Pelos poderes de Grayskull, Dilma!



Há muito tempo, quando eu ainda era criança e a Mara Maravilha apresentava programas infantis com saias micro e sem qualquer viés religioso, um dos desenhos mais populares da TV era He-Man. E junto com ele, ainda que com menor destaque, She-Ra.


Dia desses me lembrei dela e pensei o quanto foi importante para a minha infância ter uma mulher na pele de heroína. Enquanto na maioria dos desenhos as representantes do sexo feminino – sempre baitas gostosas – eram resgatadas pelos super-heróis fortes e destemidos, She-Ra tinha lá seu brilho próprio.

Claro, existem outras personagens, mas eu me lembro vividamente desta. Espada em punhos, ela se impunha em Ethéria. Sim, as roupas eram minúsculas e o corpo, de Barbie – leia-se cintura fina, peitos grandes, cabelo loiro. E enquanto o He-Man invocava a força, a palavra de ordem de She-Ra clamava pela honra. Não se pode ter tudo nessa vida, né?

Fico refletindo que, se isso teve tanto impacto para mim, imagine o que deve simbolizar para uma menina de cinco ou seis anos ter uma mulher na Presidência da República! No mínimo, ela vai olhar para Dilma Rousseff e pensar que o mundo (mal sabe...) já é igual. Afinal, se uma mulher chegou a esse cargo, quando crescer ela também poderá. Incrível, de fato.

Resta saber se manteremos viva a percepção dessa importância, independentemente dos rumos do governo. Sei que é praticamente impossível, mas gostaria muito que, nos próximos quatro anos, o debate político se desenrolasse em torno do governo em si, e não do fato de termos uma mulher na Presidência – já posso imaginar os comentários machistas e maldosos que vão atribuir ao gênero feminino qualquer deslize, erro ou equívoco. Assim, quem sabe, preservaremos no imaginário a certeza de que é possível, para homens e mulheres, ocupar espaços diversos e plurais. O que eles farão lá é outra história.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 13h16
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Porque presidenta

 

Na próxima semana, uma reunião no Palácio do Planalto deve bater o martelo se Dilma Rousseff será chamada de "presidente" ou "presidenta". Pode parecer uma diferença insignificante para muitos, mas não é.

A começar que tem gente que acha que o termo é errado. Na verdade, em bom português pode-se utilizar as duas formas, sendo presidente a mais usual porque é um substantivo comum de dois, definido pelo artigo precedente. Ou seja "a" ou "o" presidente, como "a" ou "o" jornalista.

Acontece que jornalista não é o mesmo que Presidente da República. Enquanto as redações têm a maioria de mulheres – não em cargos de direção, faz-se a ressalva – e essa palavra, de fato, terminar com "a", o feito de Dilma é único na história da democracia brasileira.

Utilizá-lo com "a" é, portanto, ressaltar isso. É bem possível que o estranhamento inicial seja, aliás, não só por conta de colocar o termo no feminino, mas também por termos uma mulher governando o país.

“A língua não é neutra e reflete a relação dos sexos na sociedade e a posição da mulher nesta relação. A língua é o espelho no qual a sociedade se reflete. O predomínio do masculino na sociedade significa que o masculino determina o uso da língua. De fato o gênero masculino tem prevalecido sobre o feminino. A linguagem sexista ocorre quando uma pessoa emite uma mensagem que, por suas formas, palavras ou pelo modo de estruturá-la resulta em discriminação por razão do sexo”, afirma a pesquisadora argentina Sonia Santoro.

Não é à toa que lá, onde essa discussão está em outro patamar, Cristina Kirchner é chamada de “presidenta” do país pelos meios de comunicação porque assim o quis desde o início de seu governo. Ela simplesmente pediu para que fosse assim.

Dilma já declarou, segundo assessores, que prefere ser presidenta. Espero que continue assim. E que comece seus discursos com "brasileiros e brasileiras" porque não, eu não me sinto representada quando ouço apenas o plural masculino.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 09h40
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Maíra Kubík Mano é jornalista. Doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp, estuda a relação entre a mídia e as mulheres. Foi editora do jornal Le Monde Diplomatique Brasil e editora-assistente da revista História Viva, além de trabalhar como freelancer para vários veículos de comunicação. Tem pós graduação em Gênero e Comunicação no Instituto Internacional de Periodismo José Martí, em Havana, Cuba.

 

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