Aluga-se um pai

 


Sim, essa é a nova moda na Rússia: alugar um pai. Depois dos maridos de aluguel, que no Brasil também são requisitados para pequenos reparos domésticos e funções como pregar um quadro na parede, as mulheres russas decidiram que poderiam usar um homem postiço para resolver a ausência da figura paterna.

A notícia saiu hoje na Gazeta Russa, publicada aqui pela Folha de S. Paulo. A preferência, segundo a reportagem, é por ex-soldados. A ideia é a seguinte: esses homens são pagos – e bem pagos – para um serviço de babá especializado, que pode incluir até mesmo fingir que são de fato os pais biológicos. Eles fazem tarefas básicas nos cuidados infantis: levar para a escola, preparar um almoço, brincar no parque.

Com isso, essas mães pretendem que as crianças tenham um referencial masculino, mesmo que por um curto período de tempo. Em um dos casos citados, a mãe disse ao filho que seu pai era espião e morava em Cuba, por isso nunca aparecia (!!!). Mas, notando a tristeza e rebeldia da criança, ela decidiu contratar os serviços de um pai de aluguel, que ficou por 4 meses ao lado do menino e, depois, quando o dinheiro acabou, voltou a “servir a pátria”. Não sei qual é o próximo passo do plano. Acho que ela provavelmente vai “matar” o pai – um desfecho bem freudiano, diga-se de passagem.


Cinismo à parte, esse recurso de alugar um pai tem um grande fundo psicológico. Para mim, é um grande e escancarado reflexo do que a psicanalista francesa Elisabeth Roudinesco diagnosticou como a “família em desordem”, e por isso chamou minha atenção. Esse, aliás, é o título de um de seus livros, que trata justamente sobre a perda da figura de líder da família pelos homens. O patriarcado, na visão dela, vem sendo substituído por inúmeras composições novas, como lares monoparentais e casais gays.

Nesse sentido, o aluguel me parece uma tentativa desesperada de algumas mulheres que, por uma ou outra circunstância, acabaram criando seus filhos sozinhas e, em um determinado momento, se viram precisando de uma figura de “autoridade” à moda antiga. Não estou aqui defendendo a ausência de pais, de forma alguma. Mas, ao ler essa notícia, penso que se trata de um retrato de nossos tempos: a mãe está mais empoderada, mas a família tal como a conhecemos, está despedaçando. E isso é uma questão que deveria inquietar todas as mulheres. É esse o caminho? O que vai substituir o formato até então em vigor? E indo além: é possível pensar em uma forma que prime pela eqüidade nas tarefas? Precisamos, afinal de um padrão?

Fica a reflexão de Roudinesco: “Se o pai não é mais o pai, se as mulheres dominam inteiramente a procriação e se os homossexuais têm o poder de assumir um lugar no processo da filiação, se a liberdade sexual é ao mesmo tempo ilimitada e codificada, transgressiva e normalizada, pode-se dizer por isso que a existência da família está ameaçada? Estaremos assistindo ao nascimento de uma onipotência do ‘materno’ que viria definitivamente aniquilar o antigo poder do masculino e do ‘paterno’ em benefício de uma sociedade comunitarista ameaçada por dois grandes espectros: o culto de si próprio e a clonagem?”



Escrito por Maíra Kubík Mano às 13h07
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Missa em Igreja deve ser considerada agenda oficial da Presidência?



Apesar da pneumonia recente, a presidenta Dilma Rousseff vai deixar Brasília em direção a Salvador para acompanhar uma missa de beatificação de Irmã Dulce, que ocorre amanhã.

Não quero aqui contestar a importância dessa religiosa e muito menos sua obra. Respeito sua herança e a crença católica. Mas, cá entre nós, essa é uma demonstração cabal de que o Brasil não é, de fato, um Estado laico.

Ou vocês já viram a presidenta participando de outras cerimônias religiosas relevantes, demonstrando assim a pluralidade de nossa nação. Já imaginaram Dilma em terreiro de candomblé, culto espírita, templo judaico, igreja ortodoxa, mesquitas e afins?

Difícil, não? Não é uma imagem muito recorrente. Nem nesse governo, nem nos anteriores.

Claro, há sempre a opção de não ir a uma missa católica em viagem oficial, mas acho que isso nem foi considerado. Afinal – e ninguém é bobo aqui – a religião é usada para a política, assim como a política para a religião – não podemos nos esquecer da última eleição, em que a descriminalização do aborto foi motivo de longos debates entre os candidatos.

Nesse contexto específico, precisamos ater-nos a alguns fatos: o Planalto está vislumbrando uma crise com a possível investigação sobre os bens do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. A presidenta, por outro lado, sofre com boatos sobre seu estado de saúde e a lentidão que isso acarretaria em suas ações. Qualquer marqueteiro diria para pegar o primeiro avião destinado a Salvador. E qualquer governante embarcaria nele.

Certamente tudo isso dito acima não é nenhuma novidade. E por que então eu fiz esse post? Simplesmente para o assunto não passar batido. Ontem assisti a uma palestra do filósofo esloveno Slavoj Zizek em que ele dizia para atentarmos sempre ao que está por trás dos fatos. É preciso manter um olhar permanente nas entrelinhas, segundo Zizek, para conseguirmos enxergar a ideologia a que estamos submetidos.

Tendemos a nos acostumar a ver presidentes católicos indo a cerimônias dessa mesma religião. Mas deveria ser assim?



Escrito por Maíra Kubík Mano às 09h52
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Vamos importar a Marcha das Vadias



“Essa menina é uma vadia, galinha”. Do outro lado da rua, uma conhecida caminhava com o namorado. “Ela já ficou com todo mundo”. Me impressiono com a afirmação: “É mesmo? Enquanto eles estavam juntos?”. “Não, não, ela estava solteira na época”.

É, a história poderia ser fictícia, mas é real – até já a narrei aqui no blog certa vez. Frases assim são mais do que comuns, sejam elas ouvidas ou – pior – ditas por nós.

“Vadia”, infelizmente, é um termo recorrente na boca de homens e mulheres. Serve para classificar alguém do sexo feminino de forma pejorativa a partir do nosso olhar julgador sobre essa pessoa. Pode ser por sua roupa, sapato alto, rebolado, passado amoroso, olhos verdes, tragédia familiar, vida acadêmica e profissional ou qualquer outra característica absolutamente arbitrária considera uma ameaça aos bons costumes.

Resolveu ir com um vestido curto na faculdade? Chame-se Geisy ou não, você será declarada como vadia. Transou com o cara no primeiro encontro? Vadia, disponível. Já teve mais de cinco namorados? Nossa, vadia! Foi estuprada? Mas como você estava se comportando? Você não deu brecha, não se fez de vadia?

Parece exagero, mas foi justamente dessa última situação que surgiu, no Canadá, a
SlutWalk (ou Marcha das Vadias). Trata-se de um protesto em resposta ao comentário de um policial, que orientou universitários dizendo: "Se a mulher não se vestir como uma vadia, reduz-se o risco de ela sofrer um estupro".

“O que é vestir-se como uma vadia?”, questionaram as canadenses. E saíram às ruas para dizer que agiriam como quisessem e vestiriam o que tivessem vontade. O movimento, que começou em Toronto, já chegou a mais de 50 cidades no mundo, entre elas Buenos Aires, Londres, Nova York e Johanesburgo.





Por que não fazermos uma aqui?

“Vadia” é uma das muitas palavra que simboliza a opressão sobre a mulher. Demonstra o quanto a sociedade quer que permaneçamos “obedientes”, dentro das regras básicas de convívio. Segundo aqueles que a empregam, não podemos agressivas, indiscretas e muito menos libertárias. Não devemos provocar a “desordem” com nossas atitudes.

É por isso que temos que importar a Marcha das Vadias! O Brasil precisa, com urgência, de um movimento como esse. No mínimo para contestar publicamente quem faz piada sobre estupro como quem fala do aumento do pãozinho francês. E, quiçá, para conseguir discutir de fato como, em pleno século XXI, a mulher ainda não é livre para fazer o que bem entender.


A primeira já está marcada: será em São Paulo no dia 04/06, sábado, a partir das 14h00 na Praça da República. Eu estarei lá, e você?



Escrito por Maíra Kubík Mano às 09h13
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]



 

 

Maíra Kubík Mano é jornalista e professora do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp. Foi editora do jornal Le Monde Diplomatique Brasil e editora-assistente da revista História Viva, além de trabalhar como freelancer para vários veículos de comunicação. Tem pós graduação em Gênero e Comunicação no Instituto Internacional de Periodismo José Martí, em Havana, Cuba. Visite meu site: www.mairakubik.com

 

Viva Mulher faz parte
da UOL Blogosfera

Histórico

 

Agora no Twitter...

Twitter Updates

    me siga no Twitter
     
    Outros sites
      Blog do Sakamoto
      Blog do IZB
      Brejeirices (Mariana Pires)
      O caderno de Saramago
      Canto de Olhares (Maíra Soares)
      Contrabandistas de Peluche (Ana Rüsche)
      Controvérsia
      Eternal Child (Pedro Leão)
      Guerre ou paix
      João Wainer
      Moda pra Ler
      Na Terra dos Vikings
      Politika etc.
      Pé na África
      Remídia
      Se vira nos (Quase) 30
      O Blog Terribili
    Votação
      Dê uma nota para meu blog