Matou a mulher. Facada mesmo.

 

“Meu irmão, não tem como ele sair não. Pô, todo mundo ficou sabendo. E logo antes ela disse que era verdade que ele era corno. Ele confessou, né. Não, não, não tem como ele sair. Ele trabalhava para uma juíza e ela até ligou pro delegado. Mas não teve como”.

O atendente da copiadora desliga o celular. Não resisto à curiosidade e pergunto se o tal da conversa tinha agredido a mulher.

– Matou mesmo, respondeu.

– Matou? Matou como?, indago

  Faca. Facada.

Engulo seco. “Ele não aguentou, né. Não conseguiu segurar a onda. E agora vai ser difícil sair”, comenta o atendente. Rebato dizendo que ele não deveria mesmo ser liberado, cometeu um crime.

“Pôxa, ele era lá da rua. Vizinho mesmo. Pessoa tranquila. De pessoa tranquila a gente não espera essas coisas, né. Agora nem com amiga juiz ele sai. Pronto, tão aqui suas cópias. Seis reais e cinquenta.”

Saio da copiadora pensando na vítima, na brutalidade de facadas em seu peito – em qualquer peito. Na violência contra a mulher, presente em todas as ruas, bairros, cidades, no campo. Pode estar em qualquer lugar, como um espectro apenas à espreita para agir. 

Respiro com um pingo de esperança ao lembrar da Lei Maria da Penha.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 08h57
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Maíra Kubík Mano é jornalista e professora do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp. Foi editora do jornal Le Monde Diplomatique Brasil e editora-assistente da revista História Viva, além de trabalhar como freelancer para vários veículos de comunicação. Tem pós graduação em Gênero e Comunicação no Instituto Internacional de Periodismo José Martí, em Havana, Cuba. Visite meu site: www.mairakubik.com

 

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