Sensacionalismo de gênero, o novo jornalismo da Paraíba

Corpos mutilados, sem roupas, com tarjas nos olhos. É assim que as mulheres vítimas de violência têm aparecido na imprensa paraibana. Aos olhos desapercebidos pode parecer um sensacionalismo qualquer de jornal querendo alavancar vendagem, mas não é: essas publicações têm um evidente recorte de gênero.

Não se trata apenas de usar deliberadamente uma imagem chocante – prática antiga e infeliz no jornalismo –, mas também de reforçar que a vítima é uma mulher, ou seja, uma pessoa que está propensa a sofrer violência pelo simples fato de pertencer ao sexo feminino.

Crimes como estupro, assassinatos por maridos e ex-companheiros, abusos de toda ordem por chefes, pais, tios e irmãos, entre outros, são crimes de gênero. Acontecem porque vivemos em uma sociedade onde os homens entendem que podem cometê-los. E alardeá-los na mídia com todos os detalhes e sem qualquer tipo de crítica só reforça a naturalização de ocorrências desse tipo.

Algo que nenhum veículo de comunicação minimamente responsável deveria fazer.

Cansadas de abrir o jornal e darem de cara com fotos grotescas, diversas integrantes de organizações de mulheres e feministas enviaram uma carta à imprensa paraibana.

“Entendemos que tais imagens (…) reforçam a humilhação das vítimas, no que diz respeito aos crimes de caráter machista ou de violência de gênero, e estimulam ou ao menos recompensam aqueles que os cometeram. A humilhação da vítima, seja para lavar a honra, seja para obter prazer (no caso dos estupros) é sim, e não podemos calar quanto a isso, um dos motivos que levam seus algozes a cometê-los”, dizem elas no documento.

No estado, segundo dados oficiais divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado, 73 mulheres foram mortas. O número de homicídios apenas até a metade deste ano supera o registrado em todo o ano passado, que foi de 41 mortes.

De acordo com a coordenadora geral do Centro da Mulher 8 de Março, Irene Marinheiro, em cerca de 70% dos casos de mulheres assassinadas, o autor do homicídio é um parceiro ou ex-parceiro da vítima.

Responsabilidade e ética. É isso que, com razão, as mulheres cobrando. Um jornalismo que não explore as vítimas de violência para vender mais exemplares.

Publico abaixo a íntegra de sua carta.

 

Carta à imprensa: repúdio à violência contra a mulher

João Pessoa, 25 de junho de 2012

Viemos através desta carta manifestar nosso repúdio a maneira que a imprensa tem noticiado os casos de violência contra a mulher no estado da Paraíba, em particular, sobre as imagens utilizadas para ilustrar as matérias.

Não podemos aceitar a maneira que as mulheres estão sendo expostas pela mídia, o que acreditamos reforçar ainda mais esta violência a que somos submetidas no dia a dia.  Entendemos que tais imagens, com corpos mutilados, sem roupas, com tarja nos olhos, entre outras, reforçam a humilhação das vítimas, no que diz respeito aos crimes de caráter machista ou de violência de gênero, e estimulam ou ao menos recompensam aqueles que os cometeram. A humilhação da vítima, seja para lavar a honra, seja para obter prazer (no caso dos estupros) é sim, e não podemos calar quanto a isso, um dos motivos que levam seus algozes a cometê-los.

A imprensa também colabora com a ideia de que a mulher precisa ser “protegida”, fazendo com que a sociedade insista na falsa ideia da fragilidade inerente ao nosso gênero.

Precisamos sim, ser protegidas, mas não por homens e pelo comportamento “correto”, que em muitos textos é reforçado como uma espécie de redutor da violência contra as mulheres, e sim por leis, igualdade e justiça. Também pelos veículos de imprensa, que tem que divulgar sim a violência contra a mulher, que vem alcançando índices alarmantes nos últimos anos.

Frisando, só em 2012, 73 mulheres foram mortas na Paraíba, segundo dados oficiais divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado.

Mas, lembrando, que a mídia é formadora de opinião, identidades e valores, e, portanto, deve prezar pela ética, o respeito a dignidade humana, e as leis que regem este país, fazendo valer a sua responsabilidade social.

Insistimos que não é preciso recorrer a comunicação do grotesco para informar qualquer fato. Além das imagens, a imprensa da Paraíba tem produzido textos que reforçam a discriminação contra a população pobre, principalmente quando noticiam mortes que supostamente podem estar relacionadas ao tráfico de drogas, ligando a morte das mulheres ao tráfico, e subjetivamente afirmando que “ela deveria morrer, pois significava um problema para a sociedade”. A apuração dos fatos, ouvir TODOS os lados envolvidos nos acontecimentos é lição básica que aprendemos na universidade e que não podemos esquecer.

No dia em que a professora universitária, Briggída Lourenço, foi assassinada, alguns veículos de comunicação da Paraíba veicularam imagens dela morta, deitada de costas no chão de seu apartamento e de outra mulher, que foi assassinada em Cabedelo. Tais imagens violam a privacidade e a integridade das vítimas e em nada contribuem para a denúncia da violência contra a mulher! Reforçamos: ÉTICA DEVE FAZER PARTE DO FAZER JORNALÍSTICO! A profissão tem um código de ética que deve ser observado e colocado em prática!

O uso destas imagens viola o artigo 5º, parágrafo X, da Constituição Federal que diz: “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”, e ainda  no mesmo artigo, parágrafo V, “é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além de indenização por dano material, moral ou à imagem”. Só para citar uma das diversas legislações brasileiras que preveem responsabilidades aos órgãos que violarem a imagem da pessoa.

Entendemos que qualquer continuidade nessa linha de jornalismo, que consideramos sensacionalista e ineficaz, além de ferir os nossos esforços na mudança e conscientização da população acerca dos crimes de gênero, como uma atitude a ser denunciada e combatida.

 

Assinam:

 

Marcha das Vadias

Cunhã – Coletivo Feminista

Coletivo Feminista Teimosia

Coletivo Feminino Plural

Geledés – Instituto da Mulher Negra

Articulação de ONGs de Mulheres Negras Brasileiras

Observatório da Mulher

Centro de Ação Cultural – CENTRAC



Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h15
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Para mostrar o corpo tem que ter peito

Seios à mostra, tambores nas mãos, gritos feministas na boca. A manifestação ocorreu no dia 18/06 e foi umas das que mais chamou atenção na Rio+20. Fotos de mulheres seminuas, batizadas de “musas” da conferência global, abundaram a internet e os jornais. Há quem diga que houve até proposta para posar na Playboy.

O fenômeno não é apenas carioca. Na Marcha das Vadias, realizada recentemente em várias cidades brasileiras, lá estavam eles também, os peitos. E na Eurocopa, com as ucranianas da Femen. E contra a ditadura da magreza, em Milão. E criticando o ex-diretor do FMI Dominique Strauss-Kahn na França. Mamilos saltitantes, de todas as cores e formatos, tamanhos variados.

A pergunta que não quer calar é “o que raios elas pretendem com isso?”

Bom, para começo de conversa, elas querem delimitar o corpo como seu território. O corpo da mulher não pertence a nenhum homem – seja ele marido, namorado, pai, irmão, cafetão – ou nenhuma outra mulher. Tampouco é espaço de exploração coletiva, seja sexual ou imagética-mercantilista. O corpo da mulher não foi feito para vender cerveja, refrigerante ou pneu. E nem para ser traficado internacionalmente. Muito menos para apanhar, sofrer estupro ou qualquer outra forma de maltrato.

Pertence a ela mesma e a mais ninguém. Pode ser tanto levado desnudo para uma manifestação quanto ter sua reprodução controlada, a despeito (desculpem o trocadilho) do que querem o Vaticano e o documento final da Rio+20. Não precisa ser excessivamente magro, como nas revista de moda, nem sem rugas, como determina a lei do Photoshop. Muito menos branco, com cabelos escorridos, loiros e de olhos claros. Pode usar saia curta e decote e não ser responsabilizado por “provocar” qualquer reação. Não têm que comer alimentos transgênicos, consumir tudo o que a televisão manda ou comprar um determinado estilo de vida para ser feliz.

Quando a mulher tira a roupa é para dizer que ela pode. Ela está se empoderando, tomando para si o seu destino. Sentindo na pele a sua autonomia. Gritando para os quatro ventos que não se enquadra nos padrões atuais.

Isso é bonito demais. É corajoso. E revolucionário.

(Post do território de maíra)



Escrito por Maíra Kubík Mano às 21h03
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Gabriela, retrato da opressão feminina

(post curto, mas grosso)

Gabriela, novela das 23h da Rede Globo, tem apenas dois capítulos, mas já dá mostras claras do que era a opressão às mulheres no início do século XX, época em que o folhetim se passa. O mérito, claro, é de Jorge Amado, cuja obra baseia esta ficção televisiva. E o demérito, da realidade que inspirou seu livro.

Mulher forçada a ter relação sexual com o marido sem qualquer direito ao próprio prazer. Mulher que é negociada em casamento. Mulher que foi abusada quando criança. Mulher que não pode dar sua opinião porque simplesmente não é considerada um ser pensante. Mulher objeto. Mulher que tem que ser virgem para ter valor.

Todas elas estão em Gabriela. E todas elas eram reais.

Será que, em certa medida, não continuam sendo? Ou vai me dizer que todas as mulheres estão livres de seus pudores e são bem tratadas na cama? Que conhecem e reconhecem um orgasmo quando o tem? Que as loiras deixaram de ser motivo de piada sem graça e foram reconhecidas por seu intelecto? Que não existem adolescentes sendo vergonhosamente usadas e abusadas pela sociedade, onde a autoridade e a força são identificadas com o masculino? Que nós não somos objetos em propaganda de cerveja e de carro? Que a virgindade feminina não continua sendo hiper valorizada pelos homens?

Quase 100 anos do cenário retratado no livro. Mais de 50 de seu lançamento. Gabriela, hê, meus camaradas.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 00h31
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Por um mundo plural

Vídeo: Por um mundo plural



Escrito por Maíra Kubík Mano às 15h11
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Maíra Kubík Mano é jornalista e professora do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp. Foi editora do jornal Le Monde Diplomatique Brasil e editora-assistente da revista História Viva, além de trabalhar como freelancer para vários veículos de comunicação. Tem pós graduação em Gênero e Comunicação no Instituto Internacional de Periodismo José Martí, em Havana, Cuba. Visite meu site: www.mairakubik.com

 

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