Guerrilha artística, feminismo criativo



Já que entrei no clima de propostas otimistas de fim de ano, uma iniciativa que vale a pena ser sempre citada é a das Guerrilla girls. Sediadas em Nova York, Estados Unidos, essas mulheres travam, desde os anos 1980, uma luta armada de criatividade.

Utilizando como símbolo uma máscara de gorila, elas protestam contra a exclusão feminina do mundo das artes de formas variadas e ousadas. Em uma de suas campanhas mais famosas – “As mulheres têm que estar nuas para entrar nos museus?” – as guerrilla girls denunciam a falta de artistas mulheres no acervo do renomado Metropolitan Museum of Art (Met):

 


Traduzindo: “menos de 3% dos artistas do Met são mulheres, mas 83% dos nus são femininos”.

De acordo com as garotas, a maior parte dos quadros e obras de arte produzidas por mulheres estão guardadas e raramente entram nas exposições permanentes ou itinerantes dessas instituições. “Exija que elas saiam do porão!”, bradam em seus cartazes.

Em outra frente de batalha, as guerrillas girls contestam a indústria cinematográfica americana por meio de outdoors espalhados pela cidade de Los Angeles. Segundo suas estimativas, Hollywood consegue ser menos progressista que o Senado dos Estados Unidos: enquanto este último tem 14% de mulheres, a primeira tem apenas 4% de diretoras.

Claro, sempre podemos alegar que as mulheres não escrevem tão bem ou ainda dedicam-se pouco à pintura e que, mais adiante, a desigualdade deve diminuir naturalmente. “Por crescimento vegetativo”, por assim dizer. Afinal, quanto mais mulheres por trás das câmeras, mais filmes serão feitos por elas e mais fácil será receberem um prêmio. Certo?

Bem, eu não acredito que essa lógica seja suficiente ou satisfatória. Para mim, é fundamental que as mulheres sejam imediatamente reconhecidas em todas as áreas que atuam, como uma maneira de identificar sua superação sobre séculos de opressão e ausência do espaço público. Trata-se de uma discussão bastante semelhante à da política de cotas para negros: é evidente que essas sempre serão medidas paliativas e que não resolvem o “xis” da questão, mas são necessárias para vislumbrarmos um futuro mais igual.

Nesse sentido, atitudes como a das guerrillas girls contribuem para encurtar o percurso até a raiz do problema. Quem sabe em 2010 não tenhamos uma presença mais contundente de guerrilheiras da arte no Brasil?



Escrito por Maíra Kubík Mano às 23h51
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Mulher e mídia para um novo ano



Pensei muito em como escrever um post de fim de ano. Uma retrospectiva que desse alguma vaga idéia do que foi 2009 para mim. Mas da morte de Michael Jackson até o golpe em Honduras, do fato de 1 bilhão de pessoas estarem com fome à candidatura de Marina Silva, da conferência de Copenhague à de Comunicação, dos 20 anos da queda do Muro de Berlim à sua reconstrução na Palestina, das mulheres que sustentaram a Lei Maria da Penha ao processo contra Dado Dolabella – que, aliás, ganhou R$ 1 milhão na Fazenda –, como escolher apenas alguns poucos acontecimentos?

Pensando no tema desse blog, ou seja, as mulheres e a mídia, preferi então listar cinco desejos muito simples que, se colocados em prática, já estariam de bom tamanho para um período tão curto como é um ano eleitoral. É quase um “manual de redação” com propostas bastante concretas, sem aquele espírito de promessa eterna de Réveillon. São elas:

1) Que toda a violência contra a mulher seja noticiada de forma abrangente, e não como um caso isolado;

2) Que a mídia nunca se refira a uma pessoa apenas como “a mulher de alguém”;

3) Que não haja nenhuma forma de exploração do corpo da mulher por meio de imagens e/ou texto, em circunstância alguma;

4) Que em toda reportagem pelo menos uma mulher seja consultada como fonte – de preferência não somente como personagem, leia-se a dona-de-casa que comenta o aumento do pão francês, ou como celebridade;

5) Que se adote uma linguagem com preocupação de gênero, ou seja, que as palavras sejam utilizadas tanto no masculino quanto no feminino.

Sei que vivemos tempos difíceis. Há, na verdade, poucas publicações que ainda despertam o meu interesse nas bancas – e entre elas não está o jornalismo diário, cada vez mais lastimável. Mas acreditando que é possível infiltrar o popular no hegemônico, como aponta o colombiano Jesus Martín-Barbero, entendo que o cumprimento desses cinco pontos básicos já seriam uma mudança contundente. Além de óbvia e necessária. Não é pedir muito, ou é?



Escrito por Maíra Kubík Mano às 23h30
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A tese da piada possível


Cansei de ouvir que sou sem graça por não dar risada de piadas machistas e homofóbicas. Mas continuo convicta de que é possível fazer humor sem reafirmar uma condição de opressão. Aliás, para mim, o mais engraçado é denunciar essas situações, desconstruí-las e desmontá-las.  

Por exemplo: ao invés de fazer piadas sobre homossexuais, por que não criticamos aqueles que se acham durões, fortes e que não podem nem ouvir falar em bandeira com arco-íris ou serem considerados pessoas “sensíveis”?

Destaco dois episódios da década de 1980 para ilustrar o que eu estou falando. Um é a “TV Macho”, onde Regina Casé interpreta uma torcedora espancada pelo marido e acha que ele está apenas “dando uns toques” quando bate nela. O quadro fazia parte da TV Pirata e já foi
postado aqui. Outro, veiculado pelos Trapalhões, explicita o preconceito contra os negros. É muito bom:



 

E isso não vale apenas para lorotas contadas em mesas de bar ou enviadas por e-mail. Se a mesma lógica fosse utilizada para o mercado publicitário, seria possível produzir peças interessantes sem “perder a piada”. Assisti hoje a um comercial da Kaiser produzido pela Agência Fischer que, se não fosse pelo “gostosa” no final e pelas roupas apertadas e decotadas das atrizes, poderia ser um exemplo de como melhorar a qualidade das propagandas de cerveja, com um roteiro irônico e inteligente.

 



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h29
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A hipocrisia sobre o aborto e a morte de Neide Mota

 

No início da semana, a médica Neide Mota, acusada de realizar cerca de 10 mil abortos em sua clínica no Mato Grosso do Sul, foi encontrada morta. Não se sabe ao certo se foi homicídio ou suicídio, mas pouco importa a conclusão da polícia. Foi a sociedade que acabou com sua vida, julgando suas ações antes mesmo do júri popular a que seria submetida.

Compartilho abaixo um editorial da Comissão de Cidadania e Reprodução (CCR), organização não-governamental fundada em 1991 e instalada desde então no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), e que tem como missão a promoção dos direitos reprodutivos. O texto foi escrito por Margareth Arilha, diretora executiva da CCR:


“Conheci Neide Mota pessoalmente em 2008, durante visita feita a Campo Grande por um grupo de mulheres feministas que visavam compreender a situação crítica que envolvia a invasão da Clínica de Planejamento Familiar de Campo Grande – da qual a médica anestesista era proprietária - pela polícia local. Tal ação ocorreu após veiculação de matéria pela Rede Globo local e demanda encaminhada ao Ministério Público por Deputados Federais, especialmente  Luiz Bassuma, líder da Frente Parlamentar em Defesa  da Vida – contra o Aborto e membro do Movimento Brasil sem Aborto, punido por seu ex-partido, o PT. O caso envolveu a médica  anestesista, outros profissionais, e muitas mulheres. Milhares de mulheres. Cerca de 10.000, que por mais de 20 anos recorreram a este espaço para solucionar o desejo de não ter filhos. Criticada por muitos e muitas, Neide era uma mulher, no mínimo, controversa e ousada. Afrontava o poder público, as autoridades locais, denunciava a hipocrisia de instituições e de personagens que, segundo ela mesma contava, não se furtavam a levar mulheres jovens  para sua clínica e pagar por abortos que os livrariam de situações públicas vexatórias, e/ou de compromissos éticos, morais e financeiros futuros. No mundo público a crítica ao direito de decidir. No mundo privado, o pagamento em cash.

O caso de Neide Mota e de sua clínica de planejamento familiar faz pensar. Neide, entre o Estado e o mercado, chegou a ser procurada para servir como referência e parceria  para a realização de abortos legais pelo SUS, o que a tiraria da clandestinidade e, de outro lado, estar envolvida e denunciar o desrespeito aos direitos humanos cometidos naquela cidade. A invasão de sua clínica suscitou perguntas que até o momento não estão totalmente respondidas: por que a visita sorrateira da Rede Globo àquela clínica naquele momento? Como foi possível tanta rapidez entre o programa televisivo e a demanda de ação por parte do deputado Bassuma em acionar o Ministério Público para denunciá-la? Por que tamanha exposição do processo que envolvia tantas mulheres, significando uma moderna degola de mulheres em praça pública? Como justificar a falta de disposição dos Conselhos Éticos de Medicina em mostrar irregularidades do poder judiciário ao não preservar a confidencialidade dos prontuários médicos recolhidos na clínica pela Polícia? Como esquecer que o poder Judiciário deixou durante algum tempo estes processos ao sabor do vento, sendo  manuseados livremente, tendo fichas eliminadas? Como esquecer que algumas mulheres foram “escolhidas” para servirem como “bois de piranha” e assim deixarem o campo livre para a construção do plano maior de aniquilamento da imagem pública de Neide Mota? Como justificar o recuo da Justiça e do Direito neste universo que criminaliza e mata mulheres?

Tudo indicava desde aquele momento que o que se desejava era uma ação exemplar. E foi assim, do começo ao fim. A morte de Neide Mota, capítulo final de outra novela da vida, vai ao ar praticamente ao mesmo tempo em que a rede Globo circula um novo sermão eletrônico, ou seja, capítulos de sua novela das 8 que incentivam a culpabilização de todas/os as/os telespectadores que chegarem a pensar no aborto como um direito. Parece um jogo metafórico e ideológico dos mais potentes.  

Novas formas discursivas entram em ação e se potencializam. Mídia, setores conservadores da Igreja Católica e de outras religiões dando as mãos, numa aliança “fraterna” e inequívoca, para impedir os avanços da autonomia sexual e reprodutiva, da liberdade e da solidariedade da população brasileira, particularmente de todas as mulheres.

Mas estão enganados senhores. As mortes de Neide e outras mulheres que sofrem com seus abortos clandestinos, só trarão maior visibilidade às injustiças que se cometem neste país. Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde, mais de trinta por cento das gravidezes no País terminam em abortamento, de modo que, anualmente, ocorrem aproximadamente um milhão e quatrocentos abortamentos inseguros - clandestinos ou espontâneos -, o que representa 3,7 ocorrências para cada cem mulheres de quinze a quarenta e nove anos. De acordo com o Ministério da Saúde, 250 mil é o número médio de mulheres internadas  anualmente em hospitais da rede pública de saúde para fazerem curetagem na região do útero após um aborto inseguro. A maioria delas é jovem, pobre e negra. A prática de abortamentos em condições clandestinas no Brasil tornou-se um grave problema de saúde pública, responsável pela quinta causa de mortalidade no país, a primeira causa dessas mortes em Salvador, desde 1990, e a terceira causa em São Paulo. O abortamento provoca mais mortes de mulheres negras (pardas e pretas) que de mulheres brancas, e seu peso, como causa de mortalidade, é maior nas faixas etárias das meninas até quinze anos e das mulheres entre trinta e trinta e nove anos.

Neide possivelmente iria a Júri Popular nos próximos meses, e quem sabe, talvez chegasse a usar de sua tribuna para falar, uma vez mais. Falar da hipocrisia nacional quando se trata de direitos reprodutivos, que a uns e umas tudo permite, e a outras, cala, mente e mata.”



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h43
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No dia mundial de combate à Aids, as mulheres não têm muito a comemorar



Eu me lembro de quando o Cazuza foi infectado pelo HIV. Em 7 de julho de 1990, data de seu falecimento, eu tinha apenas 8 anos e 1 dia, mas ainda consigo vê-lo magro demais, com aquelas faixas na cabeça. Eram imagens fortes. Àquela altura eu obviamente não poderia imaginar que o espectro da Aids estaria presente na vida sexual da minha geração, que cresceu junto com a descoberta do vírus e seus pormenores.

Hoje em dia, ao que tudo indica, o tratamento do HIV avançou e muito. As pessoas não soltam mais comentários como “acho que ele está com Aids” quando alguém fica magro demais e, de forma geral, se fala menos no assunto.

Isso, porém, não é necessariamente bom. Claro que entender o HIV como um vírus, como tantos outros que circulam por aí, ajuda a quebrar a barreira dos preconceitos, algo fundamental para enfrentar a questão. Mas ainda é preciso alertar sobre seus perigos e as formas de contraí-lo, o que, conforme indicam as últimas pesquisas, não parece ocorrer de maneira incisiva.

Nos últimos dez anos, a epidemia vem aumentando entra meninas. Segundo o Instituto Patrícia Galvão, na faixa etária dos 13 aos 19 anos, já são 10 meninas para 8 meninos infectados pelo HIV, enquanto na população em geral a relação é de 15 homens para cada 10 mulheres com a infecção.

Ao mesmo tempo, a ocorrência de Aids em mulheres com mais de 50 anos quase dobrou nessa década. De acordo com o Ministério da Saúde, 96,9% dos novos casos de infecção nessa faixa da população em 2007 foram causados por sexo sem preservativo. Em 1997, esse índice era de 88,7%.

Existem ao menos duas considerações a serem feitas sobre esses números. A primeira é de ordem sócio-econômica. Nos países ditos desenvolvidos, o índice de infectados é radicalmente menor do que nos demais. Tanto que, segundo o Unaids (Programa das Nações Unidas para HIV e Aids), as infecções caíram 17% de 2000 a 2008 em todo o mundo, enquanto que a América Latina registrou um crescimento de 13%  ao ano.

O segundo apontamento é que as estatísticas brasileiras evidenciam um problema de gênero: se mais mulheres heterossexuais estão contraindo Aids por fazerem sexo sem prevenção, é porque o uso da camisinha não está bem resolvido em nossa sociedade. Além de muitos homens exigirem ou pressionarem a parceira para não utilizar a proteção de látex porque “dá mais prazer”, as mulheres não têm tanto acesso à camisinha feminina, que poderia ser uma forma de decidir, digamos, sem o “outro” como se dará a relação.

Se é difícil argumentar a favor do uso de seringas descartáveis porque isso significa, para muitos, um “estímulo ao consumo de drogas”, também é complicadíssimo exigir de uma cultura machista que aceite o uso de preservativos. Mas trata-se de algo a ser afrontado e debatido abertamente. “O meu tesão agora é risco de vida” foi umas das frases mais corajosas ditas por Cazuza.

PS: A partir de agora, os títulos ficarão com essa cara meio "sem identidade". É uma exigência do UOL para divulgar o blog.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 19h17
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A mídia mete a colher



“Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Não, esse ditado não quer dizer que as pessoas deveriam se importar com suas próprias vidas ao invés de palpitarem nas dos outros. Desde que surgiu, essa frase foi muito utilizada para preservar relações em que as esposas apanhavam dos maridos ou eram subjugadas por eles. Dizer para “não meter a colher” significava que esses assuntos como violência física eram de ordem particular, a serem resolvidos entre quatro paredes. Representava, de maneira explícita, um acordo tácito que sustentava o conservadorismo da sociedade.

Com a transformação dos meios de comunicação e com a formação da “ágora virtual”, como apontava o sociólogo Octavio Ianni, em que assuntos do âmbito privado se tornaram público e fizeram um enorme sucesso – vide o Big Brother, que já está há inacreditáveis 10 anos no ar – a mídia passou a “meter a colher” em muitas situações. Não para resolver e denunciar as situações em que a mulher está sendo oprimida, mas porque dá audiência.

Basta nos lembrarmos do caso Eloá, no ano passado: os canais de televisão cobriram ao vivo o resgate da moça e, logo depois, a sua morte. Era um espetáculo atraente, tamanha a sua perversidade mundana. E como todos os envolvidos estavam em redes de relacionamento pela internet – um dos ápices da cultura de exposição da vida pessoal – foi possível ter um contato quase direto com os protagonistas do episódio.

Da mesma forma, o acesso a novas tecnologias – como, por exemplo, os celulares com câmeras digitais – permitem a reprodução dessas práticas em pequena escala. No caso Geisy Arruda, da Uniban, a lógica por trás da gravação das imagens era a mesma.

Talvez o “prazo” para discutir esse tema já tenha se esgotado. Afinal, na sociedade imediatista em que vivemos, um escândalo substitui o outro a tal ponto que mal lembramos qual era a polêmica da semana anterior. De qualquer forma, posto abaixo o programa “Ver TV”, apresentado pelo jornalista Lalo Leal e produzido pela TV Câmara. Participei na semana passada junto com a psicóloga Rachel Moreno, presidente do Observatório da Mulher, e Fernando da Mota, professor da Universidade Federal de Pernambuco. Discutimos esses assuntos, tentando refletir sobre o papel da mídia no episódio “Geisy”. Acho que vale a pena. Está dividido em três blocos.



"Ver TV" - Bloco 1





"Ver TV" - Bloco 2





"Ver TV" - Bloco 3




Escrito por Maíra Kubík Mano às 15h40
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Quem disse que DJ precisa saber tocar?



Dizem as más línguas que Jesus Luz é ruim nas pick-ups. Mas isso não é um impeditivo para que o modelo-DJ seja convidado a tocar nas festas mais baladas do país, cobrando um cachê bem maior que o meu salário. Alçado para a fama graças ao namoro com Madonna, o brasileiro costuma aparecer na noite de óculos escuros, dar alguns sorrisos escancarados e mexer as mãos como um maestro, coordenando a multidão nas pistas de dança.

Ao que tudo indica, a associação entre conhecimentos musicais duvidosos e beleza inegável parece também ter começado a ganhar terreno entre as mulheres. Porém, de uma forma bem mais perversa. Um
amigo me mandou dia desses a seguinte notícia: “Agências apostam no nicho das DJs gostosonas”. São as “DJanes”, apelido engraçadinho para garotas que não estão fazendo sucesso por sua set-list empolgante ou por sua personalidade na hora de tocar.

De acordo com a jornalista e DJ Claudia Assef, autora da
matéria, esse é o caso das Female Angels, “grupo de DJs boazudas arquitetado pelo empresário Gabriel Rossato, da agência Play, uma das mais ativas neste mercado de DJs, digamos, com um ‘plus’ a mais”.





As moças acabam de chegar de um tour pela América Latina, onde fizeram shows para 40 mil pessoas. A multidão compareceu em peso para ver sua “explosão de sensualidade, técnica e sincronismo” – nas palavras da assessoria de imprensa do grupo. O resultado? Além de fama, sucesso e dinheiro, foram convidadas para participar reality show The Next Cover Girl, na Mansão Playboy, no México, onde deram “deram dicas de discotecagem às playmates”.

Parece um caminho óbvio quando o que importa é o corpo, e não a música. Eu tenderia a dizer que isso se agrava quando estamos falando de mulheres com roupas minúsculas rebolando em cima de um palco, mas ao que tudo indica isso também ocorre com homens – vide o caso de Jesus Luz. Em poucas palavras, trata-se da apropriação de uma profissão pela indústria da fama, em que quem está fazendo um trabalho sério, competente e inovador não se destaca tanto quanto aqueles rostinhos conhecidos. Ou, no caso das DJanes, daquelas que aceitam situações de extrema exposição para alcançar o paraíso midiático – vulgo Ilha de Caras.

Se talento passasse por osmose, Jesus Luz seria, no mínimo, um DJ criativo e potente, tal como sua namorada.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h23
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Taís Araújo na novela: o reforço do preconceito

Há alguns anos – ou melhor, décadas –, as novelas da Rede Globo pautam a sociedade brasileira. É fato, gostem ou não. A produção que agora está no ar, “Viver a vida”, traz Taís Araújo como a primeira protagonista negra nesse horário, o que não poderia deixar de chamar a atenção. Para o bem, obviamente. Ao menos era isso que esperava boa parte do movimento negro.

Sendo bem sincera, acompanhei pouquíssimo a trama de Manoel Carlos. Porém, nos últimos dias, tenho visto circular pela internet uma série de críticas a ela. Alguns capítulos atrás, a personagem de Taís Araújo, com o já mais do que batido nome de Helena, apanha da ex-mulher de seu atual marido. Ela praticamente ajoelha no chão e, no bom ensinamento cristão, dá a outra face a Tereza, vivida por Lilia Cabral.

Para militantes do movimento negro e de mulheres, a ação remeteu aos tempos da senzala, em que a escrava era submetida aos castigos da “sinhazinha”. Preconceito, racismo, tronco e chicote foram usados para descrever a situação à qual Helena foi submetida. Isso, claro, sem contar as agressões verbais.

A protagonista, que teria realizado um aborto no início da trama, foi chamada de “criminosa” na ocasião, uma questão que ainda deve aparecer muito até o final da novela. Sem dar a devida dimensão a um tema tão delicado para a mulher, Helena é quase demonizada, seguindo também os ensinamentos católicos desse enredo.

Segundo a pesquisadora Esther Hamburguer,  “as telenovelas são quase tão antigas quanto a televisão no Brasil. Nos últimos 50 anos, o gênero vem acompanhando as transformações tecnológicas, políticas, sociais e culturais que marcaram a história do país”. Ou seja, uma cena desse tipo é resultado direto da realidade, mas também a estimula e a reforça.

Sim, o preconceito e a discriminação existem – e muito – no Brasil. Mas até que ponto a novela da Globo pode reproduzir imagens de violência de uma mulher branca contra uma negra? E criminalizar o aborto, considerando que seu público-alvo é feminino e parte significativa de sua audiência está nas classes C, D e E, justamente aquelas que mais sofrem com interrupções de gravidez inseguras? Em outras palavras, vale tudo em nome da arte? É a humilhação que também dá o sabor ao enredo?

Indo além, trago mais um questionamento, feito por um amigo: essa discussão é pertinente dentro de uma novela que é inteira "branca"? Ou seja, dentro de uma trama em que a realidade é a das classes média e alta que moram no Leblon e em Ipanema, ilhas isoladas que nada têm a ver com a maioria dos negros no Brasil. E se o cenário fosse numa favela de fato, e não do Projac? E se a empregada negra que atende as patroas brancas aparecesse em seu barraco, e não limpando um apartamento de quatro quartos? É, acho que isso não daria audiência.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 01h24
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Ser mulher e negra no Brasil

Hoje é o dia da Consciência Negra. A data, 20 de novembro, lembra a morte do líder quilombola Zumbi dos Palmares.

Aqui em São Paulo e em outras 224 cidades é feriado. Brasília não é uma delas. Ontem fui à capital federal para gravar um programa de TV sobre o caso Geisy Arruda – na semana que vem informo os horários de exibição, se alguém quiser assistir – e ouvi mais de uma pessoa comentar, em tom pejorativo: “Não, aqui não tem esse mole. Vamos trabalhar amanhã”.

Que o Brasil tem muitos feriados e isso é motivo de piada eu já sei. Mas o dia da Consciência Negra é uma iniciativa fundamental, que vem para estimular a reflexão sobre  a nossa sociedade e os preconceitos ainda existentes, além de celebrar a cultura e ressaltar a importância dos negros no Brasil.

Basta pontuarmos alguns poucos dados sobre as mulheres negras para percebermos que ainda temos um longo caminho pela frente:

1.  Junto com as mulheres pardas, as negras 23% da população;
2. 28,19% delas não sabem ler ou escrever;
3. As mulheres pretas, pardas e indígenas são a maioria entre as trabalhadoras domésticas, 35,53%;
4. O salário da mulher negra é até  61% menor do que o de um homem branco ocupando a mesma função;
5. O índice de mulheres negras que nunca teve acesso a um ginecologista é até 10% maior do que entre as brancas.

E por aí vai. Em cada número, uma amostra do quanto temos a fazer.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h18
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Para marca de camisas, lavar roupa é “trabalho de mulher”


Sem tempo para grandes elaborações teóricas – e também porque acho que algo assim até dispensa comentários –, apresento abaixo uma etiqueta de camisa da marca Sergio K., que veste celebridades como Gilberto Gil, Rodrigo Santoro,Thiago Lacerda e Luciano Huck. Uma amiga encaminhou a foto:


 

Nela, podemos ler: “Give it to your wife. It’s her job”. Traduzindo para o bom português: “Dê para a sua esposa. É trabalho dela”. Sem querer ser simplista, não duvido que homens poderosos, que compram trajes caros em lojas sofisticadas – as três unidades da Sergio K. em São Paulo ficam na rua Oscar Freire e nos shoppings Iguatemi e Market Place – e, claro, entendem inglês, riam dessa piada sem graça. Ou, pior ainda, achem que isso é sério e que realmente as mulheres sejam as responsáveis por lavar sua roupa suja.

No mínimo, os dirigentes da marca demonstraram ser machistas, preconceituosos e retrógrados ao grafar essa sentença. Afinal, alguém lá dentro teve essa idéia e a colocou em prática pensando que a clientela iria gostar.

É um completo absurdo que algo desse tipo esteja em circulação. Minha sugestão? Entrar em contato com a tal loja e exigir que essa etiqueta seja imediatamente banida: http://blog.sergiok.com.br/ e, no Twitter: http://twitter.com/SERGIOKOFICIAL



Escrito por Maíra Kubík Mano às 15h07
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Beijinhos e assobios: ninguém merece



Li dia desses um texto de Ivan Martins, da revista Época, sobre como as mulheres recebem cantadas e comentários indesejados na rua e, muitas vezes, não reagem. Me identifiquei com a situação: como toda brasileira, já ouvi assobios irritantes e palavras grosseiras e, frustrada, me senti incapaz de retrucar. Não que não quisesse, mas em várias ocasiões quem dispara tais bobagens mete tanto medo que simplesmente não vale a pena arriscar uma resposta contundente. Ou seja, para evitar uma agressão maior, física, me contento em esquecer aquela oral.

Entre outras coisas, penso que talvez me falte coragem ou “peito”, para usar uma expressão que serve tanto para homens quanto para mulheres.  Mas será que adiantaria sair por aí educando aqueles que assediam outras pessoas em público, lhes dizendo que não, eles não têm o direito de fazer isso? Sempre acabo me convencendo que isso não faria a menor diferença. Volto a ter certeza de que, se uma mulher escolher uma blusa com decote para caminhar em São Paulo ou no Rio de Janeiro ela vai ouvir cantadas. Se colocar uma calça jeans mais apertada também. O mesmo acontece ao vestir uma saia, soltar os cabelos ou usar um sapato de salto.

Anos atrás, quando era menos pessimista do que sou hoje, tive uma experiência positiva em Santiago de Cuba. Nessa cidade na ponta da ilha de Fidel boa parte dos homens aborda as mulheres com beijinhos e fazendo um som parecido com os de um vaqueiro tocando a boiada. É constrangedor. Obviamente não consegui aturar aquilo muito tempo. No auge da irritação, mas ainda com um certo bom humor, comecei a mandar beijos de volta. Bingo! Imediatamente pararam, atônitos. Haviam saído da sua posição de poder. Não surtiam mais o efeito desejado. Não eram mais os donos da situação.

Claro, no exterior esse tipo de reação sempre parece mais “fácil” já que não se trata do nosso terreno cotidiano. E quando olho para trás fico feliz de, como se diz, não ter levado desaforo para casa. Mas, ao mesmo tempo, percebo que a única maneira de desnudar aquela agressão foi me tornando também uma agressora e isso me incomoda. Muito.

Afinal, o poderíamos fazer de fato? Sem dúvida, o fim de situações como essa passa por uma mudança ampla da sociedade, em que a mulher ocupe outro papel e o homem não se sinta dono, proprietário, no direito ou à vontade para simplesmente fazer um comentário rude e muitas vezes maldoso sobre alguém que ele nem conhece.

Mas como lidar com isso desde já, no dia-a-dia? Devemos parar e conversar? Rir da cara do outro? Chorar? Reclamar? Constrangê-lo? Gritar? Tudo ao mesmo tempo e de forma organizada? Não sei ao certo, mas depois de escrever esse post e me sentir uma feminista de quinta categoria, de alguma forma vou começar a me mexer. Ninguém merece viver assim.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 08h44
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Quem pode se comunicar no Brasil



No Brasil, os donos dos meios de comunicação não são conhecidos apenas como proprietários. São também designados “coronéis”. O termo, utilizado com freqüência para traçar um diagnóstico da mídia nacional, não é mera associação conceitual ao coronelismo definido na Ciência Política: diz respeito à forma como se configurou o sistema de comunicação no país.

Basta ver que entre as famílias que figuram no topo da lista dos detentores da mídia no Brasil estão nomes bastante conhecidos do cenário econômico e político nacional, tais como os Collor de Melo em Alagoas, os Barbalho e os Sarney no Maranhão e os Magalhães na Bahia. Ou alguém vai me dizer que ACM não mandava e desmandava?

A questão de como chegamos até essa situação é complexa. Envolve jogos de poder, moedas de troca e repressão desde a República Velha, que persistiram durante a ditadura e se mantêm até os dias de hoje. Com a preocupação de explicitar o tema e explicá-lo de maneira didática, o Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social produziu um documentário preciso, que aponta a concentração midiática no país e, ao mesmo tempo, ressalta a comunicação como um direito humano.

O assunto certamente será um dos nós centrais da Conferência Nacional de Comunicação, que acontece em dezembro em Brasília e deve reunir governo, sociedade civil e empresários. Um nó que, contudo, não será nada fácil de desatar.

O filme, recém saído do forno, se chama “Levante sua voz” e foi dirigido por Pedro Ekman. Vale a pena.


Intervozes - Levante sua voz from Pedro Ekman on Vimeo.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 11h01
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A homofobia é crime, pelo menos nos EUA



Enquanto o Senado brasileiro se limita a discutir publicamente a aprovação do projeto de lei (PLC 122/2006), que pune a discriminação contra homossexuais, em uma enquete em seu site, os Estados Unidos parecem estar bem mais avançados nesse âmbito. Em 28 de outubro, após muita pressão contrária e a favor, Barack Obama assinou uma lei que torna esse tipo de violência crime hediondo em todo território americano.

Conforme relata a blogueira
Alexandra Peixoto, d
esde que assumiu a presidência Obama é criticado por sua falta de atitude em relação aos direitos GLBTs e a medida foi vista como uma primeira ação positiva. Denominada de The Matthew Shepard and James Byrd, Jr. Hate Crimes Prevention Act, a lei honra a memória de um estudante de Wyoming assassinado brutalmente como vítima de homofobia, e de James Byrd, um afro-descendente americano que foi acorrentado na traseira de uma pick-up e arrastado por aproximadamente sete quilômetros. Ambos os crimes aconteceram em 1998.

É verdade que nossos parlamentares não ignoram totalmente a questão: já aprovaram, em 5 de novembro, o PLC 122 na Comissão de Assuntos Sociais. O substitutivo, apresentado pela senadora Fátima Cleide (PT-RO), foi feito à proposta original de autoria da ex-deputada Iara Bernardi, e inclui na lei já existente – que considera como crime o preconceito racista, religioso ou de origem – a punição de atos discriminatórios por sexo, gênero ou orientação sexual.

Porém, há um longo caminho pela frente: a proposta voltará às comissões de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) e Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e segue depois para o plenário do Senado. Se for aprovado pelos senadores, o projeto terá que retornar à Câmara dos Deputados para nova apreciação uma vez que foi modificado pelo Senado Federal.

E as dificuldades não param por aí. Na tal enquete do começo do post, os votos contrários à aprovação da lei são maioria por enquanto.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 12h01
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A justificativa do estuprador


Em 09/11, a Uniban revogou a expulsão de Geisy Arruda e afirmou que seu Reitor "dará melhor encaminhamento" para o caso. Sem dúvida, o recuo dessa instituição de ensino está diretamente vinculado à pressão que a sociedade exerceu. O episódio ainda merece análises mais aprofundadas, mas tiro dele duas lições:1) que de fato não é possível dizer que as mulheres já conquistaram todos os seus direitos; 2) que a mobilização organizada continua funcionando.

Não pensei que voltaria a escrever aqui sobre a Uniban e o caso da estudante Geisy Arruda. Depois de toda a confusão, vídeos na internet e depoimentos na televisão, as cenas do próximo capítulo dessa história pareciam restritas ao seu retorno às aulas.

Eis que o site do Estadão publica uma nota anunciando que amanhã, domingo, a Uniban veiculará nos principais jornais uma propaganda avisando à sociedade ter decidido pela expulsão da aluna. No dia 22 de outubro, Geisy sofreu assédio nos corredores da universidade por trajar um vestido curto e a situação só foi controlada com a chegada da polícia.

“A educação se faz com atitude e não com complacência”, afirmou a Uniban, como conclusão de uma sindicância interna que avaliou a questão. De fato, nada poderia estar mais correto. Se fosse levar essa frase ao pé da letra, essa instituição de ensino privado, uma das maiores do país, poderia ter repreendido de forma contundente todos aqueles que, numa atitude para a qual não há adjetivos possíveis, atacaram a colega e chamaram-na de “puta”.

Porém, no lugar de ensinar tolerância, respeito ao próximo e, principalmente, às mulheres, a Uniban passou como exemplo a anuência, a intransigência e o conservadorismo.

Sim, ao que tudo indica, os envolvidos no episódio foram suspensos. Mas a garota foi expulsa, impedida de estudar. Em poucas palavras, foi considerada culpada por sua própria agressão.

“A atitude provocativa da aluna resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar". Esse tipo de argumento me lembra depoimentos de estupradores que dizem, do fundo do seu coração, “mas ela me chamou, com aquela roupa, aquele sorriso”, tentando justificar uma ação absolutamente irracional e imperdoável.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 20h00
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Da histeria feminina


Voltei hoje para a terapia e desde que saí do consultório não consegui deixar de pensar no peso da palavra “histeria” para as mulheres. Não sigo a linha freudiana ou nada do tipo – aliás, acho que ela anda cada vez mais em desuso –, mas por algum motivo subjetivo comecei a imaginar todas aquelas que, ao longo do tempo, acabaram classificadas como “problemáticas” e até mesmo “loucas”.

Desmaios, crises de choro, perda de sensibilidade e cegueira. Principalmente nos últimos dois séculos, esses sintomas foram atribuídos ao sexo feminino como prova e demonstração de sua fraqueza diante da vida. E por quê? Por não termos os genitais masculinos, como alguns teóricos insistiam em afirmar. Essa percepção pode já estar no passado, mas sem dúvida continua presente no imaginário da sociedade – ao menos o suficiente para ser fundamental compreendê-la.

Tendo isso em vista, compartilho o verbete de “psicanálise e gênero” de um livro argentino que consulto com freqüência – o Dicionário de estudos de gênero e feminismos, em tradução livre. O trecho foi escrito por Irene Meler e traz um resumo interessante da questão, a partir do começo do século XX. Do ponto de vista feminista, claro:

“As representações sobre a inferioridade intelectual das mulheres ou de sua instabilidade emocional buscaram naturalizar algumas características da feminilidade convencional próprias da época. Não obstante, no começo de sua atuação, Freud foi favorável aos interesses das mulheres. Em primeiro lugar, começou a escutar seu discurso e a atribuir-lhe um sentido, com o qual outorgou certa dignidade a seus padecimentos emocionais. Em segundo lugar, discutiu algumas idéias misóginas de sua época. Moebius, um autor muito apreciado no início do século XX, havia escrito uma obra intitulada A imbecilidade fisiológica das mulheres, onde explicava por razões biológicas o escasso aporte feminino na criação cultural. Freud discordou dessa suposição e, ainda que concordasse com o fato de que o comum às mulheres era ter um desenvolvimento cognitivo inferior ao observado nos homens, o explicou sobre a base do duplo código moral vigente, que impunha uma censura sobre seus desejos sexuais muito mais severa que a exercida sobre os homens. Considerava que o desejo do saber era, em seu início, uma curiosidade sobre a diferença sexual e da origem das crianças. E se esse desejo era objeto, no caso das meninas, de uma forte repressão, seu desenvolvimento intelectual futuro estaria prejudicado. Esse é um caminho por onde o pensamento freudiano poderia ter continuado até se encontrar com as teorias feministas, que já existiam nesse período.

Porém, nos escritos posteriores, seu discurso sobre as conseqüências psíquicas da diferença sexual anatômica, o narcisismo, a solução do complexo de Édipo nas mulheres e a formação do superego feminino estiveram cheios de suposições sexistas. Afirmou que as mulheres eram mais narcisistas que os homens, o que sugeria uma menor capacidade de amar, que desenvolviam uma forma específica de masoquismo, ou seja que a feminilidade estava associada ao desejo de sofrer, e que percebiam suas genitais como se fossem órgãos masculinos castrados, e por conta disso se desvalorizavam. Como conseqüência dessa situação de renúncia à satisfação direta de suas pulsões, acabavam presas no desalento de não poder obter genitais semelhantes aos masculinos. Por esse motivo a constituição do superego, a instância psíquica encarregada do controle dos impulsos e que permitia, mediante esse expediente, destinar energia para as realizações intelectuais, era inferior ao habitual entre os homens. Isso explicava a escassa contribuição feminina à cultura. O caminho havia se desviado: de perceber inicialmente as mulheres como oprimidas em excesso e prejudicadas por isso, chegou a supor que as características dos genitais femininos eram responsáveis por sua condição de subordinada”.



Escrito por Maíra Kubík Mano às 23h59
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Maíra Kubík Mano é jornalista. Mestranda em Ciência Política na PUC-SP, estuda a relação entre a mídia e as mulheres. Foi editora-assistente da revista História Viva e já colaborou com diversas publicações. É editora de Le Monde Diplomatique Brasil

 

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