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Matou a mulher. Facada mesmo.
“Meu irmão, não tem como ele sair não. Pô, todo mundo ficou sabendo. E logo antes ela disse que era verdade que ele era corno. Ele confessou, né. Não, não, não tem como ele sair. Ele trabalhava para uma juíza e ela até ligou pro delegado. Mas não teve como”.
O atendente da copiadora desliga o celular. Não resisto à curiosidade e pergunto se o tal da conversa tinha agredido a mulher. – Matou mesmo, respondeu. – Matou? Matou como?, indago – Faca. Facada. Engulo seco. “Ele não aguentou, né. Não conseguiu segurar a onda. E agora vai ser difícil sair”, comenta o atendente. Rebato dizendo que ele não deveria mesmo ser liberado, cometeu um crime. “Pôxa, ele era lá da rua. Vizinho mesmo. Pessoa tranquila. De pessoa tranquila a gente não espera essas coisas, né. Agora nem com amiga juiz ele sai. Pronto, tão aqui suas cópias. Seis reais e cinquenta.” Saio da copiadora pensando na vítima, na brutalidade de facadas em seu peito – em qualquer peito. Na violência contra a mulher, presente em todas as ruas, bairros, cidades, no campo. Pode estar em qualquer lugar, como um espectro apenas à espreita para agir. Respiro com um pingo de esperança ao lembrar da Lei Maria da Penha.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 08h57
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Mulheres, sejam feministas!
A revolução das mulheres não tem mais volta. Ela penetrou tão profundamente na sociedade que não é mais possível nos dizer para, por exemplo, ficarmos trancadas casa. Ou não nos sentarmos sozinhas em uma mesa de bar. Ou nos casarmos virgens. Ou nos calarmos diante do estupro e de espancamentos. Ou abdicarmos de nossa independência financeira. Não, não é possível retroceder. Essa foi a revolução do século XX, já anunciou o historiador Eric Hobsbawm. E totalmente rizomática, para usar o termo cunhado por Gilles Deleuze e Félix Guattari. Como a grama ou a erva daninha, ela se espalhou e foi crescendo, horizontalmente, sem direção definida. Houve sim lideranças, precursoras, mas essa revolução foi muito além. É uma espécie de vírus que contagia e se multiplica. Não se sabe ao certo quem deu o primeiro espirro, mas a gripe passou. E contaminou o mundo inteiro. Uma cortou a saia, outra queimou o sutiã, 343 assinaram um manifesto pró-aborto. Trabalharam nas fábricas insalubres e superlotadas. Fizeram greves tão intensas que explodiram a Rússia em 8 de março de 1917, abrindo espaço para os bolcheviques. Morreram queimadas. Tornaram-se médicas, advogadas, jornalistas, presidentes, dirigentes de empresas, professoras universitárias. Pilotaram avião, caminhão e fogão. Atravessaram o Canal da Mancha a nado, foram à Lua, dirigiram um carro na Arábia Saudita. Se libertaram sexualmente, casaram-se com outras mulheres de papel passado. Escreveram, publicaram, filmaram. Viraram líderes espirituais de aldeia na Amazônia. Fizeram tribos africanas abandonarem a horrenda prática da mutilação genital. Reescreveram a história dizendo que sim, éramos protagonistas, mesmo que não tenhamos assinado tratados de guerra e paz. Não, não é possível retroceder. Mas onde é preciso avançar? A cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas no Brasil. Os estupros e os abusos são crimes que, em geral, ocorrem dentro das próprias casas. Ganhamos salários menores que os dos homens para ocuparmos os mesmos cargos – agora isso pode ser motivo de multa dentro da mesma empresa, menos mal. Ouvimos piadas machistas o tempo todo. Somos obrigadas a aturar cantadas nas ruas com medo de uma violência ainda maior. Não exercemos plenamente nossos direitos reprodutivos. Sofremos cotidianamente com a noção de que somos propriedade do homem e, portanto, podemos ser usadas a seu bel-prazer. Muitas de nós nunca tiveram um orgasmo. Ainda somos vendidas junto com cerveja e tudo mais que o mercado quiser. Temos receio de apanhar na avenida Paulista porque andamos de mãos dadas com outra mulher. Somos consideradas galinhas ou putas quando exploramos nossa sexualidade. Por que continuamos em uma realidade tão inóspita? A resposta é óbvia e simples: porque a sociedade segue sendo machista, apesar de todos os nossos avanços. Uma cultura tão antiga, que perdura há milhares de anos, não muda de uma hora para a outra ou de um século para o outro. É justamente por isso que, assim como o machismo, o feminismo continua vivo e atuante! O termo pode parecer surrado e ultrapassado, mas só para quem comprou o discurso de que já chegamos em nosso limite. E não, não chegamos ao topo. É preciso sermos feministas, todos os dias e todas as horas. A humanidade (e por que não outro nome? E se chamássemos humanidade, feminidade, transgeneridade, pluralidade?) ainda não experimentou viver em liberdade e igualdade, sem discriminações. E tampouco chegará lá se não nos mobilizarmos, não atuarmos, não transgredirmos. Mulheres, sejam feministas!
Escrito por Maíra Kubík Mano às 01h04
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Menos cirurgia, mais fantasia!
No Brasil, são realizadas 700 mil cirurgias plásticas por ano, com uma porcentagem crescente entre jovens de 18 a 24 anos. Segundo os médicos, o ápice acontece próximo ao Carnaval. Por quê? Bem, poderíamos começar visualizando a imagem que o Brasil tem no exterior: esta seria a terra da mulata com o corpo perfeito, que desfila em biquíni mínimo para os olhos de quem quiser ver, certo? A sensualidade tropical aflora a cada coco gelado nas areias de Copacabana, a praia mais famosa do mundo. Bundas e peitos para ninguém botar defeito! De onde saiu essa noção aparentemente deturpada? Não é apenas do olhar de fora. Assim como no Caribe, nós aqui também compramos e vendemos a ideia de um povo de sexualidade exacerbada e forma física generosa. Porém, não é nada fácil se encaixar em uma sociedade que valoriza em demasia os atributos naturais dos indivíduos. E como boa parte das pessoas não nasce com os padrões considerados ideais de beleza, a solução vista por muitos é voluntariamente se submeter a cirurgias plásticas. Cortar o corpo e modificá-lo! O resultado de todo esse contexto é que o Brasil é um dos campões mundiais desses procedimentos! Não, eu não sou radicalmente contra plásticas. Eu mesma já fiz (orelhas de abano, vejam só). Mas a necessidade que as brasileiras sentem de ter seios grandes e empinados não é algo que saiu apenas da cabeça delas. É decorrência de toda uma pressão social que, se não existisse, talvez não as levasse a se submeter a uma cirurgia. Aqui, no lugar de colocarmos uma fantasia para pular o Carnaval, nós fantasiamos o nosso corpo, nossa pele, e colocamos uma roupa de praia para exibi-lo! Bom seria se fosse ao contrário, não? E se ficássemos com essas formas mesmo que temos e nos transformássemos em outras pessoas apenas durante os blocos de rua? Será que conseguimos?
Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h06
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Eloá Pimentel, um crime de gênero
Sabe qual é uma das maneiras de evitar os crimes de gênero? Nomear aqueles que já ocorreram como um exemplo do que não deve se repetir. Eloá Cristina Pimentel foi assassinada pelo ex-namorado em 2008. Ele não admitia o fim do relacionamento e ela morreu simplesmente porque era mulher. Uma pesquisa realizada pelo Ibope há alguns anos dava conta que a principal preocupação das brasileiras era a violência, dentro e fora de casa. Ou seja, habitação, mercado de trabalho e custo de vida passaram longe do topo das estatísticas. Pudera: a cada 2 minutos, 5 mulheres são agredidas no Brasil. Segundo o DataSenado, a maioria dos agressores, 87%, é o atual ou um antigo marido/namorado. Com Eloá não foi diferente. (Talvez apenas pela cobertura midiática 24 horas por dia, exaustiva e muitas vezes sensacionalista). O motivo? Talvez ciúme. Segundo uma das definições do Aurélio, trata-se de um “sentimento doloroso que as exigências de um amor inquieto, o desejo de posse da pessoa amada, a suspeita ou a certeza de sua infidelidade fazem nascer em alguém”. Parece até poético, não? Porém, na maioria das vezes, o lirismo passa longe daqueles apaixonados que estão atormentados pelo sentimento de posse. Em situações extremas, leva até mesmo à morte. Talvez por isso, as outras duas explicações do dicionário para “ciúme” sejam “emulação, competição, rivalidade” e “despeito invejoso; inveja”. E não tem nada de romântico nisso. É funesto. Eloá, Eliza Samudio e Mércia Nakashima foram crimes de gênero. Eles decorrem da noção de que a mulher é propriedade do homem e que, portanto, pode ser tratada como seu dono bem entender. Esfaqueada, afogada, estrangulada, metralhada. No entanto, o que a mídia demonstra em sua cobertura – à época e atualmente, durante o julgamento – é uma total e absoluta descontextualização da situação vivida pelas mulheres. Tratam o caso como algo único, isolado do resto da sociedade, o que não é verdade. É preciso dar nome aos bois, como diz o ditado.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 00h20
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Mal-amadas somos todas as mulheres, inclusive a ministra
Quando alguém quer criticar uma mulher, dizer que ela é “mal-amada” é a saída mais fácil. Foi isso que fez o bispo de Assis (SP), dom José Benedito Simão, ao tentar desqualificar a nomeação de Eleonora Menicucci como ministra das Mulheres.
Ontem, em entrevista a um jornal de São Paulo, o membro da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) ainda afirmou que a nova ministra é “infeliz e irresponsável”. Ao invés de debater o posicionamento da Igreja católica sobre o aborto, absolutamente oposto ao de Eleonora, parte-se para ataques pessoais que beiram o ridículo de uma criança de 7 anos dizendo “você é feia e boba” para outra coleguinha. Mas com um baita preconceito de gênero por trás.
(Isso, claro, sem comentar o fato lamentável de a imprensa considerar legítimo e digno de fonte um argumento desses)
Utilizar a expressão “mal-amada” (ou “mal-comida”, na versão chula) significa partir do pressuposto que as mulheres navegam apenas pelo campo do irracional, dos sentimentos, do coração. Razão é exclusividade de quem pênis e é macho. Logo, é preciso um homem ao seu lado para ampará-la e mantê-la equilibrada. (Sim, homem, porque a nossa sociedade é heternormativa, infelizmente). Ser “mal-amada” significa que qualquer opção diferente de uma família papai-mamãe-filhinhos não é legítima. Bem-amado são os casados que procriam. E ponto. Se você está em uma situação diferente dessa e é mulher, cuidado! Corra para as normas, meu bem! Chamar uma mulher de mal-amada é um mito semelhante ao exagero da TPM (Tensão Pré-Menstrual), onde qualquer comportamento genioso, forte ou contundente é atribuído a hormônios que descontrolariam qualquer corpo. Como se ninguém pudesse ter personalidade e momentos de altos e baixos.
Nada de se admirar, vindo de uma instituição que durante a Idade Média queimou mulheres que eram lideranças nas comunidades ou prestavam serviços de curandeiras acusando-as de bruxaria. Se a ministra Eleonora é mal-amada por defender, racionalmente, seus posicionamentos políticos, então eu também sou.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h30
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Supremo e a Lei Maria da Penha: em briga de marido e mulher se mete a colher
“As agressões contra as mulheres não são questões privadas”. Pode parecer óbvia a fala do ministro Marco Aurélio de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), ao analisar, junto com seus colegas, que a Lei Maria da Penha deveria ser válida mesmo sem manutenção da denúncia pela vítima. Mas não é.
A cada dois minutos, cinco mulheres são espancadas no Brasil e, na maioria das vezes, o agressor está dentro da própria casa. Maridos, namorados, pais, irmãos. Aqui, o inimigo não mora ao lado, mas junto. Embaixo do mesmo teto, moram vítima e carrasco. Embaixo do mesmo teto, dormem os filhos dos dois. Esse teto, esse mesmo que eles vivem, foi construído pelo trabalho do casal e é a única moradia que tem. Como sair de uma situação dessas? Como culpar as mulheres que, depois de terem a coragem de denunciar os abusos sofridos, voltam atrás, para o lugar de onde saíram e que é sua referência de vida? Desconsiderar a situação amorosa, familiar, psicológica e econômica dessas mulheres é simplesmente fechar os olhos para uma realidade cruel. “Ah, ela gosta de apanhar” ou “está com ele porque quer” são frases que só podem sair da boca de pessoas que não compreendem os séculos de autoritarismo e submissão que foram (e ainda são) experimentados por metade da nossa sociedade. A decisão do STF que permite ao Ministério Público denunciar os agressores mesmo sem o aval das vítimas é histórica e absolutamente necessária. Basta ler a declaração da ministra Carmem Lúcia ao conferir seu voto: “Enquanto houver uma mulher sofrendo violência em qualquer lugar desse planeta, eu me sinto violentada. Digo isso porque, às vezes, tem gente que acha que uma juíza deste tribunal não sofre preconceito. Mentira! Sofre! Não sofre como outras, mas sofre. Já ouvi de uma pessoa que aqui não era lugar de mulher.” Se isso acontece com ela, uma das mulheres mais empoderadas do Brasil, imagine com o resto. “Em briga de marido e mulher não se mete a colher”, “um tapinha não dói” e “isso se resolve entre quatro paredes” são expressões que devem ser banidas de nossa sociedade. Elas são cúmplices da violência.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 00h13
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A Globo e a violação da Constituição Federal
No Brasil, a concessão para a radiodifusão é dada pelo Estado a determinadas empresas de comunicação. Entre elas, claro, a Rede Globo. A outorga é renovada a cada 15 anos pelo Congresso Nacional e nesse ínterim, a emissora deve seguir alguns preceitos ditados pela Constituição Federal. Destaco aqui o artigo 221 da nossa Carta magna, que acho particularmente elucidativo: “A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação; III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.” Esse último item me parece bastante adequado para uma reflexão sobre o que ocorreu no Big Brother Brasil recentemente. Eu sei que ética é um conceito filosófico amplo demais (quiçá até ao infinito ou às aulas da profa. Marilena Chauí sobre Spinoza), mas ao menos no que diz respeito a valores sociais, pode ser considerado um consenso que abuso sexual não é algo apoiado pelo conjunto das pessoas, certo? Assim espero, pelo menos. Dentro deste raciocínio, será que podemos presumir que a Globo talvez tenha violado um princípio constitucional que determina como deve ser a sua operação? E, mais rapidamente ainda, não poderíamos que talvez ela não tenha o direito de ter uma concessão pública uma vez que não segue as normas da casa? Afinal, não foi esse o argumento do jornalista Pedro Bial para justificar a expulsão do “brother” Daniel? Não sabe brincar, está fora! Posto aqui um link de um abaixo-assinado que exige que a Globo assuma a responsabilidade de encobrir um crime: http://www.change.org/petitions/globo-network-take-responsability-for-covering-the-rape-aired-in-one-of-their-shows O texto diz basicamente o seguinte: “Não queremos que o participante seja expulso e o programa, fechado. Queremos responsabilidade da Rede Globo, queremos que o estuprador seja levado à justiça, queremos que a Rede Globo deixe bem claro aquilo que nosso país teima em não ver: que estupro é sempre estupro, e estupro não pode ser admitido. Queremos que Monique tenha acesso ao vídeo, para que possa ser informada do que de fato aconteceu. Por favor, assine e repasse a petição, para mandar a mensagem à Globo de que isso não pode ficar como está.” É um ótimo começo, sugiro a adesão. Mas espero que possamos continuar a discussão e chegar ao ponto de repensar o que estamos transmitindo (e assistindo) em nossa televisão. Que tipo de estereótipos, crimes e preconceitos são cotidianamente reproduzidos diante de nossos olhos e com a nossa conivência?
Escrito por Maíra Kubík Mano às 14h41
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O “Boa noite Cinderela” do BBB
Abuso sexual. No mínimo, foi isso o que ocorreu na 12a edição do Big Brother Brasil. Os vídeos já foram tirados do ar pela Rede Globo, mas para quem viu, a cena é clara: depois de uma festa com muito álcool, uma das participantes, Monique, aparece jogada em uma cama. Ela está bêbada e praticamente inconsciente quando um outro “brother” (engraçado, meu conceito de irmandade nada tem a ver com isso) deita-se ao seu lado e, embaixo do edredom, começa a fazer movimentos que remetem a sexo. É óbvio que não é possível dizer se houve penetração, mas não há dúvidas de que pelo menos ela foi bolinada – e muito – em um momento em que não tinha condições de interagir. Monique fica simplesmente largada enquanto Daniel usa e abusa de seu corpo. E isso pode sim ser considerado estupro, por mais que Boninho e cia. tentem negar. Segundo o artigo 213 da lei 12.015, de 2009, é estupro “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. (E, pelo que me orientaram depois da publicação inicial do post, também é preciso mencionar o artigo 215, que fala sobre violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável na modalidade em que a vítima está impossibilitada, por outro meio, de oferecer resistência, e o artigo 217-A) Aliás, da maneira como ocorreu no BBB, me lembra até aquele golpe do “Boa noite Cinderela”, em que alguém põe um medicamento na bebida de outra pessoa até que ela quase desmaie e a estupra. Não é possível que tal situação grotesca, e ainda por cima transmitida ao vivo para todo o Brasil, passe incólume, como se nada tivesse acontecido! Isso é crime, pessoal! É preciso dizer com todas as letras que está errado o que ocorreu! Aquela mulher foi sim violentada em seu direito de preservar o seu corpo. E, a meu ver, a Rede Globo deveria ser a primeira a se colocar dessa maneira, denunciando e expulsando o participante, dando apoio à outra brother e mostrando para a sociedade que isso não pode se repetir. Só que, cá entre nós, não deve ser nada fácil admitir que essa situação ocorreu porque os executivos dessa emissora, em busca de audiência, decidiram colocar pessoas dentro de um esquema de confinamento, enchendo-as de álcool, para ver o que acontecia, não é? Como ratinhos de laboratório do comportamento humano. Deu no que deu. Imperou o machismo e a violência. E agora, pelo jeito, a condescendência. Lamentável, absurdo, surreal.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 19h56
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O SUS deve pagar pela retirada de próteses de silicone?
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou ontem (11/01) que o SUS (Sistema Único de Saúde) vai pagar a troca das próteses das marcas Poly Implant Prothese (PIP) e Rofil, nos casos em que houver risco de ruptura. Como já é sabido, essas empresas utilizaram silicone industrial em seus produtos, material que é impróprio para uso médico e de mais fácil rompimento, provocando danos sérios à saúde. Cada cirurgia custa entre R$ 6 mil e R$ 10 mil e a Anvisa estima que cerca de 24 mil próteses com problemas estejam em uso no Brasil. Ou seja, caso todas sejam trocadas, isso teriam um custo aproximado de R$ 240 milhões. Será que o governo brasileiro deveria arcar com isso? Há quem diga que não porque essas cirurgias teriam sido realizadas por motivos estéticos e, portanto, quem se submeteu a elas estaria ciente dos riscos. Bom, essa é um argumento com o qual eu não posso concordar. Uma questão é discutir a motivação para colocar silicone no peito, seja ela estética, psicológica ou simplesmente reparadora. Sim, vivemos em uma sociedade que hiper valoriza o corpo perfeito e muitas mulheres, se sentindo subjugadas e pressionadas a atingir esse padrão de beleza, entram na faca, o que sem dúvida é ruim. E ainda assim, é bastante complicado e autoritário dizermos o que uma pessoa deve ou não fazer com seu próprio corpo. Mas isso é completamente diferente de uma pessoa com a saúde em risco e que precisa de uma intervenção imediata, algo que não pode ser negado pelo sistema público de saúde. Afinal, apesar de ter colocado a prótese de maneira voluntária, a pessoa que fez a cirurgia foi enganada com o material utilizado e não tem culpa de estar nessa situação. Fico até chocada com quem defende argumentos contrários ao atendimento médico. Beira ao fascismo de decidir sobre uma vida que não é a sua. O direito à saúde é um direito humano. Aliás, essa lógica é tão perigosa que poderia negar tratamento aos dependentes químicos da Cracolândia. Afinal, eles compraram a primeira pedra de crack, não é?
Escrito por Maíra Kubík Mano às 16h03
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Um Natal desigual
Nessa semana tive que desocupar um armário do meu antigo quarto, na casa dos meus pais. O móvel foi atacado por cupins e também já não era sem tempo de eu rever toda aquela papelada, acumulada durante quase três décadas de existência. Provas do colégio, anotações das faculdades (no plural mesmo), revistas e jornais antigos. Tudo fora, para o catador que passa esporadicamente na rua. Dias depois, um dos porteiros do prédio me encontra e diz que achou R$ 10,00 em um dos sacos. Falo a ele não precisava devolver, nem contava com aquele dinheiro. Ele agradece e resolve se justificar: – Eu achei melhor dar uma olhada para ver se não ia nada errado fora, né? O faxineiro me disse que já tinha pegado tudo que prestava, mas quis ver mesmo assim. – Tudo que prestava?, pergunto, curiosa. – É, ele achou uns CDs. Me lembro então de ter mesmo botado no lixo três ou quatro CDs de instalação de programas de computador do final dos anos 1990. De repente, me bate um senso de realidade. Uma realidade que não é, mas também é, a minha. Continuo ouvindo o porteiro: – Minha filhinha queria comer no Mc Donalds esse final de semana, acho que vou levar ela lá com os R$ 10,00. Minha esposa reclamou, lógico, porque só a menina vai comer e a gente não. Mas vou levar mesmo assim. Sorrio, amarelo, e desejo então um bom almoço — seria de Natal? — e uma boa virada de ano. Sigo pela rua com cara de tacho, pensando no governo e no Brasil, o país do futuro-presente. Acesso ao crédito, salários maiores, desemprego menor do que nas grandes potências, PIB relativamente alto, apesar da crise global. Quem sabe, para 2012, seria bom deixarmos a euforia um pouco de lado e olharmos para a abismal desigualdade de renda que continua existindo em nossa sociedade.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 14h09
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Conferência Nacional de Mulheres aprova legalização do aborto
“Direito ao nosso corpo, legalizar o aborto!” Foi sob esses gritos, muito debate e polêmica que a 3a Conferência Nacional de Mulheres, encerrada ontem em Brasília, aprovou a proposta de legalização do aborto. Uma resolução, a meu ver, absolutamente coerente com o cenário brasileiro: em nosso país, quase 2 milhões de abortos são realizados por ano, sendo que 95% deles em situação de risco. As condições de ilegalidade em que as mulheres estão submetidas têm gerado, por ano, cerca de 800 mil internações nos serviços de saúde e provocado aproximadamente seis mil mortes maternas. O aborto inseguro é a quarta causa de mortalidade materna nos últimos cinco anos.
Diante desse quadro, legalizar esse procedimento apenas dar assistência a milhares de mulheres que veem nisso uma última alternativa. Não é justo que apenas as classes alta e média, que conseguem pagar R$ 2 mil ou R$ 3 mil, tenham acesso ao aborto seguro. O que está em discussão aqui não é nenhum absurdo: em todo o mundo 56 países já adotaram a legalização ou a descriminalização do aborto e outras 37 nações admitem IVGs por motivos econômicos ou de saúde mental e mais 36 aceitam a interrupção para preservar a saúde física da mulher, de uma maneira mais ampla. No total, são 93 Estados que, de forma menos restritiva, descriminalizaram o aborto, de acordo com os dados da associação Reproductive Rights. Algo em torno de 74,3% da população mundial.
Do outro lado dessa conta está o Brasil e outros 67 países que proíbem completamente a prática ou abrem uma exceção bastante limitada, como em caso de risco extremo para a vida da mãe e de estupro. Estes somam 25,7% dos habitantes do planeta, a maioria na África, América Latina e no mundo islâmico. Uma em cada cinco brasileiras já interrompeu ao menos uma gravidez ao longo de sua vida, por vontade própria, e as quase 3 mil delegadas da 3a Conferência Nacional de Mulheres simplesmente reconheceram essa situação.
Resta saber o que o governo vai fazer se a diretriz fizer parte do próximo Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, que supostamente aponta os rumos das políticas públicas para o setor. A ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), Iriny Lopes, já disse que o assunto é com o Congresso Nacional e tirou o time de campo. Ou seja, nem ela nem a presidenta Dilma irão mover uma palha sobre o tema. Enquanto isso, as mulheres continuam morrendo de aborto inseguro.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h36
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Conferência das Mulheres abre com promessa de Dilma: SPM fica
BRASÍLIA - A fila é enorme, e as mulheres já estão um pouco impacientes. Reclamam da longa viagem até Brasília e da fome – eram 19h e algumas ainda não tinham almoçado por conta de um sério problema de organização do evento. Mas também parecem felizes, satisfeitas. A espera para passar pelo rígido esquema de segurança armado no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, no coração da capital federal, é um sinal de que a presidenta Dilma Rousseff aparecerá por lá.
“Ouvi dizer que ela não participou de nenhuma outra Conferência esse ano, só a das Mulheres”, diz uma garota.
“Também, só faltava não vir! Logo para essa!”, retruca outra.
O auditório lota rapidamente, acomodando as diferentes etnias, formas, idades e origens das quase três mil pessoas que participam da abertura da III Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, nesta segunda-feira (12).
A expectativa se cumpre e, algum tempo depois, surge a presidenta, anunciada pela atriz global Dira Paes, cujo personagem na novela das 21h é de uma mulher que sofre violência doméstica. E é ovacionada: “olé, olé, olé, olá, Dilma, Dilma”, cantarolava boa parte das delegadas e observadoras.
Quando o coro se acalma, Dilma agradeca: “obrigado”. “Obrigadááá”, corrige uma participante assentada no fundo do plenário.
A presidenta inicia o discurso dizendo que aquela era uma das conferências mais importantes para ela “porque traz uma representação das mulheres desse país, demonstrando sua capacidade de agir, de participar, de se empoderar”.
Dilma lembra da posse, onde se comprometeu a representar dignamente todas as mulheres brasileiras. E continua: “Este é mais um passo na nossa luta. Somos mais da metade da população e temos uma imensa força porque somos capazes de gerar vida, somos responsáveis pela criação dos homens e mulheres desse país”.
Silêncio no auditório, poucas aplaudem. Talvez não fosse o lugar para louvar a maternidade como característica mais importante da mulher.
Dilma toca então em um dos pontos mais sensíveis do encontro: a boataria que toma conta dos meios de comunicação em Brasília, no contexto de uma reforma ministerial, segundo a qual a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), que hoje tem status de ministério, seria dissolvida em um futuro ministério dos Direitos Humanos, perdendo autonomia.
“Não há a menor veracidade nisso”, afirma a presidenta. “Nessas notícias não há verdade porque vamos continuar avançando e não vamos avançar sozinhas, mas junto com a secretaria, que defende a igualdade de gênero e é um instrumento fundamental para o governo”.
Na terceira fileira, algumas participantes guardam cartazes com dizeres a favor da manutenção da secretaria. Avaliam que o protesto não será mais necessário.
“Os debates aqui feitos subsidiarão o Plano Nacional de Mulheres”, lembra a presidenta, antes de encerrar elogiando o governo Lula e programas como o Bolsa Família, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf)-Mulher e a Rede Cegonha. Muitos aplausos.
Temas polêmicos A palavra escolhida por Dilma, “subsídio”, é importante para evitar o comprometimento em uma Conferência onde temas polêmicos como a legalização do aborto podem ser aprovados.
“Vamos fortemente pela legalização do aborto, reafirmando a decisão das conferências anteriores”, garante Sônia Coelho, militante da Marcha Mundial de Mulheres e representante de São Paulo. “Também esperamos avançar nas questões das políticas econômicas e de saúde da mulher e também esperamos que a secretaria saia fortalecida desse processo, como um ministério, o que é fundamental para a construção da autonomia das mulheres, ter mais recursos”.
Para Maria Fontoura, da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, “a expectativa é que avance a construção de políticas para o empoderamento das mulheres, em especial das mulheres negas, que são as pessoas em maior situação de miserabilidade na sociedade brasileira”.
Maria Fontoura, que vem do Rio Grande do Sul, reforça também algumas propostas concretas. “Queremos que a Lei Maria da Penha entre de fato em vigor, que a educação valorize mulheres de todas as etnias e que o trabalho e a renda chegue a um número maior de mulheres”.
Já Mara Araújo, de Porto Velho, de Rondonia, lembra a necessidade de pautar “a diversidade das mulheres pescadoras, ribeirinhas das negras e indígenas, para que elas tenham um espaço de poder”. Ela afirma que é preciso garantir oportunidades de emprego, via políticas públicas, para que essas mulheres possam trabalhar nas suas comunidades. “E acabar com a violência contra a mulher”.
Em entrevista à Carta Maior, Benedita da Silva, ex-governadora do Rio de Janeiro, se soma à defesa da Lei Maria da Penha. “Precisamos de mais equidade e de uma referência política onde as mulheres possam estar bem situadas. É isso que eu espero da Conferência”.
Muitos temas e demandas. Até quinta-feira (15), quando terminará o encontro, esses e outros assuntos, como autonomia econômica, política e social, mulheres jovens e idosas, gestão pública e enfrentamento a lesbofobia serão pautados por conferências, painéis e grupos de trabalho. Da plenária final sairão as diretrizes que vão pautar as políticas para as mulheres nos próximos anos. (Fonte: Agência Carta Maior)
Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h31
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Mas Aids ainda mata?
“Aids? Mas Aids ainda mata?”. Essa foi uma das perguntas que ouvi recentemente em uma oficina sobre sexualidade da mulher em uma escola pública estadual no bairro de Guaianazes, zona leste de São Paulo. A plateia era formada por meninas de 13 a 14 anos, justamente um dos grupos onde, segundo o Ministério da Saúde, o vírus mais cresceu nos últimos tempos. Aliás, segundo o Relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, a tendência do aumento da doença entre o público jovem é mundial. Em 2010, houve mais de 7.000 novas infecções por dia, dos quais 34% entre jovens de 15 a 24 anos. “Sim, Aids ainda mata”, respondi, um pouco surpresa. Tentei explicar a elas a gravidade da questão – havia também alguns meninos na sala –, mas como uma imagem vale mais do que mil palavras, baixei no celular uma foto do cantor Cazuza magérrimo e disse o quanto isso tinha me impactado quando eu era criança.
Até surtiu algum efeito, mas não convenceu. O fato é que não estamos mais nos anos 1980 e elas ficaram muito mais assustadas quando eu disse que sim, a primeira transa pode engravidar, do que quando em mencionei a Aids ou o HPV. O meu discurso pró uso da camisinha acabou resumido a um quadro complexo que pintei sobre elas sendo mães adolescentes e o quanto isso poderia ser prejudicial a realização de algumas conquistas almejadas. Talvez o avanço da Medicina e do tratamento tenha dado a esses jovens uma perspectiva real de cura, o que é ótimo, mas ao mesmo tempo se perdeu a dimensão do quanto é muito sério contrair esse vírus. O que podemos fazer para mudar isso? Bem, já é muito positivo que o sexo seja um assunto discutido abertamente e que possamos admitir o óbvio: que os adolescentes pensam – e muito – sobre isso. Mas eu fiquei com a sensação de que falta, e muito, acesso a informações consistentes, por mais que eles estejam muito mais plugados na internet do que gerações anteriores. Isso porque ouvi perguntas como “o uso de tampões internos tira a virgindade?” e “ o que é masturbação?”. Nada que as escolas brasileiras não possam suprir se pararem de discutir sexualidade como algo abstrato, mostrando o sistema reprodutivo em desenhos, e começarem a ouvir as angústias e dúvidas dos alunos. Por que não acabar com nossos tabus? Fica a sugestão nesse Dia Internacional de Combate à Aids.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h20
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Ética jornalística não se aprende na faculdade
Quando entrei na faculdade li um livro chamado A regra do jogo, do jornalista Claudio Abramo. Trata-se de uma coletânea de artigos e colunas publicados por ele ao longo de sua carreira. Em um dos textos, Abramo dizia que a ética do jornalista era a ética do carpinteiro. Concordei logo de cara: de fato, ética é algo que nenhum curso superior pode imputar em alguém.
Me lembrei de novo desse texto ao saber que o Senado acaba de aprovar a chamada PEC dos Jornalistas, que traz de volta a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão. A proposta ainda terá um segundo turno e depois será remetida à Câmara dos Deputados.
Os argumentos para tal medida? O primeiro é justamente esse, da responsabilidade jornalística, que para mim não faz o menor sentido se pensarmos que ética e bom senso não vêm em algum chip inserido em estudantes universitários, mas são sim valores que se têm por toda uma vida. Nenhum banco de sala de aula vai impedir alguém de fazer uma matéria enviesada e mentirosa. O que a faculdade de Jornalismo poderia ensinar então? Bem, a vivência universitária, seja lá qual for, é uma experiência extraordinária. Disso eu não tenho dúvida. Aprendi muito e todo esse conhecimento quiçá me faz uma jornalista melhor, ou no mínimo mais bem preparada. Contudo, muitas das técnicas ensinadas lá com certeza podem ser conhecidas na prática. Tanto que na minha não muito longa carreira, parte dos chefes que já tive aprendeu o jornalismo no calor das redações, ainda antes do golpe militar, sem um curso superior para legitimar sua autoridade no cargo exercido. Isso, claro, sem mencionar nos comunicadores populares que encontrei Brasil afora, que exercem uma cobertura cotidiana de conflitos e angústias de uma maneira muito rica, detalhada, emocionada. Mais um argumento central da PEC é o da proteção à categoria. Mas ser contrário à obrigatoriedade do diploma não quer dizer o mesmo que recusar qualquer regulamentação para a proteção dos trabalhadores em Jornalismo. É impossível trabalhar como jornalista e não saber que o processo de “pejotização”, ou seja, de pagamento via Pessoa Jurídica, sem contrato formal de trabalho via CLT, é uma realidade terrível. Só que para se resolver isso não é preciso ter 100% dos jornalistas diplomados, e sim encarar as empresas de comunicação de frente. É nesse momento que o quadro fica bastante complexo. O jornalista torna-se então apenas mais uma peça de um tabuleiro do jogo midiático e é a hora de discutir que tipo de imprensa nós temos em geral. Dizem as más línguas que o diploma garante a qualidade da cobertura jornalística. Será mesmo? São os jornalistas que mandam na mídia? Um outro Abramo, o Perseu, definiu em seu livro “Padrões de manipulação na grande imprensa” uma estrutura do que pensava ser a mídia. Segundo ele, “grandes e modernos órgãos de comunicação” brasileiros parecem-se efetivamente com partidos políticos na medida em que têm em suas linhas editoriais seus “manifestos de fundação” e suas “teses”; em seus manuais de redação, os “estatutos”; em suas sedes, os “aparatos materiais”; em seus chefes, diretores e editores, têm os “militantes”; em suas normas disciplinares e orientação editorial, as sanções e restrições da “linha partidária”; em suas sucursais e correspondentes especiais, as “células e núcleos”; em seus leitores ou telespectadores, têm o “eleitorado” etc. De acordo com Abramo, “essas analogias não constituem um mero jogo de palavras. Elas revelam um significado mais profundo do que as aparências normais indicam. Se os órgãos de comunicação não são partidos políticos na acepção rigorosa do termo, são, pelo menos, agentes partidários, entidades para partidárias, únicas, sui generis. Comportam-se e agem como partidos políticos. Procuram representar – mesmo sem mandato real ou delegação explícita e consciente – valores e interesses de segmentos da sociedade.” Ao invés de adotarmos uma postura limitadora e limitada, impedindo que alguém que não fez um curso superior de Jornalismo possa exercer uma profissão absolutamente prática, deveríamos nos voltar para essas questões mais amplas e discuti-las não apenas com a categoria, mas com todos que são produtores e receptores da mídia. Não é pouca coisa refletir sobre como é feito e quem produz o telejornal onde boa parte da população se informa todos os dias.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 19h50
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Violência contra a mulher tem nome e autor
Claudia namorava o rapaz havia três meses. Ele era um pouco mais velho e freqüentava a mesma universidade que ela. Tinham amigos em comum e, assim que conviveram um pouco mais, começaram a sair. Era um par politizado, que debatia as questões do movimento estudantil, do aumento injusto de mensalidades, do imperialismo americano e do governo Hugo Chávez. Certa noite, eles discutiram no apartamento de Claudia. Estavam sozinhos. Ele tentou impor sua opinião, ela não aceitou. Tapas na cara, arranhões. Claudia no chão. Ele pegou então o fio do telefone e começou a enforcar a estudante. Queria sufocá-la até a morte. Parou um pouco antes disso, deixando Claudia devastada. Aconteceu na PUC-SP, no início dos anos 2000, quando eu cursava Jornalismo. O nome dela, claro, não era Claudia, mas apenas isso foi inventado. Surras, estupros, afogamentos, facadas, bofetadas, humilhações, assassinato. A violência contra a mulher é cotidiana. A cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas em nosso país. E a maior parte dos casos ocorre dentro de suas próprias casas, pelas mãos de seus maridos, namorados, pais e irmãos. Persiste a noção de que a mulher é propriedade do homem e que, portanto, deve ser subjugada, domada e mantida dentro de um padrão de comportamento que este julgar correto. Sob tutela o tempo todo. Qualquer “erro” pode ser fatal, literalmente. Encarcerada dentro de sua própria pele. (E ainda há quem ache engraçado o ditado “eu não sei porque estou batendo, mas ela sabe porque está apanhando” ou que conteste a importância de termos uma lei rígida como a Maria da Penha.) Essa violência tem nome e gênero. Na América Central, os casos de assassinatos são denominados “feminicídios”, ou seja, cuja motivação e realização estão exclusivamente ligadas ao simples fato inexorável da vítima ser mulher. E é preciso que aqui também comecemos, cada vez mais, a compreendê-los dessa forma. Sempre que a imprensa noticiar o cárcere privado de alguma de nós por um ex ou atual companheiro, como acontece com freqüência, este crime tem que ser associado à violência de gênero. Quando um homem entra no salão de sua ex-mulher e cruelmente a assassina diante de câmeras de segurança, isso deve ser qualificado como feminicídio. Ela foi morta porque seu ex-marido achou que tinha o direito de fazer isso. Não são crimes passionais, românticos, em nome do amor. É preciso que isso seja dito para escancarar a vergonhosa situação de vulnerabilidade em que estamos. E para que não seja mais necessário, a cada ano, celebrar em 25 de novembro o dia mundial de combate à violência contra a mulher.
Escrito por Maíra Kubík Mano às 15h51
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