Contradições na paisagem haitiana



O Haiti tem hoje muitas faces. Corpos sob a poeira e o concreto são, sem dúvida, a mais cruel de todas. Somam-se a isso casas demolidas, racionamento de água e famílias angustiadas em busca de seus mortos. A fome, que já fazia parte da paisagem, se agravou.

Claro, há resquícios de esperança, solidariedade e apoio. É essa mensagem que passam organizações como os Médicos Sem Fronteira que, com profissionais voluntários, montam hospitais de campanha para tentar minimizar o impacto da tragédia – se é que isso é possível.

Isso sem mencionar aquelas notícias parcas de pessoas encontradas com vida mais de 10 dias depois do tremor. Surpresos, ficamos nos perguntando como isso é possível. Quase um milagre em uma terra onde não deve mais ser plausível acreditar em religião.

Por outro lado, lastimamos saber que existem outras vítimas nessa situação que, provavelmente, não serão resgatadas a tempo.

Na escala de terror e lamúria, aponto também o desembarque das tropas dos Estados Unidos, que diferentemente do que seu departamento de propaganda tenta divulgar, estão sim conduzindo uma ocupação velada do país vizinho. E lamento desde sempre a entrada do Brasil lá, como aquele que traria a ordem ao caos, numa postura absolutamente dogmática e autoritária.

Eis que recebo, de uma amiga, a foto abaixo. Além de toda a tristeza por não conseguir vislumbrar o futuro dessa criança, acrescento um pingo de desgosto ao ver sua boneca. Uma mulher branca, magérrima, com cabelos loiros escorridos e olhos azuis.



É quase irrelevante diante de tamanha calamidade, eu sei. Mas com a tragédia toda, fico mais cabisbaixa ainda de notar que uma das referências para a formação dessa garota é uma realidade que absolutamente não tem nada a ver com a sua. É meio que um... "só faltava essa".



Escrito por Maíra Kubík Mano às 19h25
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Mulheres no poder: uma realidade sul-americana



Primeiro, ele apoiou a candidatura de uma ex-miss ao governo de uma região absolutamente conservadora. Pouco depois, decidiu nomear 50% de mulheres para dirigir o país, afirmando que assim realizava um “grande sonho”. E, claro, dedicou tudo isso à mãe, à irmã e à filha.

Se você anda por fora da política internacional, não estou falando de um estadista europeu em uma sociedade com feministas de longa tradição, mas sim de nosso vizinho indígena Evo Morales, tão criticado do lado de cá da fronteira.

Morales tomou posse em 22 de janeiro para o seu segundo mandato como presidente da Bolívia e, no dia seguinte, surpreendeu muitas pessoas ao declarar que a próxima gestão federal teria eqüidade de gênero, sendo formada por dez homens e dez mulheres.

Na América do Sul, medida semelhante havia sido instituída anteriormente pela ex-presidente chilena Michelle Bachelet.

Segundo o boliviano, seu novo gabinete combina "capacidade intelectual e profissional" com a "consciência social". Com essas palavras, Morales resumiu com precisão uma questão premente na atualidade: as mulheres têm, cada vez mais, que ocupar os espaços institucionais e se tornar gestoras de processos políticos. Mas, para isso, é preciso que se abram oportunidades.

A discussão, em um resumo grosseiro, é bastante similar à questão do acesso às universidades públicas por meio do sistema de cotas: são as chamadas ações afirmativas, que forçam a alteração de um quadro desigual que, de outra forma, poderia demorar um tempo incalculável para mudar.

Como explicitou a feminista carioca Ângela Borba, “as mulheres hoje ocupam importantes espaços no mundo do trabalho, apesar das desigualdades salariais e outros tipos de discriminação, mas, na sua maioria, continuam responsáveis pelas tarefas domésticas e pelos cuidados dos filhos. Romperam barreiras importantes, mas ainda são poucas as que conseguem enfrentar o espaço da política, e o fazem, em geral, com grandes sacrifícios: não têm intimidade com este espaço tradicionalmente masculino, não conseguem convencer seus maridos e companheiros a dividirem encargos domésticos e têm menos recursos financeiros do que os homens”.

Isso não quer dizer que não existam mulheres capazes, por exemplo, de assumir o governo na Bolívia. Na verdade, certamente foi em decorrência de pressões destas que Evo Morales tomou a já mencionada decisão. Contudo, por mais competência que elas tivessem, dificilmente conseguiram galgar esse tipo de posição na administração estatal por um problema muito concreto, que pode ser colocado em apenas uma palavra: preconceito.

É claro que não basta apontar um gabinete paritário para que as mulheres ampliem sua participação política e o machismo nessa esfera seja reduzido e, quiçá, aniquilado. Trata-se de um longo processo que envolve inúmeras medidas. Lembremos aqui da campanha “Mulheres sem medo do poder”, lançada no Brasil pela bancada feminina do Congresso Nacional, em parceria com o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), ONGs feministas, universidades e o UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher), e que estimulou a filiação partidária e candidaturas femininas.

Mas é de medidas menores, como a impressão e distribuição de cartilhas com essa temática, somadas a propostas de grande impacto, como a de Morales, que se muda uma realidade no mínimo injusta.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 01h18
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Vidas encharcadas numa São Paulo perdida



Josefa tem seis filhos. Suas idades variam entre 4 e 22 anos.  Um já não mora mais com ela: casou e saiu de casa. Os outros continuam debaixo de sua asa. Josefa cria a prole sozinha em um barraco de dois quartos. No dia-a-dia, conta com a solidariedade da mãe e da cunhada, que olham os menores enquanto ela trabalha como faxineira.

Josefa vive no Jardim Pantanal, uma das áreas que mais sofre com as enchentes em São Paulo. No final do ano passado, teve sua casa alagada e perdeu boa parte dos móveis, além da geladeira, onde conservava as injeções de insulina do filho de 18 anos. É um garoto bem esperto, aliás, que terminou o Ensino Médio em escola pública e agora quer prestar vestibular, apesar de todas as dificuldades de idas e vindas nos hospitais.

Com a ajuda de pessoas próximas, foi recuperando suas coisas aos poucos. Comprou outra geladeira por R$ 300,00 – certamente de segunda mão – e foi retomando a vida. Junto com os vizinhos, criticou o prefeito Gilberto Kassab (DEM) e a omissão do poder público. “Se eles construíram um CEU e um posto de saúde no bairro, como vêm dizer que a área é de ocupação ilegal?”, questionava. Fizeram protestos, se recusaram a sair. E a situação ficou sem solução.

Na chuva de ontem, a casa de Josefa mais uma vez encheu d’água. De nada adiantou o muro construído em frente à sua casa pelo pastor da Igreja neopentecostal que ela freqüenta – é, parece que em alguns lugares o dízimo até que funciona! Ela só ficou sabendo, não viu ainda o prejuízo, porque tinha deixado os filhos com a mãe para cuidar do garoto esperto. Ele está internado desde segunda-feira, em algum lugar da Zona Leste, com as mãos e pés inchados e ainda sem um diagnóstico médico preciso.

Mesmo assim, ela não largou o batente. “Se virou”, mais uma vez. E apareceu de manhã na minha casa. Encontrou uma Maíra chocada, que mal sabia o que dizer ou como ajudar, de tão distante que é essa realidade da sua. “Vai ficar tudo bem”, falei, meio de improviso. E em seguida soltei ainda um “se precisar de alguma coisa...”. Precisar do quê, Maíra? De tudo, né? Casa, emprego, estudo, saúde, uma cidade melhor...

Vidas secas, ou encharcadas, Josefa segue em frente. Ou melhor, sacolejando, gastando mais de três horas em deslocamentos de ônibus e Metrô.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h32
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Por peitos e bundas na São Paulo Fashion Week



(Uma blogueira feminista defendendo mais bunda e mais peito? Que ironia!)


Em tempos de discussões inflamadas sobre direitos humanos, não é só o autoritarismo da ditadura militar brasileira que deveria entrar em pauta. Exemplos de violação não faltam nos dias atuais: tráfico de seres humanos, trabalho escravo no campo, extermínios comandados pela PM do Rio de Janeiro e... – por que não? – a São Paulo Fashion Week.

Afinal, as modelos da edição 2010 estão absolutamente esqueléticas. Magras de doer. Só o osso, como se diz por aí.

Mas esse tempo já não tinha passado?

Bem, é verdade que há três ou quatro anos um movimento contra a anorexia e a bulimia ganhou as passarelas de todo o mundo e, de fato, conseguiu reverter essa tendência nada fashion de mulheres cadavéricas. Porém, segundo as agências, isso já é muito “last season”, démodé. De volta, então, ao cemitério!

Se havia alguma preocupação, tanto com a saúde física e psíquica das modelos, quanto com o ideal de beleza que os desfiles passavam para a sociedade, isso durou pouco. Antes, ouvia-se dizer que algumas grifes mantinham balanças nos bastidores e pesavam todos e todas um pouco antes dos holofotes, para evitar que pessoas magras demais entrassem na passarela. Hoje, porém, não há nem sinal disso. “Culpa da semana de moda de Paris”, dizem.

O resultado, já conhecemos: quem entra num manequim 36 é considerada muito “acima” da média.  E, assim, ficamos sabendo que existem profissionais com um Índice de Massa Corpórea (IMC) semelhante ao de crianças de nove ou dez anos.

Sim, eu sei, a maioria delas mal saiu da infância. Pior ainda, pois além de não ter muita experiência para discernir o que é a importância do sucesso profissional versus a manutenção da saúde, estão em fase de crescimento, o que significa deveriam estar comendo ao invés de vomitando.

O editor de moda do jornal Folha de S. Paulo, Alcino Leite Neto publicou hoje, junto com a jornalista Vivian Whiteman, um
artigo corajoso, denunciando a falsidade de opiniões em torno da questão: “uma rede de hipocrisia se espalhou há anos na moda, girando viciosamente, sem parar: os agentes de modelos dizem que os estilistas preferem as moças mais magras, ao passo que os estilistas justificam que as agências só dispõem de meninas esqueléticas. Em uníssono, afirmam que eles estão apenas seguindo os parâmetros de beleza determinados pelo “mercado” internacional – indo todos se deitar, aliviados e sem culpa, com os dividendos debaixo do travesseiro”. Faço minhas as palavras dele, que conclui o texto dizendo: “o filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu que as modelos são ‘as vítimas de um deus sem rosto’. É hora de interromper esse ritual sinistro. É hora de parar com essas mistificações da moda, que prega futuros ecológicos, convivências fraternais e fantasias de glamour, enquanto exibe nas passarelas verdadeiros flagelos humanos”.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 09h26
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O neomachismo



A mulher que diminui a amamentação para voltar ao emprego está errada. A criança precisa da mãe. E como ela vai dar conta da casa fazendo tudo isso ao mesmo tempo? Devia trabalhar menos!

Os argumentos acima são freqüentes E muito. Trata-se de um ponto de vista bastante comum sobre o papel que a mulher exerce na sociedade contemporânea, e em especial na família.

Na Espanha, essa percepção de mundo foi denominada “neomachismo”. A argumentação teórica da questão foi recentemente explicitada em um artigo assinado pela professora e advogada Amparo Rubiales, publicado no periódico
El País em 15/01.

Não consegui achar nenhuma tradução, ainda que alguns jornais brasileiros reproduzam o conteúdo desse veículo – talvez esse tema especificamente não seja tão “apetitoso” – então me arrisquei a fazê-la. Vale a pena a leitura:

“O neomachismo

Nunca pensamos que quando a democracia se fundamentou, entre outros princípios, sobre a liberdade e a igualdade, seria mais difícil tornar esta última efetiva. E, não obstante, o medo da liberdade, sobre o qual escreveu [o psicanalista alemão] Erich Fromm, não era nada comparado com o medo da igualdade, mais generalizado e resistente.

Os que defendiam ‘os valores’ da sociedade patriarcal, ainda que os justificassem de maneiras muito diversas, eram qualificados de machistas. Começaram a ser mal vistos e foram ‘baixando sua bola’; mas quando a igualdade se tornou mais plena,  eles começaram a formular novos argumentos que, supostamente, não a questionavam, mas sim sua forma de exercício, com idéias que, por vezes, chegavam a parecer até ‘razoáveis’. Parecem diferentes das de sempre ainda que, no fundo, desejem o mesmo: a subordinação das mulheres.

Miguel Lorente, em seu livro denominado Los nuevos hombres nuevos. Los miedos de siempre en tiempo de igualdad (Os novos homens novos. Os medos de sempre em época de igualdade), sustenta que o gênero masculino tem maquinado novas tramas para defender sua posição de poder, e estas se baseiam em supostos problemas que a incorporação da mulher na vida ativa tem tido, sobretudo, no âmbito das relações familiares. A esta nova estratégia se denomina pós-machismo, por ter nascido, diz, no contexto da pós-modernidade, e por manter desde o seu surgimento uma certa distância em relação às posições clássicas do machismo ou do patriarcado.

No entanto, e ainda que me pareça absolutamente correto o que argumenta, acredito que é melhor denominar a essa nova forma de pensamento como neomachista porque, cada dia mais, está se transformando em uma nova ideologia que se estende e se caracteriza, precisamente, por ter medo da igualdade. É uma nova maneira de sustentar as posições machistas de sempre, mas com novos discursos e novos conteúdos. Ninguém hoje se declara abertamente como fascista, por exemplo, mas é evidente que há uma nova maneira de o ser, e a ela se denomina neofascita.

Os neomachistas municiaram o feminismo com o machismo, tratando de criar confusão onde não pode haver porque eles buscam coisas opostas: o último é a primazia do homem e o primeiro, a igualdade entre mulheres e homens. A diferença é tão grande que não vale a pena explicitá-la, a não ser porque o neomachismo busca confundir para poder manter melhor suas novas posições, direcionadas, como sempre, a questionar os direitos das mulheres, sua autonomia e a independência conquistada. Não questionam, dizem, a igualdade, mas as conseqüências de seu exercício; são contrários à violência de gênero, mas manifestam com reiteração que há muitas denúncias falsas sobre ela, sem acrescentar que, se assim fosse, um crime estaria sendo cometido que também deveria ser denunciado, como qualquer outro caso.

Existe um juiz que dá medo pelas coisas que diz – não quero nem dizer que é, mas gostaria –, e existem, desgraçadamente, muitos teóricos do neomachismo – entre eles mulheres – que surgem diariamente e que temos que desmascarar como fizemos com os machistas.

Consideram a igualdade como uma ameaça, mas não para eles, e sim para as relações sociais, e exacerbam isso ao extremo: pela violência de gênero. O feminismo sempre foi ridicularizado e hoje, de novas formas, volta com força a sê-lo. Assim, falam de revanche de gênero, de feminismo ressentido, dogmático ou radical, sem outras intenções que novamnete a ‘demonizá-lo’.

São manifestações desse medo da igualdade que os neomachistas tratam de ampliar de diversas maneiras: sacralizam, por exemplo, a lactação materna, tornando as mães culpadas por não poder praticá-la; tornam as mulheres responsáveis pelos problemas das crianças, com a teoria do ‘ninho vazio’; e do aborto, nem falemos, parece que ele é apenas resultado do capricho de algumas. Nenhum deles diz que está contra a igualdade: pelo contrario, afirmam que somos nós, as mulheres, que estamos desenvolvendo uma sociedade com graves problemas de convivência como conseqüência direta da nossa necessidade de sermos livres e iguais. Nunca entenderam que sem igualdade a liberdade não existe, e que a primeira ou é real ou não é igualdade, e a democracia exige ambas.

Nós mulheres sempre tivemos que alcançar coisas com as quais os homens já nasciam; nos relegaram ao mundo privado e fomos conquistando – com muitos anos e esforço – parcelas do público, mas sempre às custas da vida privada. Os homens, que tinham designado para eles próprios o mundo público, se mantiveram dessa forma, e sua incorporação ao outro mundo foi sendo feita em medida muito menor, daí as resistências persistentes à igualdade – ainda que tenhamos avançado bastante –, especialmente nos países desenvolvidos – porque em muitos outros ainda existe a burca, símbolo da maior das discriminações das quais padecem as mulheres.

Temos que acabar com todas as burcas do mundo, sabendo fazer frente, com a mesma contundência, aos velhos argumentos e a esses mais sutis do neomachismo."



Escrito por Maíra Kubík Mano às 01h08
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Maíra Kubík Mano é jornalista e professora do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp. Foi editora do jornal Le Monde Diplomatique Brasil e editora-assistente da revista História Viva, além de trabalhar como freelancer para vários veículos de comunicação. Tem pós graduação em Gênero e Comunicação no Instituto Internacional de Periodismo José Martí, em Havana, Cuba. Visite meu site: www.mairakubik.com

 

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