplo mais conhecido e é seguido de perto pela cantora Madonna, que acaba de receber autorização da Suprema Corte do Malaui para aumentar sua prole.

 

Em geral, os processos são polêmicos, com muita discussão sobre o direito de estrangeiros famosos tornarem-se pais de uma criança de determinado país sem residir nele.

 

O que surpreendentemente passa desapercebido, sem muito debate, é a situação em que essas crianças se encontram. No Malaui, por exemplo, a cada uma hora uma mulher morre dando à luz, segundo estatística divulgada pela CNN. O país é um dos mais pobres do mundo, com cerca de 80% da população vivendo de forma miserável e tem na AIDS uma das principais causas de óbito. Aliás, calcula-se que o vírus já deixou orfã mais de um milhão de crianças no sul da África.

 

Se o gesto de uma ou outra atriz é significativo, é também uma ação isolada, que não modifica – e nem pretende modificar – realidades locais. Que Mercy James, a menina de 4 anos agora nos braços de Madonna, pode ter uma vida melhor, com assistência médica, escola, acesso a bens culturais etc, ninguém duvida. Mas e todas as outras crianças que ficaram lá? Vão depender da boa vontade de alguma celebridade? Ainda que exista muita gente muito rica morando em Hollywood, algo me diz que não vai ser suficiente para salvar o Malaui da miséria...



Escrito por Maíra Kubík Mano às 10h46
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Do século XVIII até Lady Di, a dimensão histórica das mudanças

Se alguém quer ter uma idéia da vida de uma mulher na Europa do século XVIII, o filme “A Duquesa”, que acaba de chegar às locadoras, pode ser muito ilustrativo. A produção, vencedora de um Oscar esse ano, conta a história real da Duquesa de Devonshire, Georgiana Cavendish, que viveu entre 1757 e 1806 e foi uma das figuras mais destacadas da sociedade inglesa da época.

 

Trata-se, obviamente, de um recorte bastante específico. Ainda assim, me contorci no sofá do começo ao fim, revoltada com as situações vividas pela protagonista. (Atenção: se você pretende assistir ao filme sem ter mais informações, pare de ler esse post por aqui)

 

Influente na política num período em que as mulheres não podiam se candidatar a um cargo eletivo e nem sequer votar, a Duquesa de Devonshire fazia discursos pelo fim da escravidão nas tribunas do Partido Liberal.

 

Em sua vida particular, porém, ela não obteve muitos avanços. Pelo contrário: teve um casamento arranjado e diversos filhos, até cumprir a obrigatoriedade contratual de gerar um herdeiro homem; sofreu com as traições do marido e foi estuprada por ele; tentou se separar e sua família a impediu, chantageando-a com sua prole.

 

O filme, uma produção inglesa, foi bastante comentado quando chegou aos cinemas da Grã-Bretanha. Aparentemente, o público identificou na Duquesa de Devonshire uma antecessora da Princesa Diana, tanto pelo sobrenome de solteira, Spencer, que indicaria uma ligação familiar direta entre as duas, quanto pela personalidade forte e as pressões sociais sofridas. Um dos traillers de divulgação da obra não deixa dúvidas:

 

 

 

 

Os comentários e as comparações chegaram a tal ponto que membros da família real tiveram que assisti-lo e, em seguida, declarar que gostaram muito da produção, considerada por eles uma história “única”.

 

Narrar a trajetória de mulheres fortes, que lutaram contra a opressão, rende bons roteiros. Mas colocá-las em sua devida dimensão histórica pode ser quase deprimente: até o final, a Duquesa de Devonshire conviveu com o autoritarismo e a infidelidade do marido. Demoraria mais centenas de anos para que a sociedade aceitasse com mais naturalidade questões como divórcio e compartilhamento da guarda dos filhos. Sem querer cair em clichês, mas me rendendo a eles, depois de assistir ao filme fiquei com aquela sensação de que somos, de fato, só mais uma gota no oceano.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h06
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




PM na USP: lembranças da ditadura militar

Uma intervenção de um porte que não ocorria desde os tempos da ditadura militar. É exatamente a isso que estamos assistindo na Universidade de São Paulo (USP), embora a maioria dos sites de notícia tenha reportado como “confusão” o que ocorreu hoje à tarde.

Ao solicitar que a tropa de choque removesse os estudantes, funcionários e professores que faziam um piquete na universidade, a reitora Suely Vilela, com o apoio do governo do Estado, passou por cima de um dos preceitos mais óbvios da suposta democracia em que vivemos: o direito de protestar.

Em greve, os três setores da USP exigiam, entre outras questões, o fim de processos administrativos contra servidores e alunos que participaram de paralisações anteriores. Bem, resolver esse tipo de demanda por meio da polícia militar já é uma resposta bem clara de uma instituição que, sob o meu ponto de vista, deveria pregar outros tipos de valores e mediações sociais.

Escrevo esse post assistindo, atônita, às imagens capturadas pela televisão. Bombas de efeito moral, balas de borracha, escudos e cacetes. Fui informada por uma manifestante sobre a prisão algumas pessoas, entre estudantes e funcionários. Neste momento, segundo ela, os alunos estão cercados na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, tentando conversar e resolver a situação.

Cadeia para quem quer uma universidade melhor, mais plural, aberta e democrática. Não tem alguma coisa errada aí?



Escrito por Maíra Kubík Mano às 18h29
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Vergonha alheia pelo Senado brasileiro

 

Vergonha alheia é aquele sentimento que você nutre por alguém que passa por uma situação embaraçosa, causada pela própria pessoa. Foi essa a minha percepção ao ouvir as declarações do senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR) sobre a (não) preservação da floresta amazônica.

 

Isso, claro, misturado com uma pontinha de ódio. Afinal, eu não sou de ferro e tampouco nobre a ponto de só ter pena de um senhor que pensa que as árvores não fazem parte do ambiente em que vivemos e que perder alguns animais no caminho do desenvolvimento não vai fazer muita diferença no ecossistema.

 

 

Reproduzo abaixo um ótimo post do Blog do Sakamoto sobre o assunto:

 

O Congresso Nacional aprovou a medida provisória 458, que trata da regularização fundiária na Amazônia. Regularizar é importante para que haja controle sobre a região, responsabilizando quem devasta a terra e explora sua gente. Contudo, a MP 458 não vai fazer isso. Se Lula não usar seu poder de veto sobre o texto, a nova lei vai ser instrumento de premiação de grandes grileiros na região, pessoas e empresas, que poderão explorar e comercializar terras sob a proteção do Estado. A proposta que começou na Presidência da República passou pelo Congresso Nacional, sendo defendido de forma magistral por expoentes da bancada ruralista.

É triste e, ao mesmo tempo, paradigmática, a forma através da qual a bancada tem usado argumentos bizarros para separar algo indivisível, como a proteção do meio ambiente e a qualidade de vida da população, colocando em lados opostos o desenvolvimento e a sustentabilidade. Como imagino que deputados e senadores não sejam burros, eles devem saber que é impossível o ser humano existir sem o meio em que ele está inserido. Em outras palavras, se este meio virar vinagre por conta da ação humana, o homem vai junto para o buraco. Ou seja, o destino de árvores e micos estão diretamente relacionados aos de agricultores e pecuaristas.

A humanidade enfrenta a pior crise ambiental de sua história, sob risco de entrar em colapso com o esgotamento e a degradação dos recursos naturais. Os países da periferia levam a culpa pelo desequilíbrio ecológico mundial e são criticados pelo modelo de desenvolvimento que adotam, agressivo ao meio ambiente. O julgamento parte das nações ricas, as quais, por mais de dois séculos, destruíram seus patrimônios naturais e continuam poluindo. As elites dos países periféricos clamam, por sua vez, pelo direito de também poluir, expulsar, destruir, eliminar, converter, empacotar e vender (matando e escravizando, se necessário), a fim de poder alcançar o nível de consumo das sociedades desenvolvidas.

Em meio a essa discussão, o quadro não poderia ser pior. Dentro de duas décadas, não haverá água potável suficiente para suprir as necessidades de dois terços da população mundial - regiões metropolitanas, como a Grande São Paulo, já vivem uma crise de abastecimento. O efeito estufa está aumentando a temperatura global e provocando mudanças climáticas, enquanto a desertificação de áreas cultiváveis compromete a produção de alimentos. Uma nuvem de poluição paira sobre o Sudeste Asiático, levando crianças e idosos aos hospitais diariamente. Santa Catarina desmoronou nas chuvas por conta da irresponsabilidade do Estado, que deixou que matas de proteção fossem retiradas. Demorou, mas o planeta já dá o troco.

O debate sobre o meio ambiente emerge no século 21 como uma discussão sobre a qualidade de vida - não tratando apenas de árvores cortadas, rios poluídos e derramamento de petróleo, mas também da atual idéia de progresso que não está conseguindo dar respostas satisfatórias à sociedade. E nega a todos um futuro.

Tendo isso em vista, vamos pegar um exemplo de como a bancada ruralista ataca quem fala de proteção ao meio ambiente.

O nosso Senado está repleto de pensadores que fariam os maiores filósofos da história da humanidade tremer diante de tanta profundidade. Um deles, que usa seus dons para defender o rolo compressor sobre a Amazônia, é Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR):

“Árvore é um ser vivo, nasce, cresce e morre. Se nós não derrubarmos mais nenhuma, as árvores importantes vão morrer, apodrecer, criar cupim.”

A Câmara dos Deputados também adota a retórica política de alto nível ao discutir meio ambiente. Um exemplo é o deputado federal Luciano Pizzatto (DEM-PR) que mostrou, em um debate, como a motosserra equilibra as forças do universo:

“O que os defensores do meio ambiente devem entender, é que o universo é violento e destrutivo. Portanto preservar o meio ambiente deve considerar isso, porque senão poderá às vezes nos prejudicar. Ao derrubar uma árvore, estamos na verdade dando o direito de outra nascer.”

Sei que alguns parlamentares já receberam o prêmio de Inimigos da Amazônia. Mas não poderia deixar de dar o bem-humorado Troféu Frango, criado por este blog para premiar bizarrices em geral, a quem defende o butim em curso contra a legislação ambiental. Troféu Frango que volta reformulado.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h21
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Apagando Brigitte Bardot

Ontem fui à abertura da exposição sobre o Serge Gainsbourg no SESC Paulista, aqui em São Paulo. Apesar da obra fantástica desse poeta-músico-compositor (aliás, recomendo fortemente uma visita ao acervo exposto lá), o que mais me chamou a atenção foi Brigitte Bardot.

Talvez seja a sensação de passagem do tempo, ou pior, de tempo perdido, que estou experimentando essa semana, mas lamentei a juventude de Brigitte.

“Como era bonita, como era perfeita, como era francesa”, pensei. Em todas as imagens daquela que foi um dos ícones do tempo de Gainsbourg – e que até gravou algumas das composições dele –, um rosto, um corpo e um charme irreparáveis.

E Brigitte hoje? Bem, tudo isso parece uma lembrança muito vaga entre rugas e um sorriso amarelado. Por que elevamos nossos ídolos às nuvens se depois não conseguimos aterrissá-los no chão? Por que eles não podem envelhecer, como nós?

Imagino que isso tenha alguma relação com a fetichização da mulher, com o ideal de beleza fresco e estanque, imutável (cansei de ouvir amigos dizendo que apenas os homens envelhecem bem, que tornam-se melhores com o passar dos anos). Acho que a verdade, se é que existe uma, é que não enxergamos além desses padrões que nós mesmos definimos.

E permitimos que uma luz antes brilhante, como Brigitte, se apague lentamente, ridicularizada nas páginas de jornais por defender os animais e manter seu cabelo naturalmente branco.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 10h28
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Uma Wikipédia das mulheres

 

Precisei ir até a França para ouvir falar de uma iniciativa pouco divulgada por aqui: a WikiGender, um braço da Wikipédia que trata apenas de questões de gênero. Infelizmente, o site ainda não tem versão em português, ainda que cite termos como “machismo” em artigos em inglês.

 

Entre os vocábulos mais visitados estão a mutilação da genitália feminina, violência doméstica e casamentos arranjados. A igualdade de gênero (ou sua ausência) em diversos países como Arábia Saudita, Índia, China e França parece também atrair visitantes.

 

A seção de estatísticas reúne dados interessantes, separados por áreas como participação política. Neste campo, há uma tabela com a porcentagem de mulheres no parlamento ou em ministérios em dezenas de países, assim como a data em que conquistaram o direito ao voto.

 

Quando estive em Paris nessa semana pude assistir a uma palestra do ex-presidente da associação Wikimedia da França, Pierre Beaudouin. Segundo ele, há várias Wikipédias específicas, como a de gênero, que pessoas ou organizações fundam com o objetivo de complementar a iniciativa original, mantendo os mesmos princípios de colaboração aberta.

 

Não sou daqueles que condenam a priori a Wikipédia por achar que não se trata de uma fonte confiável de informações. Pelo contrário, acho a idéia impressionante, talvez uma experiêcia libertadora, e fiquei mais do que satisfeita em encontrar a WikiGender vagando por aí.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h59
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Para Anistia Internacional, mulheres brasileiras continuam sofrendo violências e abusos

 

França – Estou em Paris, mas o assunto desse post é o Brasil. Em seu relatório de direitos humanos divulgado hoje, a Anistia Internacional traz novos dados sobre a violência contra as mulheres no país. O estudo concluiu que “as mulheres continuaram a passar por violências e abusos”.

 

A situação nos morros e subúrbios cariocas foi um dos focos do trabalho. Segundo a Anistia Internacional, “mulheres que vivem nas comunidades dominadas por gangues ou por milícias tiveram de enfrentar esses abusos com poucas chances de qualquer reparação”.

 

O relatório cita um exemplo retirado de estudo sobre as milícias realizado pelo Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LAV/UERJ), que descreveu o tratamento recebido por uma mulher acusada de infidelidade em Bangu, uma comunidade dominada por milícias: “ela foi despida em frente a sua casa, teve a cabeça raspada e foi forçada a andar nua pela favela”.

 

Outro dado significativo é o crescimento do número de mulheres em prisões: nos últimos oito anos, a população carcerária feminina aumentou 77%, de acordo com o Depen (Departamento Penitenciário Nacional). “E as mulheres detentas continuaram a enfrentar maus-tratos, superlotação, serviços inadequados durante o parto e falta de condições para cuidar das crianças”, aponta a Anistia Internacional.

 

Apesar de importante, o estudo está longe de ser animador. Trata-se de um diagnóstico nu e cru da sociedade brasileira, onde a cada 15 segundos uma mulher sofre algum tipo de violência.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 05h06
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]




Maíra Kubík Mano
é jornalista. Mestranda em Ciência Política na PUC - SP, estuda a relação entre
a mídia e as mulheres. Foi editora-assistente da revista História Viva e já colaborou com diversas publicações. Atualmente é editora-assistente do jornal Le Monde Diplomatique Brasil


E agora no Twitter...
me acompanhe no Twitter

Viva Mulher é um dos blogs legais
convidados do UOL

XML/RSS Feed
O que é isto?

Histórico

Outros sites
  Blog do Sakamoto
  Controvérsia
  O caderno de Saramago
  Blog do IZB
Votação
  Dê uma nota para meu blog