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Por que nos calamos?
Noite de quarta-feira. Calor, umidade, ventania. Pouca iluminação nas ruas. Um grupo de amigos recém saído de um bar espera o ônibus conversando animadamente. Já é quase uma da manhã e o ponto está lotado. A essa hora, o transporte público opera em sua capacidade mínima. Um toque de recolher imposto pela dificuldade de locomoção.
Quando o ônibus finalmente chega, todos entram ainda engrenados no papo. Mas lá dentro também está cheio, bem cheio, e o grupo é obrigado a se dividir para ocupar os poucos espaços livres que restam. Em pé, claro.
Ponto vai, ponto vem, e o aperto piora. Já não há muito mais como se mexer. Ela sente seu corpo pressionado por outros, mas continua se esforçando para ouvir a história da amiga que havia terminado com o namorado.
De repente, uma mão ligeira aperta seu traseiro. Ela fica em silêncio. Duvida de si mesma. Não é só impressão? Deve ser um engano. Repleto de gente assim, alguém certamente estava tentando se mexer e acabou com a palma onde não devia. E, além de tudo, tinha bebido uma latinha de cerveja, talvez não estivesse com os sentidos tão apurados.
Mais silêncio.
Ou foi intencional? Será que alguém realmente se aproveitou? Olha para os lados, buscando achar algum culpado. Vê na ponta do corredor um homem olhando para ela e tentando abrir caminho entre os passageiros. Teria sido ele?
Começa a acreditar que sim, aquilo realmente havia ocorrido. E se sente envergonhada, violada. Deveria falar? Falar o quê? Que ninguém tem o direito de mexer no seu corpo, oras! Que a bunda é sua, e aquilo era uma violência! Mas o timing já não tinha passado? Essas coisas não se deve falar na hora que elas acontecem? E se não fosse aquele sujeito o responsável, faria uma falsa acusação?
Olha novamente para o homem. Ele está bem próximo de uma outra mulher, com suas calças encostadas em um banco e com as mãos se aproximando das dela. Pensa em alertá-la, interromper seja lá qual plano ele tinha. Ele percebe e vira de costas. A porta se abre e ele desce correndo.
Ela fica muda. Ainda muda. Tem vontade de ir atrás do cara e dizer que espera que sua filha não tenha que passar por uma situação dessa. Será que ele tinha alguma filha? Ou pior: se sensibilizaria com isso? E tinha sido ele mesmo ou era tudo fruto de sua imaginação?
Sente nojo, de si e dele.
Resolve não contar a história para os amigos que estão no ônibus. Não é fácil admitir a falta de reação, a perplexidade diante de algo que, infelizmente, já se sabe ser cotidiano. Fica triste consigo mesma. Não entende bem porque não confiou no que sentiu e não denunciou o homem. Ouvia história semelhantes o tempo todo, sabia o quanto isso era comum.
Mas se calou.
Até agora.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h54
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O aumento do pãozinho e o assassino de Vanessa
Na segunda-feira passada, o Jornal da Band – mas poderia ser de qualquer outra emissora – começou falando sobre o caso da policial acusada de extorsão que foi obrigada, por seus colegas, a ficar nua enquanto era interrogada. A matéria apresentou o episódio como abuso de autoridade e violência contra a mulher.
A notícia seguinte era sobre o assassinato da supervisora de vendas Vanessa Duarte e trazia detalhes de como o suspeito desejava sexualmente a vítima.
Dois blocos depois, o Jornal da Band apresentou uma pesquisa recém-lançada pela Fundação Perseu Abramo e pelo SESC que demonstra que a cada dois minutos uma mulher é agredida violentamente no Brasil. E, o que era mais surpreendente e foi destacado pelo âncora: esse dado melhorou! Há dez anos eram oito mulheres espancadas no mesmo intervalo de tempo.
Mas... será que as duas primeiras matérias não tinham nenhuma relação com a última?
Óbvio que sim. Só que o que acontece com o jornalismo brasileiro é que não estamos acostumados a ver essas pautas sob uma perspectiva de gênero. E, assim, acabamos não conectando uma coisa com a outra: se a violência contra a mulher têm ainda altos índices no Brasil, é claro que cria-se um clima de permissividade para cometê-la. E logo vemos casos de assassinato ou de situações constrangedoras, como a vivida pela policial.
Só que é preciso, cada vez mais, "ligar os pontos". Se não refletirmos sobre isso, dificilmente sairemos dessa porcentagem assustadora. No México e na Guatemala, por exemplo, a solução encontrada foi chamar as mortes de mulheres de "feminicídios", destacando assim sua origem no preconceito de gênero.
Aqui, por outro lado, seguimos deixando isso invisível nas notícias. E dando pouca importância para a mulher em geral. Logo depois da matéria sobre a pesquisa Perseu Abramo - SESC, o Jornal da Band noticiou o aumento do salário mínimo, em discussão no Congresso Nacional. Entrevistaram um político, homem, para comentar a questão. E sabe qual foi a fala da mulher? Foi uma dona-de-casa que analisava o quanto daria para comprar de pães com o crescimento da renda. Sem desmerecer seu papel, claro, mas por que um homem não poderia falar sobre isso? Ou só as mulheres freqüentam padarias? E por que não entrevistar uma deputada federal?
São nossos velhos hábitos jornalísticos que precisam mudar tanto quanto a violência física.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 09h31
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