Violência não é piada?


Na década de 1980 o politicamente correto ainda não tinha ganhado força. Para mim, esse era o grande segredo do sucesso dos Trapalhões e de programas como TV Pirata. A crítica social ganhava outra dimensão e o escracho era uma arma poderosa.

Vejam esse quadro da extinta “TV Macho”, em que Regina Casé escancara a violência contra a mulher. Ou alguém acredita que essa seja uma forma de apoiar cascudos e olhos roxos?

 

 

Acho que a vida melhorou muito quando começamos a nos preocupar em não fazer comentários maldosos e nem discriminar minorias e maiorias em piadas sem graça. Mas é inegável que existem diversas abordagens para condenar essas práticas absurdas e usar o humor não necessariamente tira a seriedade do tema. Umas boas risadas também podem desarmar a brutalidade enrustida.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h13
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Mudanças eleitorais estimulam participação das mulheres

 

A reforma eleitoral em discussão no Congresso Nacional estabelece algumas mudanças nas regras do jogo já a partir do ano que vem. Entre elas, está a utilização de pelo menos 5% dos recursos dos partidos para programas que promovam a participação de mulheres na política.

 

Não acredito que esse vá ser um ponto polêmico entre deputados e senadores. Afinal, em tempos de discursos pró-igualdade e de palavras politicamente corretas, é difícil que alguém barre essa porcentagem ínfima. A grande questão é se isso será ou não colocado em prática.

 

Lembremos de uma exigência que já consta na Lei Eleitoral e que praticamente não é cumprida: segundo o texto em voga, os partidos devem reservar 30% de suas candidaturas às mulheres nas eleições proporcionais. Contudo, as legendas simplesmente não estimulam a ocupação desses espaços e muitas vezes acabam dificultando a participação feminina.

 

O resultado é óbvio. Apesar das mulheres serem 51,7% do eleitorado no Brasil, são a minoria entre os representantes políticos. Em 2006, o país elegeu apenas 14,8% de senadoras, 8,7% de deputadas federais e 11,6% estaduais. Nos municípios a proporção é semelhante – 12,6% de vereadoras.

 

Aliás, essa constatação estimulou outra proposta de alteração na Lei Eleitoral, bem mais espinhosa e com dificuldades em obter apoio: a obrigatoriedade – e não somente a reserva –dos partidos e coligações em terem, de fato, 30% de mulheres candidatas.

 

Há ainda mais um dispositivo importante em debate, aquele que prevê uma margem mínima de 10% do tempo da propaganda partidária gratuita para promover e difundir a participação da mulher.

 

São tentativas que, por um lado, podem estimular mais mulheres a participar, e por outro, podem forçar os partidos a finalmente admitir que é preciso políticas inclusivas para que ocupemos cargos públicos em proporções semelhantes às dos homens.

 

Sou um pouco cética em relação à aprovação e, principalmente, ao cumprimento dessas normas, como demonstram os exemplos quantitativos acima.

 

E, para piorar, elas estão no bojo de uma reforma política que, cá entre nós, não traz alterações fundamentais na prática eleitoral brasileira. O financiamento público de campanha, uma das ferramentas estruturantes para garantir um processo mais democrático, dificilmente será aprovado. As propostas chegam ao cúmulo de autorizar doações por cartão de crédito. Além disso, o candidato não precisará mais ter suas contas de eleições anteriores aprovadas para concorrer novamente. Ou seja, por mais picareta e corrupto que ele tenha sido, pedirá votos livremente, com toda a cara-de-pau do mundo.

 

Há algumas mudanças que vêm aos poucos e acabam ajudando a melhorar um cenário de quase terra arrasada. Mas se o alicerce continua mal construído, é difícil remendar para sempre.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 13h12
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Baralho no espaço

Foi como um raio de sol que invade a sala de manhã. Ou um relâmpago que, de repente, atinge em cheio uma árvore desprevenida, enquanto o gado tenta se esconder da chuva. É, sem dúvida era um sentimento forte. Bem mais forte do que o choque que tomamos ao colocar o dedo na tomada – mesmo que seja de 220 volts!

Parecia uma daquelas histórias de amor que ouvimos falar... Um encontro de vida. De vidas, melhor dizendo. Desde o princípio, tudo ia bem. Ela ficava feliz e sorridente só de pensar que o veria no final do dia. De todos os dias. Seu coração batia apressado quando saía do trabalho – ela amava seu emprego, não me entendam mal, mas gostava ainda mais de seu amado. Veriam um filme ou pediriam uma pizza? Bem, não importava: o certo é que ficariam juntos, trocando carinhos e juras de paixão eterna.

Certo dia – ainda no começo da relação –, ela revelou que tinha um desejo secreto. Queria, do fundo do seu âmago, ver a Terra lá de cima. “Oras, podemos pegar um avião para o Rio de Janeiro”. Ah, se fosse simples assim! Não, ele não entendera: sua alma infantil sonhava em ver, com aqueles olhos mesmo que tinha, as porções continentais separadas dos oceanos, formando aquela grande composição de azul escuro e branco que os satélites fotografavam.

“Meu amor, isso é impossível”. Na verdade não era, ela já tinha feito todo o trajeto que a levaria até o espaço. Não o caminho da nave, claro, mas os passos, os contatos e os lugares , isso ela havia mapeado. Podia ser um plano mirabolante sim, no entanto não se enquadrava na categoria “irrealizável”. Na verdade, a idéia era tão antiga que ela teve tempo de desenhá-la mais de uma vez, no papel e no imaginário. Havia inúmeros pontos falhos, admitia. Se um desse errado, seu castelo de cartas desabava. E nesse baralho da vida não dá simplesmente para recomeçar do zero, como dizem as novelas. Argumentou, chorou, gritou. Ele tentou provar que se tratava de uma obsessão – para a qual ela deveria se tratar.

Nenhum dos dois deu o braço a torcer. Ele continuava, racional: “você está errada”. Do seu ponto de vista, aquela menina doida arriscaria de forma absolutamente inconseqüente tudo – as cartas, eu digo – que havia construído. “Além disso, como você faria isso sem mim? Eu não iria junto, não tenho essa vontade”.

Finalmente ela cedeu: “Tudo bem, é um sonho bobo, está certo”. Entre o dito e o não dito, a errada e o certo, as coisas ficaram como estavam. Ela não foi até o espaço. Permaneceu, pelo contrário, bem presa ao chão.

Criou raízes profundas, grossas, que dia-a-dia penetravam o solo cada vez mais, em busca de água. Não sabia bem o porquê, mas ao mesmo tempo em que fazia isso olhava obstinadamente para o céu, para o Sol. Nunca deixou de fitá-los.

Certo dia, anos e décadas depois, ela pereceu. Ele já tinha ido há um tempo, sem se despedir. Lentamente, ela se decompôs. Entrou de vez naquele terreno onde sempre insistira em deixar a cabeça para fora. Será que se tivesse ido ao espaço viraria uma estrela brilhante? Talvez sim. Quiçá, numa outra vida, seu lugar estaria garantido no firmamento. Mas nessa não. Bastou apenas se submeter para juntar-se às milhares de plantas que adubavam a terra. Não achava isso tão ruim, afinal, acontece com a maioria. E é a maioria que determina o mundo.


PS: Depois de escrever esse conto, me deparei com algumas fotos de Salvador Allende no palácio do governo chileno, poucos minutos antes de morrer sob o bombardeio. Era 11/09/1973, exatos 36 anos atrás. Este sim esteve perto dos astros.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 17h22
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Esqueçamos Giordano Bruno!

 


A foto aí de cima foi tirada recentemente na Cidade do México. O slogan da campanha é “Filhos por escolha, não por azar”. Sim, trata-se de um anúncio de uma clínica de aborto e planificação familiar em uma estação do metrô.

Há pouco mais de dois anos a capital mexicana descriminalizou o aborto. Desde então, a gravidez pode ser interrompida voluntariamente até o terceiro mês. À época, a deputada Carla Sánchez, do Partido Alternativa, declarou que a iniciativa mudava a história do país “porque leva as pessoas a considerarem a mulher como sujeito de direito e não como objeto de proteção”. Para ela, tratava-se “de decidir o curso que seguirá nossa vida e nossa maternidade”.

Você consegue imaginar essa mesma cena em São Paulo ou no Recife? É claro que não. Enquanto no México o debate foi feito com a participação da sociedade - ainda que muitos setores tenham se manifestado contra, eles encontraram espaço para questionar a medida - o Brasil aprova a toque de caixa, na Câmara Federal, um acordo com o Vaticano que caminha na direção contrária ao princípio do Estado laico.

Além de pontos como a imunidade tributária para essas entidades, o texto garante ainda o ensino religioso na escola pública. Ora, mesmo que a matrícula para tal disciplina seja facultativa, como podemos considerar, a partir desse acordo, que o Estado permanecerá com o devido distanciamento dessas questões? Como discutir o uso de camisinha e as pesquisas com células-tronco em um ambiente como esse?

Parece que simplesmente nos esquecemos do que significou a morte de Giordano Bruno na fogueira, defendendo a ciência diante da Inquisição - apenas para citar um exemplo extremo. Optamos sim, aos poucos, por regredir ao tempo em que a ordem era ditada não apenas pelo governo dos homens (e nem ouso colocar aqui “das mulheres”, porque seria uma ilusão achar que é possível contemplar um vocabulário de gênero nesse ponto), mas também por um suposto poder divino encarnado em figuras como a família real e a Igreja Católica.

O curioso é que o México segue de perto o Brasil entre as nações com mais devotos à fé cristã.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 22h01
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Daquilo que cativamos

 

Compartilho abaixo trecho de um texto publicado no blog Ofensiva contra a mercantilização. É longo, mas vale a pena. Trata-se de uma história de ingenuidade, solidão e estupro. Não tenho dúvidas de que essa narrativa poderia ter acontecido a qualquer mulher. Prova disso é que na semana passada ouvi um relato semelhante de uma amiga, ainda bem que com conseqüências menos graves.

 

Em nossa sociedade, as mulheres são consideradas culpadas se atraírem o desejo de um homem, mesmo que tenham apenas conversado com ele ou sorrido gentilmente. Parece que todos concordam com o que reza O Pequeno Príncipe: cada um é responsável por aquilo que cativa. Bem, Saint-Exupéry que me perdoe, mas ninguém pode assumir as ações e o pensamento do outro.

 

O Estupro


Por Emmanuèle Durand

"Eram oito horas da noite. Enquanto atravesso a rua um moço me vê do outro lado da rua, me avalia, me espera e me aborda. Ele é de altura média, nem feio nem bonito, vestido burguesmente, usa óculos. (Se você o encontrar, chama-se Marc, não soube seu sobrenome.) Parece estudante de Direito. Não é o meu tipo. Perdão, senhorita, quer que eu a acompanhe, perdão, senhorita, posso falar com você, boa noite, como vai, aonde vai tão depressa, ou qualquer coisa no gênero, me diz ele.


Não gosto de ser abordada. Isso não traria problemas, se homens e mulheres fossem iguais, se as relações entre os sexos fossem recíprocas. Mas atualmente esse não é um meio como um outro de se conhecer alguém, porque é um meio que coloca de início a mulher como objeto sexual. A maioria dos homens que abordam uma mulher não esperam que ela tenha manifestado o menor desejo, que tenha sustentado seu olhar, nem mesmo que os tenha visto. Começam freqüentemente a falar antes de ter visto seu rosto, chegam e dirigem-se a ela por trás.


Era, como quase sempre, sua escolha e não a minha. Primeiro, não respondi - ele me era indiferente. Depois ele insistiu, seguindo-me. A força de sua insistência juntou-se à da minha solidão, e respondi. Percebi que falar me dava prazer. Queria companhia. Seu desejo era a priori bem diferente, afirmou ele mais tarde. Tratava-se de uma decisão que não foi modificada nem por minha atitude geral, nem por minhas afirmações, nem por minha recusa física.


Quando ele propôs tomarmos um café, aceitei, prevenindo-o que o deixaria meia hora depois. Então começou a escalada. "Conheço um café um pouco mais adiante", diz ele. Na verdade, é ao seu carro que me leva, abre-me a porta sem perguntar minha opinião.


É o primeiro indício de sua vontade de poder. Isso deveria ter bastado para que eu me recusasse a entrar no carro. Infelizmente as mulheres estão habituadas a não se chocar com a pressão continuamente feita pelos homens sobre elas. Eu não notava que, entre esse gênero de abuso - constante - e o estupro, só há uma diferença de grau, não de natureza.

Até aqui eu ainda estava formalmente livre. Digo formalmente, porque, se eu me tivesse recusado a entrar no seu carro, isso teria provado que eu não poderia fazê-lo sem risco. Se uma mulher não tem escolha entre privar-se de companhia ou aceitar uma companhia com o risco de que sua liberdade não seja respeitada, essa mulher não é livre.


Comecei por recusar a subir. Disse que preferia ir a um café ali por perto, que era mais simples, etc. Espontaneamente, não exprimia a razão verdadeira de minha recusa. Fazia de conta que o carro representava apenas uma complicação prática. Utilizava em realidade um código implícito, compreendido por meu interlocutor, pois ele me respondeu: "Mas não é possível, não me diga que você está com medo. Não vou te comer", etc.


Eu tinha afirmado o risco da agressão sem mencioná-lo, e ele o tinha mencionado, negando-o. Todos os dois, eu por voluntarismo, ele por chantagem, fazíamos de tenta que ignorávamos a situação social da mulher como objeto sexual, quer dizer, a possibilidade de que sua liberdade não seja respeitada.


Quando eu lhe disse que não era cômodo tomar o carro, eu falava como uma mulher livre que só se coloca um problema material. De fato, sem ter plenamente consciência, eu recusava a situação sob dois aspectos: de um lado, a possibilidade de que esse homem abusasse de mim (como tão justamente se diz) no carro; e, por outro lado, o significado social de meu gesto, se eu entrasse no carro. (...) Eu temia que no fundo minha atitude fosse considerada como um convite sexual, quando não era o caso. Ou, mais exatamente, eu temia que o homem fingisse interpretar minha atitude como um convite sexual para se justificar mais facilmente de uma agressão eventual (situada a qualquer nível), negando assim seu caráter de agressão.


Este medo obscuro exprimia uma realidade social habitual. As mulheres nunca são realmente consideradas vítimas da agressão masculina, mas cúmplices. Paradoxo absurdo, destinado a negar a realidade da opressão das mulheres. Se uma mulher vai ao quarto de um desconhecido e aí é estuprada, dir-se-á que ela tinha "procurado", que o fato de entrar no quarto era uma aceitação implícita do que poderia acontecer. Levando ao extremo, finge-se crer nesse contra-senso: que uma mulher possa gostar de ser violada.


Todas essas idéias repousam sobre o mito da natureza passiva da sexualidade feminina, mito destinado a justificar um papel social que é imposto às mulheres. "Uma mulher que não diz nada consente. Uma mulher que diz não quer dizer talvez, uma mulher que diz talvez quer dizer sim." Dito de outra maneira, seja a mulher neutra, resistente ou hesitante, ela está sempre de acordo. Quer dizer que a liberdade das mulheres é totalmente negada, que lhes é negada toda autonomia sexual. O que ela exprime não é ouvido, mas percebido em função do desejo masculino. Num caso extremo (mas de fato normalmente), um desejo positivo de sua parte é percebido como ambíguo, como um desejo recusa, uma submissão e não uma escolha. (...)


Mas o código que eu tinha utilizado, quer dizer, o pretexto material, implicando a ausência de obstáculos morais, implicando, portanto, minha liberdade, se voltava contra mim, uma vez usado pelo homem. Tendo compreendido perfeitamente o sentido real de minha resistência respondeu a essa objeção subjacente invocando ele também minha pretendida liberdade, o que era negar o fundamento de minha objeção. A ilusão da liberdade em uma mulher (a negação de sua opressão) torna-se para a sociedade um meio de chantagem contra ela, para mantê-la em seu estado de opressão. Sua chantagem constituía em ridicularizar meu medo de ser tratada como objeto sexual. "Não vou te comer", quer dizer são medos de menininhas. Os homens não são "maus". Dito de outra maneira: você é livre. Se você entra no meu carro, você realiza essa liberdade. Se você não entra, você está se privando desta liberdade, obedecendo a tabus ridículos.


No fracasso das relações entre homens e mulheres, as mulheres são sempre as primeiras a serem acusadas. Se elas recusam relações alienadas, são consideradas como inocentes (quer dizer ridículas) ou pequeno burguesas, e se elas são vítimas de relações alienadas, elas ainda são culpadas, porque deveriam ter desconfiado. A esse propósito, o rapaz em questão (chamemo-lo JH) censurou duas vezes minha ingenuidade: antes do estupro, porque eu era boba de não querer subir no seu carro, e depois do estupro, porque eu deveria ter desconfiado. (...)


O estágio primário da emancipação de uma mulher é de fazer de conta que é livre ou, mais exatamente, é tentar sê-lo é experimentar a realidade até que a ilusão se desfaça. Acreditei no discurso hipócrita desse rapaz, acreditei que estava livre, porque eu queria sê-lo, queria poder entrar no carro de um desconhecido só com a intenção de ir tomar um café e que essa intenção fosse tomada pelo que ela era.


Nós chegamos ao Châtelet, e lá JH entrou numa rua de grande circulação. Como eu me inquietava quanto ao lugar onde íamos, JH me repetiu que ele conhecia um café um pouco mais adiante. No caminho ele começou a jogar o "jogo da verdade", ao qual me prestei sem prever o uso (entretanto já de se esperar) que faria dele. Naturalmente ele começou a fazer perguntas de ordem sexual que no princípio não me encabularam, mas depois se tornaram francamente obscenas. Era o segundo indício de sua capacidade de agressão. Era em si uma agressão sexual. As palavras que despem dando nomes são uma maneira como uma outra de se apropriar do corpo do outro. Isso também é estupro. Aliás, foi o que eu lhe disse, crendo-me obrigada a explicar minha recusa em responder. (A quantas explicações estão condenadas as mulheres para tentar vencer a má fé masculina?)


Nesse momento notei que esse homem não me deixaria "tranqüila". Mas nem um instante, até o último momento, pensei que ele quisesse realmente me violar. Disse-lhe, sempre esses pretextos, que começava a ficar tarde e que eu preferia voltar imediatamente. Pedi-lhe que me deixasse na próxima esquina. Ele disse que já era tarde demais, que não dava mais jeito de parar, que já estávamos chegando. Parou num lugar qualquer em Joinville, em frente a uma casinha bastante isolada das outras. Entrei com ele, pedindo-lhe que me levasse de volta rapidamente.


Que eu tenha sido ingênua não vem ao caso.


Pôs alguns discos, sentamo-nos diante da mesa, ofereceu-me uísque. Falamos indiferentemente de filmes e discos. Pôs a mão no meu joelho. Retirei-a. Recomeçou. Nova recusa. "Por que você não quer? Não quer namorar?" "Não, eu disse, não tinha essa intenção." "Então não devia ter vindo", me respondeu. Fortificado com esse argumento, recomeçou cada vez mais. Fiquei com raiva. "Bom, bom, me disse, eu paro, mas venha sentar-se na cama, é mais confortável." Sentei-me na cama. Era completamente idiota de minha parte. Talvez eu tivesse essa reação que se tem diante do perigo, fingindo que ele não existe para conjurar o malefício. Parecia-me que um medo claramente expresso ou recusa demais poderiam excitar ainda mais sua vontade de poder. De toda maneira, dada sua decisão, isto nada mudaria. Logo que sentei na cama, ele me derrubou segundo o método clássico e procurou beijar-me à força. Debati-me, levantei-me, peguei minhas coisas e fugi para a porta. Logo ele me alcançou, carregou-me nos braços e jogou-me na cama. Beijou-me de novo à força (não menciono os gestos anexos). Então mordi-lhe o polegar. Meus dentes se enfiaram interminavelmente. Levantou-se furioso e contemplou seu dedo aberto e sangrando.


- "Suja! Por que você me fez isso?"


Intelectual como sempre, expliquei que estava só me defendendo. O que não consigo compreender é por que a gente insiste em responder à má fé.


"Você não tem o direito, respondeu-me. Afinal, não te fiz nada. Não te machuquei.”

(...) JH respondeu-me que tinha decidido me "possuir" desde que me tinha visto, e que o faria. Ponto.

Procurei com o olhar no quarto algo que pudesse me ajudar, mas nada vi. Nem mesmo teria tempo de pegar o telefone. Gritar não ia valer de nada, dado o isolamento da casa. Disse a mim mesma que, se eu me debatesse o tempo todo, ele não teria possibilidade física de me violar. Mas pensei que, na pior das hipóteses, estava nas mãos de um maníaco capaz de me matar, e, na melhor, levaria uma surra, que comportaria, além do inconveniente da dor, o risco de ter de me apresentar à minha família tumefeita e coberta de marcas azuis. Seria preciso explicar em que situação me metera ("mas, pobre criança, também que idéia de..." etc.), seria eu quem seria considerada culpada. A vergonha sobre mim.

Tudo o que entrevi em alguns segundos pareceu-me mais terrível que me entregar e esperar que aquilo acabasse. Não queria morrer nem ficar com marcas inúteis. O estupro, de todo jeito, pela violência e pela humilhação, já estava consumado. Nesse momento pensei no risco - especialmente naquele dia - de ficar grávida. Disse-lhe. Curiosamente, respondeu-me:


- Mas é claro que vou tomar cuidado, não sou um menino!


Aparentemente ele pensava que tinha ainda uma honra a reabilitar a meus olhos, como se em minha recusa pudesse haver o menor lugar para sua vantagem.


O caso durou trinta segundos. Um amigo a quem contei a história me perguntou, para minha grande surpresa, se eu tinha gozado! O que parece provar que para ele não havia uma diferença profunda entre violar e fazer amor. Esse comentário vale para todos os maridos que se queixam da frigidez de sua mulher e continuam a exigir o cumprimento do "dever conjugal". A forma habitual de relações sexuais entre nossos avós e nossas avós era pura e simplesmente o estupro."Cada vez era um suplício", dizia minha avó à minha mãe, que aprovava a comparação. O estupro, conjugal ou não, é ainda a forma típica das relações entre os sexos.”



Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h57
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Filho traficante, mãe empregada

 

Recentemente entrevistei o jornalista Caco Barcellos para a edição de setembro de Le Monde Diplomatique Brasil. Não vou publicar a íntegra do texto aqui porque o jornal só chegará às bancas na semana que vem, mas uma frase dita por ele me impressionou muito.


Conversávamos sobre o seu livro Abusado, sem dúvida um sucesso de vendas – já está na 20ª edição – e de crítica – foi vencedor do prêmio Jabuti –, quando Caco afirmou que todas as mães dos traficantes que figuram naquela narrativa eram empregadas domésticas. Não cheguei a me surpreender com a situação, mas sem dúvida fiquei espantada com o índice de 100%.

 

Segundo ele, os membros do narcotráfico reclamavam com freqüência de não ter uma figura materna enquanto os “bacanas do asfalto” tinham duas – as suas próprias e as deles. Muitas vezes, essas mulheres dormiam no serviço e voltavam para casa apenas aos domingos. Enquanto isso, suas patroas trabalhavam fora durante a semana ou se ocupavam de outros afazeres. Ou seja, estavam igualmente ausentes.

 

Fiquei pensando sobre a carga extra evidente que as mulheres carregam como mães. Sim, é algo biológico, em parte: somos nós quem gestamos os bebês em nossos ventres durante 9 meses, parimos, amamentamos. É um vínculo inexorável. Mas existe também uma separação social em que o resto das pessoas se desincumbe da tarefa estrita de criar.

 

Lembrei-me de um poema da nicaragüense Yolanda Blanco chamado “Coisas de mulher” em que ela narra como foi orientada na infância: “Haz hijos pero no libros – se me dijo. Cría en vez de crear”. A diferença em português não é perceptível, mas significa, basicamente, que ao invés de desenvolver suas aptidões criativas, como por exemplo escrever um livro, ela deveria criar filhos.

 

Imagine toda essa responsabilidade somada ao fato de a maioria da população não ter condições financeiras para sustentar seus rebentos porque a distribuição de renda no Brasil é uma das mais desiguais do mundo. As mães dos morros cariocas e das favelas paulistanas mal conseguem garantir questões básicas como estudo e saúde aos filhos, quem dirá acompanhá-los em momentos de lazer, estando presentes em todos os aspectos de sua formação. Em geral, não há outra pessoa que assuma esse papel com tanta convicção.

 

Pode ser que os traficantes sintam falta das suas mães, mas duvido muito que eles não enxerguem sua situação também como um problema social. Mais do que ninguém, eles sabem como é a vida boa de 1% ou 2% dos brasileiros: ouvem falar de seus carros, suas comidas e perfumes. Já os “bacanas do asfalto” nunca viram o dia-a-dia dos “primeiros filhos” de suas “segundas mães”. O mais irônico de tudo, aliás, é que estas provavelmente perderão suas crias cedo, apesar de todo esforço e suor. Afinal, ninguém dura muito nessa vida.

 

Não parece errado?



Escrito por Maíra Kubík Mano às 22h18
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Maíra Kubík Mano é jornalista. Mestranda em Ciência Política na PUC-SP, estuda a relação entre a mídia e as mulheres. Foi editora-assistente da revista História Viva e já colaborou com diversas publicações. É editora de Le Monde Diplomatique Brasil

 

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