Na semana passada, participei de um debate sobre mulheres e movimentos sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e ouvi de uma estudantes que as tropas brasileiras no Haiti estariam chantageando a população local para fornecer comida após o terremoto. Uma das moedas de troca, segundo ela, seria o sexo. A acusação é seríssima. Procurei me informar, mas só descobri a mesma fonte citada pela garota, o que é absolutamente insuficiente para fazer qualquer denúncia desse tipo. Tive a impressão de que, para contestar a ocupação do Haiti por tropas brasileiras, que também penso ser ilegítima, algumas pessoas andam indo longe demais.
De qualquer forma, fiquei com a pulga atrás da orelha e busquei saber mais sobre as condições das mulheres após o terremoto que deixou 1 milhão de desabrigados. Descobri, com tristeza, que o estupro é sim uma constante, mas praticado pelos próprios haitianos. Um dos maiores problemas está nos campos de refugiados. São acampamentos com espaço totalmente limitado: os “quartos” são separados por lençóis, a segurança é escassa e a privacidade, praticamente nula. Os banhos são tomados a céu aberto e na frente de todos.
Uma reportagem em vídeo da rede de TV americana CNN explicita bem essa realidade. Na matéria, uma das entrevistadas afirma que não é difícil as freqüentes agressões verbais se tornarem físicas. A situação lá, diz ela, é “cada um por si”. Antes do terremoto existiam centros de aconselhamento e serviços de apoio às vítimas de estupros, como acontece em boa parte do mundo ocidental. Hoje, porém, o auxílio se resume a distribuir lanternas para caminhar à noite de forma mais “protegida”.
No último mês, cerca de 20 violações desse tipo foram registradas, mas estima-se que o número seja bem maior, pois muitas mulheres sentem-se inseguras em levar adiante denúncias. Para aquelas que conseguem chegar a um hospital, o tratamento é apenas para as dores do corpo, não da alma. E tudo é feito com muita rapidez: é preciso dar lugar a novos feridos. Liesl Gerntholtz, coordenadora de um centro de monitoramento dos direitos humanos, relata ter conhecido uma mulher que, após ser espancada e estuprada por cinco homens, recebeu cuidados médicos e, em seguida, foi obrigada a voltar para as ruas. Sem amigos ou parentes – a maioria foi morta na tragédia –, ela se viu sozinha numa situação desesperadora.
Enquanto esteve no Haiti, Gerntholtz visitou 15 campos de refugiado e testemunhou outros quatro estupros feitos por gangues. Ouvi de um amigo jornalista que foi cobrir o pós-terremoto que esses grupos organizados aterrorizam mesmo as mulheres. Durante sua passagem por lá, um comandante brasileiro lhe contou que alguns homens utilizam canos de metal durante os atos de violência sexual para machucar ainda mais suas vítimas.
É um cenário aterrador. Já não basta ter que reconstruir edifícios e infra-estruturas mínimas, será preciso também reconstruir as almas e os corpos das mulheres haitianas, talvez ainda mais devastados que o próprio país. Será que é possível?
Antonio Cândido e a saída consciente da vida pública
Há algum tempo tentei entrevistar o professor Antonio Cândido para o Le Monde Diplomatique. O tema proposto era “onde estão os grandes intelectuais brasileiros?”. Muito educado, ele agradeceu e declinou do convite. Afirmou que não tinha mais nada a dizer publicamente. Tudo o que quis transmitir à sociedade estava registrado em seus textos e declarações anteriores.
Insisti um pouco, sem muito sucesso. Argumentei que era uma dúvida legítima saber se ainda produzíamos pensadores da envergadura de Florestan Fernandes e dele próprio. Com paciência, Antonio Cândido explicou à jovem repórter do outro lado da linha que ele não se via, então aos 90 anos, com capacidade de analisar a conjuntura com tanta clareza como fazia antigamente. Por isso, preferia se calar. “Não quero sair por aí falando bobagens. Já disse tudo o que precisava”.
Fiquei um pouco decepcionada por não conseguir a entrevista, claro. Mas muito mais impressionada com a lucidez da minha ex-fonte. Professor emérito da USP e da UNESP e doutor honoris causa da Unicamp, nome obrigatório da literatura nacional, este é um dos maiores intelectuais que o país já viu. E sua grandeza é tamanha que, ao perceber o avanço da idade, ao invés de sair por aí resmungando disparates, mudando de lado ou perdendo a ética e a compostura, como muitos o fizeram, ele simplesmente optou por deixar de falar.
Hoje pela manhã leio que a colunista Monica Bergamo também tentou entrevistá-lo, dessa vez sobre os royalties do Pré-sal. A resposta não poderia ser mais perfeita: “Aos 92 anos, as minhas preocupações são: se vai ter bolo de fubá no café da manhã, se o suco de laranja tem gelo ou não (eu não posso com gelo) e o que vai ter para o jantar. Só isso”.
Mas na TV andam dizendo que eu não presto / É a mídia com receio de protesto / Tem que cantar com voz aguda e botar silicone / Desculpa Rede Globo eu represento é no microfone
Dina Di foi considera pelos seus pares uma rainha. Uma guerreira. “A primeira a esmurrar a porta do barraco brasileiro e anunciar as mulheres no rap”. Em um círculo onde os homens são maioria, conquistou seu espaço provando que era uma boa letrista. Gravou três CDs e fez shows por todo o país cantando a história doída de quem perdeu o pai, mestre-de-obras, em um acidente bobo, e a mãe, camelô, assassinada.
À margem do centro, mas no centro da periferia, Dina Di convocou as mulheres a se unirem a ela: “Tem que ser mulher, pra se manter em pé, pra encarar a multidão é uma missão é pra quem é / Tem que ser mulher, pra se manter em pé, pra encarar eu vou chegar seja o que Deus quiser / A mulher será unida, unida, porque jamais será vencida, vencida”
Sua trajetória no hip-hop terminou na última sexta-feira, não por vontade própria: Dina Di, ou Viviane Lopes, morreu vítima de uma infecção hospitalar após o parto de sua filha. Pela internet, pipocaram manifestações em blogs, sites e no Twitter. Despedidas tristes, reconhecimentos sinceros. Na grande mídia, não vi nada sobre o assunto. Aliás, só soube do ocorrido e da trajetória de Dina Di hoje de manhã, por intermédio de um amigo, que disse uma frase sábia: o hip hop é digno demais para sair na imprensa.
Para se ter uma idéia de seu trabalho e do ambiente em que vivia, posto abaixo um vídeo excelente sobre as mulheres no hip-hop, com depoimentos de Dina Di. E fico com algumas palavras dela ritmadas na cabeça, torcendo para que sejam proféticas: “Não me dê por vencida sou Dina Di, mulher de fibra, e têm muitas como eu que é capaz de resistir o que vem, que vai além que não atrasa de ninguém que faz o bem aí, que não virou refém de homem, certa e independente que constrói o próprio nome, têm aquelas que desacredita que não se movimenta, lenta, parasita, não anda, do tipo que os homens domina e comanda enfim, respeito sim, é, desde que ele tenha por mim aí e se não ter vai ficar pequeno as minas tão vindo, se unindo tão vendo”.
Risadaria: o politicamente incorreto nem sempre é preconceituoso
No próximo final de semana acontece, em São Paulo, o Risadaria, festival que reunirá dezenas de humoristas e comediantes brasileiros tais como Rafinha Bastos, Marcelo Tas, Diogo Portugal, Danilo Gentili, Marcela Leal e Marcelo Madureira. Além das apresentações, o evento terá uma exposição, debates, exibições de filmes e um concurso das melhores piadas no rádio, TV e impresso.
O festival está sendo divulgado sob a bandeira de resgatar o politicamente incorreto. Um dos mais fervorosos defensores disso é o apresentador Fausto Silva, da Rede Globo, que em seu programa dominical mencionou o assunto com voz embargada e jeito magoado. "O politicamente correto é a maior ameaça ao humor no Brasil hoje", declarou Diogo Portugal em entrevista à coluna da Monica Bergamo, no jornal Folha de S.Paulo.
Na mesma matéria, Paulo Bonfá, do Rockgol, afirmou que, da forma como a sociedade anda policialesca, os Trapalhões, ídolos nacionais, “não poderiam ir para o ar” hoje em dia: “Cearenses, negros e usuários de peruca iam dizer que aquilo denigre a imagem deles. Ninguém se tornou alcoólatra porque assistiu ao Mussum tomando ‘mé’".
Eu já discuti inúmeras vezes sobre essa questão no blog, e concordo parcialmente com as reivindicações dos humoristas. Acho que, de fato, existe uma censura social muito grande e por vezes exacerbada, que acaba ofuscando algumas idéias geniais porque o politicamente correto está quase no piloto automático. Não paramos para pensar que certas piadas podem escancarar preconceitos ao invés de reforçá-los. Vale, mais uma vez, a lembrança da Regina Casé, no TV Pirata, tomando porrada do marido e achando bom porque ele estava “dando um toque” para ela.
Contudo, há humoristas e humoristas e muitos deles apelam para saídas fáceis como dizer que mulher é burra, demora para se arrumar, dirige mal ou coisas do gênero. Dá audiência? Claro, homens e também mulheres riem à beça de esquetes como essas. Mas para mim não tem graça nenhuma. E é aí que eu acho que o politicamente correto cumpre o papel de lembrar que não dá para corroborar com práticas que reforcem, por exemplo, a violência física ou psicológica contra a mulher, infelizmente ainda comum e cotidiana.
Outro ponto que me preocupa é a generalização: por que todos dão gargalhadas com piadas de políticos? Porque eles são o alvo mais fácil, a janela de vidro do país (tirando o presidente Lula, claro, que é um artista de stand-up comedy nato, como diz Marcelo Tas; umas das vezes que mais dei risada na vida foi ouvindo um discurso dele sobre a saga da conquista das Olimpíadas para o Rio de Janeiro... “Eu e o Cabral naquele quartinho apertado de hotel. Diziam na TV que a cidade do hómi [Chigado de Obama] era a favorita, mas como eu não entendia nada daquela língua, tudo bem”. Hilário!). Porém, temo que a desmoralização completa dos políticos, caminho que os humoristas trilham sem dificuldades, acarrete em uma descrença no fazer político em si mesmo, o que é imensamente prejudicial à sociedade.
Nesse sentido, penso que os humoristas brasileiros deveriam utilizar todas as formas de piadas que estejam ao seu alcance, mas com uma preocupação mínima de causas e conseqüências. O politicamente incorreto pode ser fantástico, desde que usado com cautela. Para tudo nessa vida há mediações, inclusive para o humor.
O jornal Le Monde Diplomatique Brasil, do qual eu sou editora, lançou ontem seu novo site. Aproveito para divulgá-lo aqui no blog. Momento auto-propaganda, digamos assim. Demorou quase 9 meses, uma gestação inteira, mas finalmente disponibilizamos o conteúdo integral do da publicação, ao menos de sua versão brasileira.
Vale a pena a visita. São literalmente milhares de artigos sobre altermundialismo, globalização, cultura, educação, direitos humanos, urbanismo, economia, relações internacionais, literatura, música, artes plásticas, reforma agrária e muito mais.
Publico abaixo como “aperitivo” um vídeo muito bacana de divulgação do jornal, feito pela agência Fischer:
Maíra Kubík Mano é jornalista. Doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp, estuda a relação entre a mídia e as mulheres. Foi editora do jornal Le Monde Diplomatique Brasil e editora-assistente da revista História Viva, além de trabalhar como freelancer para vários veículos de comunicação. Tem pós graduação em Gênero e Comunicação no Instituto Internacional de Periodismo José Martí, em Havana, Cuba.