Após Marcha das Vadias, Facebook censura perfil de usuárias brasileiras


A Marcha das Vadias, realizada em diversas cidades brasileiras no último final de semana, teve como mote a liberdade. A liberdade para vestir, agir, ser, amar. Surgiu como uma resposta à tentativa de culpabilizar as mulheres por sofrerem estupros – como se usar saia curta ou decote fosse o problema, e não a violência sexual cometida pelo homem.

Dentro desse contexto de afirmação da liberdade e do corpo como um campo de batalha política, algumas manifestantes optaram por sair às ruas com os seios descobertos. Uma provocação, claro, para mostrar que a mulher não deve ser objeto de desejo 24 horas por dia, como querem as propagandas de cerveja.

A repercussão do ato foi grande, com fotos espalhadas por toda a internet, em especial em redes de relacionamento. O Facebook, mais do que presente na vida contemporânea, foi uma delas. Mas não a empresa não gostou do que viu.

Na mão contrária da manifestação, o Facebook compreendeu o que os corpos semi-nus eram pornografia (!) e  suspendeu os perfis de algumas usuárias brasileiras.

Publico abaixo uma nota divulgada pela jornalista Luka Franca, uma das censuradas:

No último dia 26 de maio foi realizada por diversas capitais brasileiras a Marcha das Vadias, manifestação que reuniu só em São Paulo milhares de mulheres contra a violência sexual e machista que existe em nosso país.

A manifestação teve cobertura da imprensa e de usuários de redes sociais em todas as cidades em que ocorreu a marcha, sendo que o principal palco para troca destas coberturas colaborativas foi o Facebook. Porém desde domingo algumas ativistas começaram a ser suspensas da rede social por postarem fotos de mulheres que estiveram nas marchas. Primeiro foi a fotógrafa carioca Ananda Luz, bloqueada ainda no sábado e na segunda pelo menos duas ativistas paulistas, a jornalista Luka Franca e uma estudante, também foram bloqueadas por postarem fotos suas de seios descobertos em seus perfis.

As imagens foram repostadas por outras pessoas, sendo que uma delas chegou a ter mais de 500 compartilhamentos de solidariedade, e também foram retiradas pelo Facebook.
Não é a primeira vez que a rede social retira fotos consideradas polêmicas. Em 2011 o Facebook tirou do ar diversas imagens de mães amamentando seus filhos, o que resultou em um mamaço virtual organizado por milhares de usuárias. Na semana passada nos Estados Unidos uma foto da usuária Joanne Jackson também foi censurada, desta vez por que mostrava a mastectomia de Joanne.As usuárias que foram bloqueadas contestam a ação imposta pelo Facebook e alegam que essa postura é contradiz a própria política de boa vizinhança da empresa, que estabelece o seguinte:

“O Facebook tem uma política rígida contra o compartilhamento de conteúdo pornográfico e impõe limitações à exibição de nudez. Da mesma forma, desejamos respeitar o direito das pessoas de compartilhar conteúdo de importância pessoal, sejam fotos de uma escultura, como Davi de Michelangelo, ou fotos de família da amamentação de uma criança.”

Entendo que a empresa tenha uma política que proteja sua rede, por exemplo, de pedófilos. Mas faltou um bom discernimento para compreender a diferença entre protesto e pornografia.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 08h55
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Um ano sem Maria e Zé Claudio: “por baixo do desmatamento, há muita gente sendo morta”

Maria eu não conheci. Nem Zé Claudio. Não deu tempo. José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foram cruelmente assassinados há exato um ano, em 24 de maio de 2011.

O crime ocorreu no assentamento extrativista Praia Alta Piranheira, em Nova Ipixuna (PA), onde eles viviam e lutavam para deixar a floresta em pé. Denunciavam sem pestanejar a extração ilegal de madeira dos lotes vizinhos e a derrubada de castanheiras, que Zé Claudio tanto amava – árvore protegida por lei, mas vulnerável pela economia da destruição.

Os tiros foram dados à queima-roupa, em uma emboscada. A sangue frio, com certeza, porque ninguém com sangue quente, correndo nas veias, seria capaz de tamanha crueldade.

Tudo no mesmo dia em que a Câmara dos Deputados votava e aprovava o novo Código Florestal.

Laisa sim, esta eu vi e ouvi de perto. Laisa é irmã de Maria, cunhada de Zé Claudio. Mais uma brasileira que acredita na preservação do meio ambiente. Mais alguém que se indigna diante das mortes de pessoas da sua família e de toda a estrutura que está por trás delas.

Laisa ousou questionar, levantar sua voz, e, assim como Zé Claudio e Maria, hoje está ameaçada de morte. “Vivo um dia de cada vez”, diz a professora, que mora no mesmo assentamento do casal morto e, com frequência, é obrigada a passar pelo local do crime, uma estradinha deserta e esburacada.

Ela relata alguns casos de intimidação: “Um menino estranho perguntou para o meu filho se a porteira da nossa casa ficava aberta ou fechada à noite. Outro dia, antes de ir para Nova York, uma criança de uns 14 anos entrou na escola, parou e ficou me olhando em pé, na porta, perto do quadro. Quando eu disse ‘oi’ para ele, ele saiu correndo e subiu numa moto onde estava um senhor”.

Às vésperas de mais um embate sobre o Código Florestal – o veto ou a sanção da presidenta Dilma Rousseff – Laisa vive, como disse Zé Claudio certa vez, “com a bala na cabeça”. Bastam dois neurônios para fazer a ligação desta triste ironia: enquanto os defensores da floresta morrem, o Brasil se prepara para matá-la.

“Amazônia é manchada de sangue”, disse Laisa na Organização das Nações Unidas (ONU), ao receber o prêmio “Heróis da floresta”. “E essa mancha continua se espalhando. Mas nossa situação torna-se cada vez mais grave porque o Novo Código Florestal Brasileiro votado pela Câmara dos Deputados, não favorece o povo que vive e defende a floresta. Essa mesma Câmara que vaiou no momento em que foi anunciado o assassinato de Maria e José Cláudio A presidenta Dilma não deve aprovar essa lei. Por baixo do desmatamento há muita gente sendo morta.”

Oxalá que ela não esteja entre essa gente. Mas ela já não está?



Escrito por Maíra Kubík Mano às 00h47
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Vadias somos todas nós

Recebeu cantada na rua? Só pode ser porque está vestida como uma vadia. Passaram a mão em você no ônibus? Vadia, se deu ao desfrute! Resolveu ir com uma saia curta na faculdade? Chame-se Geisy ou não, você será declarada como vadia. Transou com o cara no primeiro encontro? Vadia, disponível. Já teve mais de cinco namorados? Nossa, vadia! Foi estuprada? O que você fez para provocar isso? Que mole você deu?

“Vadia” é um termo recorrente em nossa sociedade. Serve para classificar alguém de forma pejorativa a partir do nosso olhar julgador. Pode ser por sua roupa, sapato alto, rebolado, passado amoroso, olhos verdes, tragédia familiar, vida profissional ou qualquer outra característica absolutamente arbitrária considera uma ameaça aos bons costumes.

“Vadia” é apenas uma das muitas palavra que simboliza a opressão sobre a mulher. Demonstra o quanto a sociedade quer que permaneçamos “obedientes”, dentro das regras básicas de convívio. Segundo aqueles que a empregam, não podemos agressivas, indiscretas e muito menos libertárias. Não devemos provocar a “desordem” com nossas atitudes.

E, pior: por sermos mulheres e termos um corpo com seios e vagina, merecemos ser assediadas, desrespeitadas, sofrer abusos psíquicos e violência física.

Foi para protestar contra essa situação que surgiu, no Canadá, a
SlutWalk ou Marcha das Vadias. A manifestação foi uma resposta às orientações de um policial durante uma palestra para universitárias: "Se a mulher não se vestir como uma vadia, reduz-se o risco de ela sofrer um estupro", disse ele. Indignadas com a postura do oficial, as canadenses saíram às ruas para dizer que agiriam como quisessem e vestiriam o que tivessem vontade.

O movimento, que começou em Toronto, já chegou a mais de 50 cidades no mundo, entre elas Buenos Aires, Londres, Nova York e Johanesburgo. E, claro, ao Brasil, onde a primeira manifestação ocorreu em 4 de junho de 2011 em São Paulo.

Por trás dessa mobilização, assim como do FEMEN, aquele grupo de feministas ucranianas que protestam com os seios de fora, está a intenção de mostrar que o corpo é um local de batalha política. É por meio dele que se constroem muitos preconceitos e se justificam as maiores barbáries.

Ninguém pode ser bem ou mal tratadx, ter maior ou menor liberdade, ser ou não estupradx em função de características físicas. Deveria ser óbvio dizer isso após processos tão dolorosos e grotescos como o apartheid. No entanto, a violência persiste, em seus mais variados formatos e faces e atinge grupos determinados: mulheres, negrxs, gays, lésbicas, transexuais, travestis e transgênerxs. É contra ela que várias cidades brasileiras realizarão a Marcha das Vadias no próximo sábado, dia 26/05. Porque vadias somos todas nós!


Confira o calendário:

 

Araraquara, SP
19 de maio de 2012
Local e hora: Teatro Municipal de Araraquara, 22h
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Brasília, DF
26 de maio de 2012
Local e hora: concentração no CONIC, 13h (próximo à Rodoviária do Plano Piloto)
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Belém, PA
27 de maio de 2012
Local e hora: Estação das Docas, 9h
Evento no Facebook

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Belo Horizonte, MG
26 de maio de 2012
Local e hora: Concentração na Praça Rio Branco (praça da Rodoviária), a partir das 13h.
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Evento
Twitter:
@slutwalkbh
Blog

Campo Grande, MS
26 de maio de 2012
Local e hora: a confirmar
Veja fotos da primeira Marcha de 2012
Mais fotos
aqui

Criciúma, PR
26 de maio de 2012
Local e hora: Praça Nereu Ramos (em frente a Casa de Cultura), 10h
Evento no Facebook

Curitiba, PR
- Ato Vadio
26 de maio de 2012
Local e hora: Reitoria da UFPR, das 18h às 22h

Florianópolis, SC
Dia 26 de maio
Local e hora: Concentração na Catedral (centro da cidade), a partir das 10h.
Evento no Facebook

João Pessoa, PB
9 de junho de 2012
Local e hora: Lagoa, 9h
Evento no Faebook

Natal, RN
26 de maio de 2012
Local e hora: Feira do Alecrim, 10h
Twitter da Slutwalk Natal

Página no Facebook


Macapá, AP
2 de junho de 2012
Local e hora: Praça Floriano Peixoto, 15h
Evento no Facebook 

Salvador, BA
26 de maio de 2012
Local e hora: Praça da Piedade, às 13h30
Evento no Facebook


São Carlos, SP
26 de maio de 2012
Local e hora: Praça Santa Cruz, 9h
Comunidade no Facebook

São José dos Campos, SP
26 de maio de 2012
Local e hora: Praça Afonso Pena, 10h
Fan-page no Facebook
Blog

São Paulo, SP
26 de maio de 2012
Local e hora: Praça do Ciclista, 13h
Evento no Facebook

Grupo no Facebook 

Porto Alegre, RS
27 de maio de 2012
Local e hora: Arcos da Redenção, 14h
Evento no Facebook
Grupo no Facebook

Recife, PE
26 de maio de 2012
Local e hora: Praça do Derby, 14h
Evento no Facebook

Rio de Janeiro, RJ
26 de maio de 2012
Concentração no Posto 4 da Av. Atlântica, a partir de 13h
Evento no Facebook

Veja fotos da Marcha das Vadias em 2011

Vitória, ES
26 de maio de 2012
Local e hora: UFES, 14h



Escrito por Maíra Kubík Mano às 13h03
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Maíra Kubík Mano é jornalista e professora do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp. Foi editora do jornal Le Monde Diplomatique Brasil e editora-assistente da revista História Viva, além de trabalhar como freelancer para vários veículos de comunicação. Tem pós graduação em Gênero e Comunicação no Instituto Internacional de Periodismo José Martí, em Havana, Cuba. Visite meu site: www.mairakubik.com

 

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