Um strip na noite paulistana

 

São quase três horas da manhã. O galpão cheio de gente é um dos lugares mais movimentados da Barra Funda. As músicas variam entre rock e techno, muitas vezes misturando os dois (ando meio por fora, não sei bem qual é a classificação desse estilo). Todos parecem divertir-se em meio à fumaça e ao cheiro quase sufocante de cigarro. A luz, claro, é pouca. A DJ residente se empolga, faz coreografias com as mãos que acompanham o ritmo das batidas. Homens e mulheres dançam em pequenos círculos. Alguns cruzam a pista em direção ao bar.

 

De repente, tudo pára. O palco fica iluminado e o som mais lento, com alguns toques de jazz. Uma mulher trajando uma lingerie preta transparente aparece, rebolando e sorrindo. A maioria das pessoas fica com um olhar de espanto. Não esperavam pela performance. Peça por peça, ela tira as suas poucas vestimentas. Luvas, meia-calça, sutiã. Todos vão ao chão. Uma garota assobia, dá um gritinho. Demonstra gostar – ou pelo menos, quer se mostrar desprendida de qualquer pudor.

 

Ao final deste primeiro e único ato, ninguém se importa muito com a moça. A verdade é que a cena não se encaixa com o lugar. Ela não pede dinheiro nem fala nada. Agradece com a cabeça alguns poucos aplausos e se retira. Minutos depois, passa pela multidão, com um ar de mistério. Havia mostrado seus seios, pernas e barriga por menos de cinco minutos. Alguém diz que ela costuma fazer isso nos bares da região. Um modo de ganhar a vida. Quem sabe uma forma de se promover.

 

O amigo que me convidou para ir àquela festa veio logo me pedir desculpas. Sabe como eu me sinto em relação à exposição do corpo feminino em casos como esse, ou seja, em que o striptease é um tipo de emprego. Disse que só descobriu que haveria esse tipo de show quando chegou lá e viu um cartaz com a foto da mulher. Lamentei um pouco, depois me calei. Fiquei sem entender ao certo o que acabara de presenciar.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 00h55
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Au revoir, burcas?

 

Cinco anos após a proibição da burca – e de qualquer outro símbolo religioso – nas escolas do Estado, a França discute agora a legitimidade de seu uso em lugares públicos. O tema, claro, é espinhoso e tem provocado debates acalorados entre organizações feministas e líderes muçulmanos.

 

As francesas afirmam que o traje, que deixa apenas os olhos à mostra e ainda assim cobertos por uma espécie de redinha, é um instrumento de opressão das mulheres, que não podem vivenciar seu corpo da forma como bem entendem. Para mim, ocidental, de fato é muito difícil discordar desse ponto de vista. Quando estive na Jordânia, fui obrigada a colocar uma roupa preta dos pés à cabeça para visitar a maior mesquita de Amã e não gostei da sensação de subjugação que experimentei.

 

Mas nem por isso concordo com a forma como a questão está sendo conduzida. O argumento francês para tal medida é a laicidade do Estado, “um princípio jurídico aplicado com empirismo”, como eles gostam de dizer. E é aí que reside a chave desse problema.

 

Nas últimas décadas a França tem recebido ondas freqüentes de imigração e cada vez mais os subúrbios de Paris estão lotados de senegaleses, marroquinos, bolivianos, mexicanos, tailandeses etc. Ao longo dos anos, isso alterou a identidade do país, misturando a cultura francesa com outras referências. Contudo, para quem ainda acredita ser detentora de valores universais inquestionáveis, este não é um processo fácil de aceitar: até hoje, a França busca uma unidade nacional que pressupõe a aceitação generalizada da sua visão de mundo e confunde as crenças do indivíduo com o coletivo e o Estado.

 

E é esse comportamento que se reflete no caso analisado. Ao impor a proibição da veste muçulmana, o país joga para o âmbito do privado a suposta opressão das mulheres islâmicas. Afinal, se elas não são mais vistas com as burcas nas ruas, isso não quer dizer que a questão está resolvida. Não duvido que essas mulheres acabem ficando em casa porque não podem mais caminhar livremente com sua vestimenta, seja ela uma opção ou não. Pior: e se a comunidade muçulmana decide rechaçar aquelas que seguirem a nova lei, o Estado francês irá intervir aí também? Provavelmente não.

 

Aproveitando que a proposta ainda está sob análise do Parlamento, este seria um bom momento para discutir a inclusão, pela positiva, e não com um discurso que aponta os desvios da cultura ocidental, das mulheres muçulmanas na França. Afinal, como debater igualdade se não as tratarem como iguais, aceitando o que as diferencia dos franceses? Ao menos para mim, só conseguiremos questionar, junto com elas, se o véu é uma forma de opressão quando admitirmos que ele é também uma marca de diferenciação e uma identidade – assim como os punks, os Hare Krishna etc. Caso contrário, o Ocidente causará o mesmo efeito que, acreditamos, a burca cause: simplesmente forçará um hábito.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 09h55
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África do Sul: 25% de estupradores

 

Um em cada quatro homens já cometeu estupro na África do Sul. A maioria deles – 73% – antes de completar 20 anos. A pesquisa é da Medical Resarch Foundation e foi divulgada essa semana. Mais da metade dos entrevistados admitiu também ter praticado a violência sexual mais de uma vez.

 

Rachel Jewkes, responsável pela enquete, disse à rede britânica BBC que o resultado já era esperado. “Nós sabemos que temos uma taxa maior de estupros na África do Sul do que em outros países”. Segundo ela, parte disso é responsabilidade da cultura local: durante séculos, os homens sul-africanos têm convivido socialmente com formas de masculinidade que privilegiam a idéia da força bruta, que seria usada tanto para controlar as mulheres como para dominar outros homens. (Nada muito diferente do resto do mundo, se pensarmos bem)

 

De acordo com o jornal The Guardian, o estudo revelou ainda que os homens que estupram mulheres geralmente não usam preservativos e têm o dobro de chance de serem HIV positivos. Essa última parte com o apoio do papa Bento XVI, claro.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 23h24
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E lá se foi o diploma de jornalista

Quando entrei na faculdade li um livro chamado A regra do jogo, do jornalista Claudio Abramo. Trata-se de uma coletânea de artigos e colunas publicados por ele ao longo da carreira. Em um dos textos, Abramo dizia que a ética do jornalista era a ética do carpinteiro. Concordei logo de cara: de fato, ética é algo que nenhum curso superior pode imputar em alguém.  

Mas, então, o que a faculdade de Jornalismo poderia ensinar? Bem, a vivência universitária, seja lá qual for, é uma experiência extraordinária. Disso eu não tenho dúvida. Aprendi muito e todo esse conhecimento quiçá me faz uma jornalista melhor, ou no mínimo mais bem preparada. Contudo, muitas das técnicas ensinadas lá também podem ser conhecidas na prática.

E, quando me dei conta disso, passei a questionar a validade do diploma para o exercício da profissão. Não que eu ache a faculdade um desperdício, pelo contrário. Mas essa etapa pode não ser necessária para todos. Tanto que na minha não muito longa carreira, parte dos chefes que já tive aprendeu o jornalismo no calor das redações, ainda antes do golpe militar, sem um curso superior para legitimar sua autoridade no cargo exercido. Isso sem falar nos comunicadores populares que encontrei Brasil afora.

Contudo, ainda assim me sinto na obrigação de comentar o quanto achei lamentável a votação do Supremo Tribunal Federal ontem. Os argumentos do ministro Gilmar Mendes conseguiram arrepiar todos os pêlos dos meus dois braços. A frase que mais me chocou foi a seguinte: “A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade tais como medicina, engenharia, advocacia – nesse sentido por não implicar tais riscos não poderia exigir um diploma para exercer a profissão”.  O jornalismo não provoca danos à coletividade? Em que mundo não globalizado e não informatizado o ministro vive? Ele se esqueceu que mais de 90% dos lares brasileiros têm pelo menos uma televisão?

Ser contrário a obrigatoriedade do diploma por entender que a profissão de jornalista passa por outros parâmetros e regulamentações é uma coisa. Mas desqualificar o trabalho dizendo que ele não influencia a sociedade é uma argumentação simplória, quase ridícula de tão longínqua da realidade. É uma pena. O STF perdeu a oportunidade de debater com seriedade uma questão central na sociedade contemporânea.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h40
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Maíra Kubík Mano é jornalista. Mestranda em Ciência Política na PUC-SP, estuda a relação entre a mídia e as mulheres. Foi editora-assistente da revista História Viva e já colaborou com diversas publicações. É editora de Le Monde Diplomatique Brasil

 

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