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Todas as cartas de amor são ridículas O poeta português Fernando Pessoa disse certa vez, por meio de seu heterônimo Álvaro de Campos, que todas as cartas de amor eram ridículas. Já o psiquiatra brasileiro Roberto Freire foi incisivo no título de um de seus livros: “Ame e dê vexame”. Não sei se a artista francesa Sophie Calle já ouviu falar em algum dos dois, mas me lembrei muito deles ao participar da abertura da exposição “Cuide de você”, em São Paulo, na última sexta-feira. O mote da mostra é uma carta de rompimento, via email, que Calle recebeu de seu então namorado, o escritor Grégoire Bouillier. Sem saber ao certo como responder, ela enviou o correio eletrônico para 107 mulheres, cada qual com sua particularidade. Assim, as palavras de Monsieur Bouillier foram lidas, interpretadas, chacoteadas e, em alguns casos, respondidas, por uma advogada, uma psicóloga, uma historiadora, uma curadora, uma revisora, uma enxadrista, uma detenta, uma jornalista, uma professora, uma diplomata e até mesmo uma cartomante. De erros de conjugação até sentenciar Bouillier como um mau caráter, nada passou despercebido. Perguntei a Calle como era lidar com uma exposição que publicizava sua vida privada. “Não é minha vida que está aqui. Este é o meu trabalho”, declarou com firmeza. Um dos debates da noite obviamente era o direito que ela tinha - ou não - de divulgar os sentimentos do ex, que parece abrir seu coração no texto. Pensando no tema deste blog, questionei-a se essa era uma exposição que tocava essencialmente a alma feminina, já que foi concebida por uma mulher e desenvolvida por outras 107. “Não. É assim apenas porque o remetente da carta era um homem e ela foi enviada a uma mulher. Poderia ser o contrário”. Poderia mesmo? Tenho sérias dúvidas. Por mais que reivindique a igualdade entre homens e mulheres, para mim isso passa também por admitir as diferenças dos universos feminino e masculino. Para argumentar nesse sentido, basta dizer que observei reações muito distintas à obra de Calle: enquanto a maior parte das mulheres parecia entretida, rindo das respostas geniais que algumas das participantes deram, os homens estavam incomodados – “Coitado do namorado dela”; “Não é à toa que eles terminaram”; “Essa mulher é desequilibrada”, foram comentários que ouvi. Em minha última cartada, interrogo Calle se ela não tem receio de ser vista como uma histérica mal-amada. Ela me responde com um típico “brrrrrrrr” francês, em que o ar sai comprimido pelos lábios inferior e superior. Não, ela não se importa com o que os outros pensam.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 10h48
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Cotas para mulheres: funciona? Mais uma polêmica sobre a igualdade entre homens e mulheres ganha as ruas da França: o Ministério do Trabalho pode obrigar as empresas, em especial as públicas, a adotarem cotas de 40% para os cargos de direção. A proposta vem de um relatório apresentado hoje pela inspetora geral dos assuntos sociais Brigitte Grésy, que identificou diferenças substanciais de cargos e salários no mercado de trabalho.
Segundo Grésy, a “lógica de recrutamento [para esses postos] é quase exclusivamente masculina e não varia com o passar do tempo”. Os números reforçam o argumento: as mulheres são apenas 8% da direção nas 500 maiores empresas do país. “Há uma invisibilidade das mulheres nas instâncias de decisão”, afirma ela. E a medida para combater isso seria abrir espaço à força.
Detalhes à parte – número mínimo de funcionários, se a companhia tem ações na Bolsa etc –, Grésy explica que baseou sua idéia nas cotas já existentes para os partidos políticos – na França, eles são obrigados a apresentar certa alternância entre homens e mulheres nas suas listas de candidatos. Este seria um “passo seguinte”, em que o Estado garantiria “acesso igual às responsabilidades sociais e profissionais”, diz a inspetora.
Por si só, a palavra “cota” já gera questionamentos de todos os lados. No Brasil, a discussão foi acalorada quando essa medida entrou em vigor no ensino superior, seja para negros, seja para alunos oriundos das escolas públicas. Para alguns, é uma alternativa absurda, uma espécie de “favorecimento” de determinados grupos. Para outros, se apresenta como uma solução extremada, exagerada. Sem dúvida trata-se de uma saída desesperada: busca diminuir uma desigualdade que, durante séculos de existência, a sociedade não conseguiu superar. E que, infelizmente, ainda não tem qualquer perspectiva de resolver sem mecanismos como este.
Em relação às mulheres, o Brasil começou sua caminhada em 1996, quando o Congresso Nacional instituiu 20% de cotas – e um ano depois alterou para 30% – nas chapas proporcionais. Muitos partidos reclamaram e até hoje não se conformam: no ano passado, por exemplo, o PSC entrou com uma ação contra a lei federal. Além disso, há quem cumpra a cota pro forma, ou seja, não investe na formação de mulheres para que estas se tornem quadros políticos e possam, de fato, disputar eleições. Nomeia sem qualquer critério as suas candidatas, apenas para não ter problemas com a Justiça.
Se vingar, a proposta do Ministério do Trabalho francês pode ser um bom exemplo para aplicarmos aqui, a começar pelas companhias estatais, que devem ser um modelo. Sim, é uma medida que força, que impõe uma eqüidade não existente na prática. Sim, no Brasil nem mesmo as cotas eleitorais são levadas a sério. Mas se esperarmos que, por livre e espontânea vontade, o mundo solucione todas as diferenças, pode demorar tempo demais para que todos nós tenhamos uma vida justa. E isso simplesmente é injusto.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h58
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Uganda proibirá mutilação da genitália feminina De acordo com o dicionário Aurélio, o verbo “mutilar” quer dizer “privar [alguém ou a si mesmo] de algum membro ou de alguma parte do corpo”. Mas a depender do lugar e da cultura, essa palavra pode adquirir muitos outros significados. No caso das mulheres que têm a genitália arrancada, por exemplo, é sinônimo de um sofrimento inominável. Trata-se de uma sentença a uma vida inteira sem qualquer sensibilidade, com o corpo deformado e sem prazer. Muito criticada pelo Ocidente, a prática permanece viva em alguns rincões do planeta, principalmente na África. “Não mais em Uganda”, anunciou o presidente Yoweri Museveni. Ele informou hoje à imprensa que o Parlamento do país aprovará, em breve, uma lei que proíbe a mutilação da genitália feminina. “Vocês interferem na obra de Deus. Alguns dizem que é cultura. Sim, apóio a cultura, mas vocês devem apoiar uma cultura que seja útil e baseada em informação científica”, declarou Museveni, referindo-se às tribos que vêem nesse ato um ritual imprescindível. Conforme noticiaram agências internacionais, o presidente também lembrou que a Organização das Nações Unidas aprovou no ano passado uma resolução determinando que essa prática viola os direitos das mulheres e aumenta o risco de contrair HIV, assim como as taxas de mortalidade materna e infantil. Recentemente li a biografia da ex-deputada naturalizada holandesa Ayaan Hirsi Ali, Infiel. Nascida e criada na Somália, a autora teve seu clitóris mutilado ainda jovem, por ordem da avó materna. A narrativa que ela faz da cena é uma das descrições mais impressionantes e chocantes que já vi. Do corte inicial sem qualquer anestesia até a primeira vez que ela urina após o procedimento, fiquei atenta, apreensiva, com os olhos cheios de lágrimas. Não há qualquer poesia ou romantismo nisso. É a realidade mais dura, colocada diante do leitor a sangue frio. Uma violência que, segundo dados da ONU, já afetou em 100 milhões e 140 milhões de mulheres em todo o mundo. Espero que Uganda consiga de fato discutir a diferença entre cultura e mutilação e que ecoe isso para os quatro cantos do planeta.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 21h44
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Pinotti se foi. E agora, José? Faleceu na madrugada de ontem o médico e deputado federal licenciado José Aristodemo Pinotti (DEM). Com longa trajetória política, no final do ano passado ele fora nomeado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), para comandar a recém criada Secretaria Especial da Mulher, cargo que ocupava até agora.
Desde o início, a escolha do deputado foi contestada pelos movimentos de mulheres. Não porque não o reconheciam como alguém preocupado com as questões relacionadas à pasta ou por desconsiderarem a importância desta iniciativa – na verdade, tratava-se de uma reivindicação antiga. Mas pelo simples espanto de que num país com a maioria da população feminina, o prefeito de São Paulo só conseguira pensar num homem para dirigir a Secretaria.
O debate feito então era quase óbvio: uma mulher seria mais sensível aos assuntos e demandas deste cargo por uma condição inerente à sua existência – a de ser mulher. À época, concordei com a argumentação. Não parto do princípio de que um homem não saberia como administrar um desafio desse porte, mas para mim é evidente que uma mulher teria outra abordagem de assuntos como aborto, violência e opressão pelo simples fato de já ter experimentado esse tipo de situação.
Agora, para a minha surpresa, percebo que o tão criticado Pinotti era o único motivo de a Secretaria existir. Para usar uma figura de linguagem cruel, Kassab nem deixou o cadáver esfriar para anunciar que a pasta seria incorporada à Secretaria da Saúde.
Que pena que a iniciativa tenha durado tão pouco tempo. Com ou sem Pinotti, num governo do DEM ou de qualquer outro, a existência de uma Secretaria da Mulher por si só é um instrumento importantíssimo para combater a desigualdade e aplicar políticas públicas que busquem alterar a condição da mulher. No mínimo é um reconhecimento da necessidade de se olhar especificamente para essa questão.
Claro, eu posso discordar do direcionamento dado à pasta – e à administração municipal como um todo –, mas debater os rumos de uma Secretaria já é um passo muito além do que lutar por sua criação. Agora lá vamos nós, partir do zero.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h10
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