Crime passional não existe

 

Cá entre nós, crime passional tem um quê de romantismo, não? Quando usamos essa expressão, geralmente é para nos referirmos a alguém que estava tão apaixonado, mas tão apaixonado que acabou cometendo um assassinato.  Ah, o amor... mexe com a cabeça dos homens, deixa eles loucos de ciúme. Como culpá-los? Sempre tão racionais e, de repente, vem uma mulher e bagunça tudo.

Não, eu não acredito nas linhas acima que, ironicamente, acabei de escrever. Mas é assim que muitas pessoas vêem esse tipo de situação: dentro de um contexto quase idílico e idealizado. Quase perdoável.

Para além da absurda falta de reconhecimento da violência sofrida pelas vítimas, uma das responsáveis por essa percepção é a mídia, que insiste em divulgar crimes de gênero como arroubos de paixão.

Dois exemplos recentes são o desaparecimento de Eliza Samudio e o assassinato da advogada Mércia Nakashima. Ambas podem ter sido mortas por seus ex-namorados – no primeiro caso, estamos nos referindo a uma celebridade dos gramados, o goleiro Bruno, do Flamengo; no segundo, a um policial aposentado – mas apesar da cobertura excepcional da imprensa, que dá atenção praticamente diária a cada passo das investigações, a questão é pouco discutida.

A mídia em geral peca pela descontextualização da notícia, mas no caso de crimes como esse a omissão é espantosa. Como não dizer, por exemplo, que a cada quinze segundos – mais ou menos o tempo que você vai levar lendo esse post – uma mulher é espancada no Brasil? E pior: que a maioria dos agressores, 87%, é o atual ou um antigo marido/namorado?

Da forma como a notícia é dada, parece que estamos falando de questões isoladas, de uma relação que fracassou de forma retumbante. A verdade, porém, é que atitudes como essa ganham os jornais todas as semanas, mesmo que seja em uma nota de pé de página.

Não há nada de romântico em ser esquartejada, ou sufocada até a morte, ou executada com um tiro na cabeça, ou eletrocutada. Muito menos por alguém que supostamente deveria te amar. Crime passional não existe, temos que parar de usar essa expressão.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 10h27
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Na Copa, seleção favorita é ameaçada por uma mulher

 

Desde a semana passada a jornalista Sara Carbonero vem sendo acusada de atrapalhar o desempenho de seu namorado, o goleiro da seleção espanhola Iker Casillas.

Segundo a imprensa e a torcida, ela seria a grande culpada pela distração de Casillas na derrota da Espanha para a Suíça por 1 a 0, logo na estréia na Copa do Mundo. E apesar dos apelos do técnico do seu país, lá estava ela de novo na cobertura do jogo contra Honduras.

“Como jornalista, ela deveria saber que não pode se envolver emocionalmente nas histórias que são relatadas. Se quiser ser uma grande profissional, não deve se deixar tentar pelas práticas ruins do jornalismo", declarou o jornalista Fernando González Urbaneja, presidente da Associação de Imprensa de Madri.

Não conheço a moça, claro, nem assisto à TV espanhola, mas fiquei impressionada com tamanha virulência e preconceito. Afinal, se o goleiro estava lá, fazendo o seu trabalho, Sara também. Por que um é mais importante que o outro? Sim, claro, ele representa toda uma nação, mas rigorosamente falando, são dois empregos e só.

Além disso, pelo que vi das fotos da cena, ela estava no exato local onde fica o resto da imprensa, com um microfone na mão e falando para a câmera e de costas para o campo. Como então ela poderia influenciar o goleiro? Só pela sua simples presença, mais próxima que o resto da torcida por força das circunstâncias? Bom, se for isso, realmente quem precisa rever as escolhas profissionais é Casillas, pois um goleiro distraído não serve a ninguém.

“Eu posso desestabilizar o time? Acho que isso não faz o menor sentido", disse Sara. De fato. Lembremos que a Espanha era considerada uma das favoritas da Copa por viver um momento extraordinário no futebol europeu. Dessa forma, se há algum problema no time deve ser em função de um fator interno, e não externo: no limite, goleiro fora, existem outros 10 jogadores que também não estão cumprindo o seu papel. Mas é mais fácil, inclusive para o técnico, achar um bode expiatório, do que admitir a má fase.

Há ainda outro ponto relevante nessa questão: Sara é considerada uma mulher muito bonita. Foi até mesmo eleita uma das jornalistas mais sexies do mundo. Se achassem ela feia, a reação seria a mesma? Provavelmente não. Uma jornalista com seios menores, espinhas na cara e mais gorda não chamaria a atenção do goleiro, certo?

Amanhã a Espanha enfrenta o Chile pela classificação nas oitavas de final. No seu cangote está a Suíça, brigando pela vaga gol a gol. Espero que Sara esteja lá, cobrindo a partida e exercendo sua função de jornalista.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 09h24
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Como vamos ficar sem Saramago?



Comprei meu primeiro livro de José Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”, movida pelo título. Meu avô materno perdeu a visão completamente no começo da década de 1970 e sua condição sempre foi motivo de preocupação e curiosidade para mim.

Quando eu era pequena, costumava andar alguns metros com os olhos fechados para tentar entender minimamente sua situação. Em vão, claro. Demorou alguns anos para eu compreender de fato o que havia ocorrido com ele: meu avô sofreu um descolamento de retina ao bater a cabeça no batente da porta de um carro e nenhuma cirurgia conseguiu reverter o problema. Resignado, ele nunca reclamava, mas sempre se mantinha esperançoso. Até o final, cogitava a possibilidade de se oferecer como cobaia para as operações mais mirabolantes de que tinha notícia, com a expectativa de recuperar o sentido perdido.

Ao ler o “Ensaio sobre a cegueira”, porém, consegui muito mais respostas do que eu esperava. Não me dei conta apenas das dificuldades básicas de alguém que, de repente, pára de ver o mundo: tive também uma nova percepção da natureza humana. Saramago, como uma metáfora simples e direta, nos mostra como estamos perdidos em meio à cegueira individualista. “Será que encontraremos uma saída coletiva para a luz, como seus personagens?”, me perguntava, angustiada. (A angústia permanece, devo dizer)

Minha avó costumava brincar que era bom mesmo meu avô ter perdido a visão, assim não acompanharia o envelhecimento deles. Mas ele nunca foi velho, assim como Saramago. Não era de esquerda como o escritor português, é verdade. Viu a República Tcheca sofrer sob o stalinismo e não conseguia dissociar a teoria socialista daquela prática terrível. Mas ainda que em campos quase opostos, ambos não deixaram de acreditar em dias melhores, uma das qualidades mais incríveis do ser humano.

Diante da última crise econômica mundial, Saramago escreveu em seu blog, em 7 de abril de 2009:

“A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras. E agora, que temos? A crise. Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?”

Genial, atual. Como vamos ficar sem Saramago? Como vamos enxergar o que não conseguimos ver?



Escrito por Maíra Kubík Mano às 10h52
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Aborto é legalizado na África do Sul



A África do Sul tem uma população de cerca de 50 milhões de habitantes; 40% deles vivem abaixo da linha de pobreza, com menos de US$ 1 por dia. Três de suas cidades – Joanesburgo, Ekurhulen e Buffalo City – encabeçam o ranking de piores distribuições de renda do mundo.

Ou seja, lá quem é rico é muito rico e quem é pobre é muito pobre. E como em todo país com realidade semelhante, o acesso ao sistema de saúde é algo que melhora conforme seu saldo bancário.

Mas ao menos no que diz respeito ao aborto, essa situação mudou desde 1996: foi aprovada então uma lei de descriminalização que permite às mulheres interromper voluntariamente a gravidez até a 20ª semana de gestação.

Antes da legalização, aproximadamente 200 mil abortos precários eram feitos anualmente no país, a maioria por mulheres negras e pobres, que resultavam em cerca de 45 mil internações por seqüelas e mais de 400 mortes. O Choice on Termination of Pregnancy Act permitiu reduzir em 90% as mortes maternas e teve como alvo as mulheres negras e pobres.

As restrições, ao que me parece, são bastante razoáveis. Até a 12ª semana, a interrupção da gravidez pode ser realizada independente da motivação. Da 12ª até a 20ª semanas é preciso que a mulher dê alguma justificativa de alterações em sua saúde física ou mental ou alegue problemas econômicos para que o Estado autorize o processo. Ainda nesse período, outros motivos considerados pertinentes são a gestação decorrente de incesto ou estupro – este último bastante freqüente na África do Sul, que conta com altos índices de violência – e problemas graves no feto.

É claro que, como já repeti inúmeras vezes aqui, o aborto não é uma solução fácil e muito menos pode ser usado como método contraceptivo. Mas é fato que a situação na África do Sul é complexa demais. Em um país onde o presidente Jacob Zuma já sofreu acusações de estupro e disse que é possível evitar a Aids com uma “chuveirada” após o sexo – sendo que 11% da população tem o vírus –, partimos de uma perspectiva bem difícil. Somando-se a isso a pobreza em que vivem milhões de pessoas, sem acesso a luz elétrica e água encanada, percebe-se que a legalização do aborto é realmente uma questão de saúde pública. E que pelo menos nisso a África do Sul é um exemplo.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 10h53
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Maíra Kubík Mano é jornalista e professora do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp. Foi editora do jornal Le Monde Diplomatique Brasil e editora-assistente da revista História Viva, além de trabalhar como freelancer para vários veículos de comunicação. Tem pós graduação em Gênero e Comunicação no Instituto Internacional de Periodismo José Martí, em Havana, Cuba. Visite meu site: www.mairakubik.com

 

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