Ética jornalística não se aprende na faculdade


Quando entrei na faculdade li um livro chamado A regra do jogo, do jornalista Claudio Abramo. Trata-se de uma coletânea de artigos e colunas publicados por ele ao longo de sua carreira. Em um dos textos, Abramo dizia que a ética do jornalista era a ética do carpinteiro. Concordei logo de cara: de fato, ética é algo que nenhum curso superior pode imputar em alguém.

Me lembrei de novo desse texto ao saber que o Senado acaba de aprovar a chamada PEC dos Jornalistas, que traz de volta a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão. A proposta ainda terá um segundo turno e depois será remetida à Câmara dos Deputados.

Os argumentos para tal medida? O primeiro é justamente esse, da responsabilidade jornalística, que para mim não faz o menor sentido se pensarmos que ética e bom senso não vêm em algum chip inserido em estudantes universitários, mas são sim valores que se têm por toda uma vida. Nenhum banco de sala de aula vai impedir alguém de fazer uma matéria enviesada e mentirosa.

O que a faculdade de Jornalismo poderia ensinar então? Bem, a vivência universitária, seja lá qual for, é uma experiência extraordinária. Disso eu não tenho dúvida. Aprendi muito e todo esse conhecimento quiçá me faz uma jornalista melhor, ou no mínimo mais bem preparada. Contudo, muitas das técnicas ensinadas lá com certeza podem ser conhecidas na prática. Tanto que na minha não muito longa carreira, parte dos chefes que já tive aprendeu o jornalismo no calor das redações, ainda antes do golpe militar, sem um curso superior para legitimar sua autoridade no cargo exercido.

Isso, claro, sem mencionar nos comunicadores populares que encontrei Brasil afora, que exercem uma cobertura cotidiana de conflitos e angústias de uma maneira muito rica, detalhada, emocionada.

Mais um argumento central da PEC é o da proteção à categoria. Mas ser contrário à obrigatoriedade do diploma não quer dizer o mesmo que recusar qualquer regulamentação para a proteção dos trabalhadores em Jornalismo. É impossível trabalhar como jornalista e não saber que o processo de “pejotização”, ou seja, de pagamento via Pessoa Jurídica, sem contrato formal de trabalho via CLT, é uma realidade terrível. Só que para se resolver isso não é preciso ter 100% dos jornalistas diplomados, e sim encarar as empresas de comunicação de frente.

É nesse momento que o quadro fica bastante complexo. O jornalista torna-se então apenas mais uma peça de um tabuleiro do jogo midiático e é a hora de discutir que tipo de imprensa nós temos em geral. Dizem as más línguas que o diploma garante a qualidade da cobertura jornalística. Será mesmo? São os jornalistas que mandam na mídia?

Um outro Abramo, o Perseu, definiu em seu livro “Padrões de manipulação na grande imprensa” uma estrutura do que pensava ser a mídia. Segundo ele, “grandes e modernos órgãos de comunicação” brasileiros parecem-se efetivamente com partidos políticos na medida em que têm em suas linhas editoriais seus “manifestos de fundação” e suas “teses”; em seus manuais de redação, os “estatutos”; em suas sedes, os “aparatos materiais”; em seus chefes, diretores e editores, têm os “militantes”; em suas normas disciplinares e orientação editorial, as sanções e restrições da “linha partidária”; em suas sucursais e correspondentes especiais, as “células e núcleos”; em seus leitores ou telespectadores, têm o “eleitorado” etc. De acordo com Abramo, “essas analogias não constituem um mero jogo de palavras. Elas revelam um significado mais profundo do que as aparências normais indicam. Se os órgãos de comunicação não são partidos políticos na acepção rigorosa do termo, são, pelo menos, agentes partidários, entidades para partidárias, únicas, sui generis. Comportam-se e agem como partidos políticos. Procuram representar – mesmo sem mandato real ou delegação explícita e consciente – valores e interesses de segmentos da sociedade.”

Ao invés de adotarmos uma postura limitadora e limitada, impedindo que alguém que não fez um curso superior de Jornalismo possa exercer uma profissão absolutamente prática, deveríamos nos voltar para essas questões mais amplas e discuti-las não apenas com a categoria, mas com todos que são produtores e receptores da mídia. Não é pouca coisa refletir sobre como é feito e quem produz o telejornal onde boa parte da população se informa todos os dias.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 19h50
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Violência contra a mulher tem nome e autor

Claudia namorava o rapaz havia três meses. Ele era um pouco mais velho e freqüentava a mesma universidade que ela. Tinham amigos em comum e, assim que conviveram um pouco mais, começaram a sair. Era um par politizado, que debatia as questões do movimento estudantil, do aumento injusto de mensalidades, do imperialismo americano e do governo Hugo Chávez.

Certa noite, eles discutiram no apartamento de Claudia. Estavam sozinhos. Ele tentou impor sua opinião, ela não aceitou. Tapas na cara, arranhões. Claudia no chão. Ele pegou então o fio do telefone e começou a enforcar a estudante. Queria sufocá-la até a morte. Parou um pouco antes disso, deixando Claudia devastada.

Aconteceu na PUC-SP, no início dos anos 2000, quando eu cursava Jornalismo. O nome dela, claro, não era Claudia, mas apenas isso foi inventado.

Surras, estupros, afogamentos, facadas, bofetadas, humilhações, assassinato. A violência contra a mulher é cotidiana. A cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas em nosso país. E a maior parte dos casos ocorre dentro de suas próprias casas, pelas mãos de seus maridos, namorados, pais e irmãos.

Persiste a noção de que a mulher é propriedade do homem e que, portanto, deve ser subjugada, domada e mantida dentro de um padrão de comportamento que este julgar correto. Sob tutela o tempo todo. Qualquer “erro” pode ser fatal, literalmente. Encarcerada dentro de sua própria pele.

(E ainda há quem ache engraçado o ditado “eu não sei porque estou batendo, mas ela sabe porque está apanhando” ou que conteste a importância de termos uma lei rígida como a Maria da Penha.)

Essa violência tem nome e gênero. Na América Central, os casos de assassinatos são denominados “feminicídios”, ou seja, cuja motivação e realização estão exclusivamente ligadas ao simples fato inexorável da vítima ser mulher.

E é preciso que aqui também comecemos, cada vez mais, a compreendê-los dessa forma. Sempre que a imprensa noticiar o cárcere privado de alguma de nós por um ex ou atual companheiro, como acontece com freqüência, este crime tem que ser associado à violência de gênero.

Quando um homem entra no salão de sua ex-mulher e cruelmente a assassina diante de câmeras de segurança, isso deve ser qualificado como feminicídio. Ela foi morta porque seu ex-marido achou que tinha o direito de fazer isso.

Não são crimes passionais, românticos, em nome do amor.

É preciso que isso seja dito para escancarar a vergonhosa situação de vulnerabilidade em que estamos. E para que não seja mais necessário, a cada ano, celebrar em 25 de novembro o dia mundial de combate à violência contra a mulher.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 15h51
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Mulher-laranja, um fenômeno brasileiro

Depois da mulher melancia, da pêra e de outras tantas, eis que brota um novo tipo de fruta: a mulher-laranja. Ela começa a aparecer nessa época do ano e dura mais ou menos até agosto seguinte, quando tem início o processo eleitoral.

O ambiente propício para ela se reproduzir é um partido que precisa cumprir a cota obrigatória de 30% de mulheres candidatas, mas que não militância nesse setor nem encara o empoderamento feminino como uma tarefa política.

E não são poucos, acredite.

Segundo levantamento feito pela Agência Brasil, em julho de 2010, das 130 coligações e partidos que inscreveram candidatos para concorrer à Câmara dos Deputados, 103 registraram menos de 30% de mulheres. Em pelo menos três situações, a quantidade de mulheres registradas pela legenda foi nula.

Acordos foram feitos, alguns nomes de homens cortados das listas partidárias ou, como no caso do Pará, em que a grande maioria não tinha atingido as cotas, deixou-se por isso mesmo.

No fim das contas, apenas o estado do Mato Grosso do Sul alcançou mais de 30% – precisamente, 30,55% – de candidaturas femininas para o cargo de deputado federal, segundo o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea).

Agora, com a corrida eleitoral para decidir as candidaturas a vereador/a e prefeito/a em 2012, o problema volta à tona e a solução vislumbrada por muitas legendas é apelar para a candidata-laranja. Ou seja, dá o nome, CPF e RG, mas não faz campanha.

Lamentável.

As cotas são uma política muito cara às mulheres. Foram introduzidas em 1995 pela Lei 9.100, proposta pela então deputada federal Marta Suplicy (PT-SP), que previa uma cota de 20%. A Lei 9.504 elevou a cota para 25%, para as eleições de 1998, e 30%, a partir de 2000. Porém, apenas no ano passado o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu fiscalizar para valer a medida.

A ideia, claro, era garantir a participação das mulheres na política institucional, algo que, infelizmente, sem esse estímulo forçado não seria possível fazê-lo com tanta rapidez.

Contudo, na prática os partidos não levaram a sério a medida e, ao invés de manterem estratégias cotidianas de aproximação, participação e formação política das mulheres, decidiram ir à caça de “tampões” às vésperas de cada processo.

Há casos extremos, como de funcionárias de diretórios partidários que foram convocadas a se candidatar sem ter qualquer atuação política ou militância. Coagidas, elas aceitaram com receio de perder o emprego.

É verdade que as mulheres têm reagido dentro dos partidos. Boa parte delas relata que há uma vontade de dar um “basta”. Até o PSDB Mulher fez uma Carta, em agosto desse ano, “recomendando que as vagas para mulheres somente sejam  preenchidas por aquelas que  efetivamente desejem ser candidatas, evitando a  figura da ‘candidata laranja’” [grifo meu].

E nos partidos de esquerda a incidência é menor, vale registrar, inversamente proporcional ao nível de conscientização política da militância. O PT adotou recentemente cota de 50% para mulheres nos cargos de direção, o que é um avanço importantíssimo se for de fato implementado.

Contudo, o fenômeno existe e persiste. E é preciso que as mulheres denunciem, critiquem e se oponham a essa prática, que ao contrário de incentivar a nossa participação na política, só coloca mais empecilhos. Afinal, a imagem que permanece é que não existiriam “mulheres suficientes” qualificadas ou dispostas, quando na verdade falta vontade política para reconhecer que já estamos engajadas e participando, que somos mais de 50% do eleitorado, mas que continuamos sub-representadas nos governos e parlamentos.

Em época pré-eleitoral, precisamos estar muito atentos/as para não consumir nenhuma laranja podre.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 19h47
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Maíra Kubík Mano é jornalista e professora do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp. Foi editora do jornal Le Monde Diplomatique Brasil e editora-assistente da revista História Viva, além de trabalhar como freelancer para vários veículos de comunicação. Tem pós graduação em Gênero e Comunicação no Instituto Internacional de Periodismo José Martí, em Havana, Cuba. Visite meu site: www.mairakubik.com

 

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